O Diferente é o Verdadeiro Normal

segunda-feira, 14 de outubro de 2019 18 comentários
"Conhece-te a ti mesmo e conhecerá todos os segredos do universo" 

Conheço bem o sentimento de estar abaixo dos outros. Ele me acompanha desde que me dou por gente. Lembro-me de me sentir menor diante dos meus irmãos, porque eles podiam correr e brincar sem limitações, enquanto eu me via restrito a desenhar e fazer brinquedos de sucata. Eu usava minha criatividade para compensar o que o meu físico não permitia. Ficava orgulhoso de minhas criações e isso, intimamente, era um alento, pois fazia com que eu me sentisse especial à minha maneira. Tal consciência, de ser único apesar das limitações, me foi relembrada há alguns dias, quando novamente consultei com meu psicólogo, o Dr. Fábio. 

Dessa vez, contei a ele a estatística que pode soar chocante para muitos de vocês: eu me sinto inferior a todas as outras pessoas durante 99% do tempo. Na consulta, usei um palavrão para me descrever nesse contexto. A razão genuína pela qual me enxergo assim é que não tenho noção do meu próprio valor. Normalmente admiro as capacidades alheias, ao mesmo tempo em que lamento por não tê-las. Vejo alguém dirigindo e gostaria de fazer o mesmo, já que é tão útil e bacana. Assisto alguém praticando um esporte e adoraria ter a mesma mobilidade, a mesma força. E por aí vai. Não me considero invejoso porque não desejo que os outros percam sua autonomia e passem pelo mesmo que eu, isso não. Estou mais para criança carente olhando vitrine de loja de brinquedos. Sim, é essa a sensação.

Voltando ao Dr. Fábio, penso que ele não tenha ficado surpreso com minha revelação, até por saber dos meus problemas de autoestima. Na verdade, quem se surpreendeu fui eu, quando ele disse, com toda a calma de estilo, que, apesar da minha deficiência, eu sou bom em muitas outras coisas; usou até o exemplo do xadrez, dizendo que sabia que, se jogássemos, eu o derrotaria. Respondi então que, se fôssemos disputar uma corrida, eu seria o perdedor e até rimos um pouco disso. Foi nesse instante que lembrei de como me sentia quando terminava de construir um brinquedo de sucata na infância: "puxa, não dá pra eu correr.. mas, me dá uma caixa de remédio que eu faço um carrinho! Isso eu consigo fazer.". Poderia chamar isso de "anticapacitismo internalizado" (relembrem o que é capacitismo aqui).

Apesar de crer que esse sentimento de menos-valia seja comum entre as pessoas com deficiência, penso que a chave para a questão está em olharmos para dentro de nós mesmos e nos reconhecermos como criaturas únicas e, por isso, especiais. Certamente é o que fazem as PCDs que vivem de bem com sua condição; elas não se definem pelas suas limitações, porque sabem que têm muito mais a oferecer ao mundo. Basta pensarmos naqueles que não têm braços, mas pintam belíssimas obras de arte com os pés. E o que dizer  do  Nick Vujicic, cara fantástico que é, inclusive, palestrante motivacional, mesmo sem braços e pernas? Ele é feliz e transpira gratidão. Esses exemplos só reforçam em mim o quanto devo abandonar a mania feia de me sentir a vítima, o coitadinho. A Malu mesma é que não me poupa, não fica alimentando meu desânimo; claro que ela respeita os meus sentimentos, mas sempre faz questão de me estimular a seguir em frente, com força. Isso é demonstração de amor.

Na semana que passou, atendi lá na secretaria uma senhorinha que precisava fazer o cartão do SUS. Nós nunca nos vimos e, mesmo assim, ao final do atendimento, aquela mulher me elogiou; disse que eu era muito solícito, educado e atencioso; me desejou tudo de bom. É curioso, e até irônico, como alguém que me conheceu naquela tarde foi capaz de enxergar qualidades que eu mesmo não consigo notar. Vejo que cometo grande injustiça comigo e com a própria vida quando me nivelo por baixo. Como disse ao Dr. Fábio, talvez eu tenha dado ouvidos demais a certas pessoas que me subestimavam. Sinto que me faltou a necessária responsabilidade para discernir entre o que devo guardar das palavras alheias e o que devo jogar fora. Nunca é tarde para aprender.

As pessoas com deficiência, as pessoas "normais" e até mesmo os "gênios" de diversas áreas têm em comum o fato de não serem capazes de fazer tudo. Assim como eu não posso correr a São Silvestre, talvez você aí não consiga fazer malabarismo com cinco laranjas. O campeão mundial de xadrez pode não saber fritar um ovo ou tocar guitarra (estou chutando). Mesmo que essas limitações sejam supridas pelo aprendizado, sempre haverá outras. E isso não quer dizer que nós sejamos melhores ou piores do que os outros. Somos apenas diferentes.


As Escolhas - nossas ou alheias - e o Respeito: Uma reflexao sobre Como Eu era antes de Você

sábado, 12 de outubro de 2019 17 comentários
Imagem Google - Edição True Love 


Começo a escrever este post confessando que ele está bem atrasado na agenda que Brayan e eu temos programada para o blog. É que a vida anda corrida, e as experiências seguem exigindo de nós um certo jogo de cintura que é difícil conciliar com os sentimentos e as pretensões que nós temos para esse cantinho que, desejamos, seja sempre repleto de amor. Mas, mesmo assim, estamos aqui. Vamos lá?

Hoje me propus a vir dividir com vocês algumas reflexões sobre o romance Como Eu era antes de Você e sobre a importância de respeitarmos as escolhas alheias. Esta concepção, digo, esta consciência sobre a necessidade do respeito, escrita de forma bonitinha assim, parece algo até fácil de se viver; mas a verdade é que, como nos lembrou recentemente um amigo: na prática a teoria é outra.
Atenção: se você não leu/viu o livro/filme Como Eu era antes de Você e não gosta de spoilers, pare a leitura deste post imediatamente!
Sim, é difícil lidarmos com as escolhas alheias; seja quando elas vêm de pessoas que amamos e quebram, de algum modo, as expectativas e os ideais que alimentamos; seja porque elas dizem respeito a atitudes tomadas que, por algum motivo, nos parece que se tornarão causas de dor e aflição. E o fato de termos que definir o limite até onde podemos agir, opinar, torna tudo ainda mais complicado.

Mesmo assim, a necessidade do respeito ao livre arbítrio alheio existe e é fundamental que coloquemos isso em prática. Concordam?

Imagem Google - Edição True Love 
Mas, voltando ao livro Como Eu era antes de Você, a maioria dos personagens tentou de tudo para demover o Will da sua escolha; afinal, mesmo tetraplégico, ele poderia construir uma vida de amor e felicidade ao lado de Lou, certo? Certo. Mas o problema é que ele, Will, não queria esta vida promissora. Apegado às lembranças do passado e à vontade de voltar para uma realidade que não era a sua, ele não teve/tinha olhos para enxergar todas as perspectivas de um futuro bom que o presente lhe trazia.

Digo aqui que de certa forma foi difícil para mim, como leitora e depois como espectadora, ler e ver o desfecho da história de Como Eu era antes de Você. Por imaginar como Will se sentia, eu não me considerava no direito de julgá-lo, condená-lo pela opção que ele fez ao escolher se submeter ao suicídio assistido. Mesmo discordando veementemente, eu sentia que aquele era um direito dele. Mas, ao mesmo tempo, lembro que desejei, torci, rezei mesmo para ele desistir de desistir e chorei quando isso não aconteceu.

Se o ocorrido com Will e Lou fosse uma experiência da vida real, eu teria tentado demovê-lo? Muito provavelmente. Porém, volto ao que comentei no segundo parágrafo deste texto.

Mesmo quando as pessoas que amamos fazem escolhas e tomam atitudes que poderão lhes trazer sofrimento, de nossa parte nós pouco ou nada podemos fazer. O livre arbítrio é um atributo individual e intransferível de cada um de nós e a necessidade de aceitar, respeitar o direito de decidir do outro deve sempre vir em primeiro lugar. No fim, tudo é uma questão de respeito a outra pessoa e, claro, também a nós mesmos.

Imagem Google - Edição True Love 

Novamente falando do romance de Jojo, Lou inicialmente não se sentiu capaz de estar com o Will no momento final. Assim, se era dever dela respeitar e aceitar a escolha dele, também era seu direito se negar a acompanhá-lo. Afinal, por que ela faria parte de algo que só aumentaria a dor e aflição já presentes - como consequência da escolha do Will - no seu coração? Aqui também a história mostrou a necessidade do respeito, mas dessa vez em relação a ela mesma, o que tirou de forma genial todo aquela vibe capacitista da história.

Aliás, neste ponto, preciso dizer algo: a autora Jojo Moyes foi fantástica ao escrever sobre pessoas com deficiência. Ao retratá-las como seres humanos normais, sem aquela alcunha de super heróis ou coitadinhos, ela se consagrou como uma das poucas romancistas que, escrevendo sobre essa temática, conseguiu aproximar intimamente a literatura de entretenimento da vida real. No caso de Como Eu era antes de Você, em especial, não é exagero nenhum eu asseverar que a Jojo conseguiu fazer a arte imitar fielmente a vida. Ou será o contrário, que é a vida que vez e outra inventa de imitar a arte? Vai saber...

Encerro este post e esta reflexão por aqui.
Beijos e um grande obrigada a todxs que acompanham o True Love! Fiquem com Deus!

#AssimComoVocê: A Virtude da Empatia e a Prática da Inclusão

sexta-feira, 4 de outubro de 2019 11 comentários
Imagem True Love 

Oi, gente!
Tudo bem com vocês? 

Vocês sabiam que no dia 26 de setembro foi comemorado o dia do surdo? E que, quatro dias depois, dia 30 de setembro, foi o dia do tradutor e intérprete de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais)? Pois é, tais datas não poderiam passar em branco aqui no True Love; e vocês não imaginam a felicidade que sentimos quando percebemos que podíamos fazer uma reflexão sobre elas utilizando uma experiência linda que nos foi compartilhada pela Vanessa do blog Mulher Virtuosa By Vany.

Sim, é isso mesmo que vocês estão pensando... Depois de um hiato maior que o desejado nas publicações da #AssimComoVocê, hoje a gente traz uma história da vida real que nos faz refletir sobre a importância da empatia e, principalmente, a respeito do que é a verdadeira inclusão. Aliás, à guisa de reflexão, no que consiste a inclusão para você? De que forma nós, tanto como indivíduos como coletividade, deveremos agir na prática para realmente incluirmos os que se encontram à margem da sociedade?

Continuem lendo o nosso post, pois a Vany trouxe a melhor das respostas. Um beijo enorme para você, Vanessa! Muito obrigada pela sua participação aqui no True Love. 

***

Instagram @mulhervirtuosa_byvany

E tudo começou pela empatia.

De tentar sentir na pele do outro e de pensar:"E se fosse comigo? Como eu gostaria de ser tratado(a)?
Empatia significa a capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela.

E foi assim que um dia, estando eu em um sítio para um evento da igreja em que frequento, conheci o Pablo, um colega de trabalho do meu cunhado Sidnei. Meu cunhado tinha convidado o Pablo para esse evento.O Pablo é uma pessoa muito alegre, e disposta a ajudar. Chegou no sítio cumprimentando todos, com um sorriso. No final do evento, enquanto arrumávamos as cadeiras para colocar no transporte para levar para a igreja, ele rapidamente solícito, já foi pegando as cadeiras para nos ajudar a colocar no carro transporte. Ele tem deficiência auditiva, e isso não o impediu de participar, de ajudar, de se envolver e  de estar ali com a gente.

Quando fui cumprimentá-lo eu não sabia como me comunicar com ele. Foi o meu primeiro contato com uma pessoa com deficiência auditiva. E foi aí que me senti triste e impotente. Eu queria ter acolhido ele melhor, queria saber o que sentia de estar ali, poder conversar com ele. Mas eu não passava de um sinal de positivo com as mãos ou sorrisos. Foi aí que pensei: "Não estou preparada para acolher um surdo, a igreja não está preparada para acolhê-lo também". E Pablo teve disponibilidade para ir ao evento, mas o evento não teve como integrá-lo. Ninguém sabia Libras ( Língua Brasileira de Sinais). Pablo recebeu amor, mas se eu fosse o Pablo, eu gostaria de me sentir acolhida quando alguém se comunicasse em Libras comigo e soubesse dos meus sentimentos. Eu iria  me sentir mais acolhida ainda se houvesse uma comunicação eficaz. 

Foi nesse momento que a empatia me tocou. E foi nesse momento que duas pessoas que admiro muito vieram à minha mente: A Carol presidente da AGAII ( Associação Grupo de Apoio a Inclusão de Itajubá-MG ) e a Malu, do Blog True Love . Essas duas pessoas souberam do quanto eu me senti incapaz nesse dia e compartilhei meus sentimentos com as duas. A Carol disse que me ajudaria com algum curso de Libras que ela soubesse e a Malu, me incentivou a ver cursos de Libras pelo Youtube. Mas as duas pontuaram o sentimento reflexivo e verdadeiro da empatia e que isso é o princípio de tudo.

Eu comecei a procurar aulas de Libras pelo Youtube como a Malu me disse e comecei a aprender os gestos básicos. E logo, a Carol me disse sobre um curso de Libras em minha cidade no CAIDI (Centro de apoio e Integração de Deficientes de Itajubá-MG). A igreja que participo, Igreja do Redentor, o Pastor Matheus, meus cunhados Sidnei e Michelle , minha vó e minha mãe me ajudaram nos custos e comecei a fazer Libras.

A primeira coisa que a professora de Libras, Kethulinn, me perguntou foi o motivo de eu estar ali aprendendo Libras e eu disse que foi por conta do Pablo. Um deficiente auditivo que me inspirou a aprender para me comunicar com ele e toda a comunidade surda.


Fotos do arquivo pessoal @mulhervirtuosa_byvany

Um dia tivemos um evento na praça de minha cidade devido ao Dia do surdo (26/09). E adivinhem quem apareceu por lá? Sim, o Pablo! Quando o vi chegando, meu coração se encheu de alegria, pois eu consegui cumprimentar ele em Libras e pude me comunicar um pouco com ele em Libras. A minha emoção foi tanta que não contive as lágrimas. Ele me disse em Libras: "Como você está emocionada!". E eu disse, que "sim, e muito!".

Hoje eu aprendo Libras por aula presencial e pelo Youtube, falo um pouco em meu instagram sobre Libras, mostro alguns sinais básicos para as pessoas poderem se familiarizar e aprender. Até meu marido já está aprendendo e já se comunica um pouco com o Pablo e outros surdos.

É contagiante! É emocionante! E eu quero fazer diferença na comunidade surda. Eu quero aprender com eles e acolhê-los. Na verdade, comecei a me envolver tanto com o CAIDI, que conheci pessoas com outros tipos de deficiência e isso tem me movido a estar envolvida na causa junto a eles.

E tudo começou.... pela empatia.

***

É isso, galerinha! Encerro o post com este "exemplaço" de inclusão da Vany. Lindo, né? Que tal atitudes semelhantes se multipliquem pelo mundo à fora. A seguir, os link do blog e das redes sociais da Vany. Acompanhem o trabalho maravilindo dela!

Blog: http://www.byvany.com.br
Facebook: https://www.facebook.com/mulhervirtuosabyvany/
Instagram: https://www.instagram.com/mulhervirtuosa_byvany/
Youtube: https://www.youtube.com/user/byvany
Twitter: https://twitter.com/by_vany

Por Que Esqueci Meu Sonho?

quarta-feira, 2 de outubro de 2019 17 comentários
A zona de conforto parece nos proteger, mas limita.

Algumas pessoas devem pensar que tenho problemas para falar do que me aconteceu, do motivo pelo qual ando com apoio e preciso de ajuda com algumas coisas. Não lembro de sentir dificuldade para abordar o assunto; sempre respondi às perguntas com naturalidade, deixando claro que tudo poderia ter sido muito pior. Porque poderia mesmo. Não sei a porcentagem, mas acredito que expressiva maioria dos bebês que nascem em circunstância de paralisia cerebral/falta de oxigenação fica com sequelas mentais irreversíveis. Em minha trajetória, pude encontrar algumas crianças nessa situação; a última que conheci foi na equoterapia, há uns seis, quase sete anos atrás, quando eu ainda estava na faculdade. 

Era um menino com cabelo compridinho. Ele estava sentado na grama, com as costas apoiadas na perna de sua mãe; suponho que, assim como eu, ele não conseguia se sustentar sozinho. Me enxerguei naquele garotinho, como se olhasse para uma janela do passado. Porém, fiquei impactado ao notar que ele não respondia normalmente a estímulos; conversei um pouco com aquela mãe e, pelo que pude descobrir, seu filho dependia de ajuda para tudo. O dano cerebral era significativo e aquela criança precisaria de ajuda por toda a vida. 

Meu pensamento nessas ocasiões, em que eu me deparava com alguém que teve o mesmo problema, porém com consequências mais graves, era sempre o mesmo: "poxa, vivo reclamando, mas olha aí... pelo menos eu posso comer sozinho, posso me comunicar, estudar, trabalhar... sou muito mal agradecido...". Lembro de como me sentia envergonhado por não reconhecer a bênção que recebi. Ainda hoje peco nesse sentido, o que mostra que preciso continuar me trabalhando. Pelo menos estou consciente de meu erro, o que já deve ser algo de bom. Acontece que, além do mau hábito do reclame e do cultivo da autopiedade, percebo que caí em uma perigosa zona de conforto nesses últimos anos.

Explicando melhor, quando eu era mais novo, ali na infância e até o final da adolescência, eu mantinha viva a crença de que, um dia, eu caminharia. Não supunha de que forma isso iria acontecer, mas, para mim, era apenas uma questão de tempo até que eu estivesse dando meus passos sem apoio. É claro que ter fé é muito importante, mas a fé sozinha não faz milagres; é preciso agir, fazer alguma coisa para realizar o que se deseja. E hoje, quase completando vinte e oito anos, percebo que pequei exatamente nesse sentido; eu confiava, mas não fiz minha parte para obter o resultado tão sonhado. Advogando em causa própria, afirmo a vocês que isso não é totalmente minha culpa.

Quero dizer, nunca me faltou vontade, pelo menos creio que não. Minha dificuldade costumava ser, e ainda permanece sendo, a falta de determinados recursos materiais. Bem, ainda criança, depois de operado, não pude fazer a fisioterapia porque não tive condições. Mais crescido, quando estagiei na Receita Federal, paguei por sessões que eram realizadas em casa, contudo logo tive de parar, pois o estágio findava e, com ele, também a minha bolsa. O BPC (benefício de prestação continuada) que eu recebia sempre utilizei para ajudar em casa. Mais recentemente, formado e advogando, não ganhei o suficiente para me tratar. Vejam que sempre esbarrei no mesmo, na falta de recursos, especialmente financeiros.

Independente dessa circunstância, digo a vocês que, com a chegada da vida adulta, eu simplesmente esqueci da fé que tinha em caminhar. Talvez isso tenha a ver com as decepções que sofri, não sei dizer, mas o fato é que apenas há pouco tempo eu acordei para a chocante realidade: eu parei de acreditar que posso andar um dia. E, pior, me acomodei nessa zona de conforto, regada a reclamações e autopiedade. O que houve com o meu sonho? Por que o matei? De repente enxerguei como tenho me sabotado, condicionando minha melhora ao dinheiro. É deveras conveniente admitir que não estou me recuperando porque não posso pagar terapias, tratamentos. Só que fatos recentes me fizeram perceber que preciso urgentemente fazer algo a respeito. Ora, eu não quero passar a minha vida inteira do jeito que estou; pelo menos quero melhorar o possível. E isso demanda ação.

Por isso, na semana que passou, comecei, com o apoio e o estímulo fantásticos da Malu, a enfrentar meu medo de cair. Algo como uma exposição gradual. Para quem ainda não sabe, o que atualmente me impede de caminhar é o horrível medo de cair, que me abraçou de vez depois das minhas cirurgias, na infância. O médico disse que eu caminharia em seis meses, porém aqui estou, vinte anos depois, ainda precisando do apoio e vivendo apavorado ante a ideia de um tombo. As minhas pernas foram corrigidas, mas a fobia veio e permanece; quando bate o medo, nem consigo tirar o pé do chão. De qualquer forma, a tomada de consciência que tive esses dias me mostrou que só me livrarei do terror fazendo algo a respeito, e não esperando que um milagre aconteça, enquanto me vitimizo.

Em resumo, estou tentando dar alguns passos sozinho em um espaço pequeno, sem risco de cair ou me bater em algo. Nessa semana, consegui andar até a cama, mesmo tremendo de medo diversas vezes. A Malu me incentiva muito e até a Nina parece torcer para que eu consiga. É bem difícil encarar um medo tão forte, eu chego a suar a camiseta toda e às vezes sinto algo semelhante a vertigem, o coração só falta explodir. Mas a sensação de conseguir uma vitória, ainda que pequena, como dar cinco passos sem apoio, não tem explicação. Pretendo continuar treinando, aumentando o espaço; confio que, apesar da dificuldade em superar o pânico, não há outro caminho e por isso devo fazer minha parte. Eu preciso reavivar meu sonho.

Me sinto envergonhado e um tanto revoltado quando penso que, mesmo com as pernas corrigidas, não consigo andar só por causa do medo, enquanto há pessoas que se locomovem até mesmo sem uma das pernas. Mas de nada adianta eu remoer esses sentimentos, não é assim que vou melhorar. Caí em uma zona de conforto terrível, preciso me disciplinar e sair dela logo. Justamente a palavra que detesto, "superação", é que parece mostrar o caminho.  

E se o True Love chegar ao fim?

quinta-feira, 26 de setembro de 2019 17 comentários
Imagem: Banco de imagens Canva

Calma, gente. Não aconteceu nada entre Brayan e eu. Este não é um post sobre término de relacionamento ou desilusão amorosa. Na verdade, escrevo este texto a partir de uma conversa que tive com uma amiga, via direct do Instagram. Ela, depois de três decepções, vem fugindo de tudo o que possa levá-la a um romance, do mesmo modo que dizem que o diabo foge da cruz. Há tempos venho tentando demovê-la desta postura, mas, fazer o que? Ela está irredutível. Infelizmente.

Mas, não é exatamente sobre a história da minha amiga que vai se construir este texto. Para ser sincera, só resolvi mencionar sobre o assunto aqui porque, durante a nossa conversa, ao usar meu namoro com o Brayan como exemplo de "para sempre", ela me fez pensar em duas coisas: Brayan e eu ficaremos juntos até o fim da vida? Qual seria a minha reação se, num futuro próximo ou distante, o Grandão e eu optássemos por seguir caminhos diferentes? Questões capciosas estas, para as quais é difícil dar uma resposta certeira, imediata, definitiva. Mas, apesar disso, não custa fazer uma reflexão a respeito, né? Então vamos lá...

Uma das poucas prováveis causas para a separação do casal que hoje vocês aprenderam a conhecer como True Love é que o Brayan está esperando ser chamado para assumir a sua vaga no concurso do TRF-5 no qual foi aprovado. E, quando isso acontecer, digo, quando ele for chamado ao trabalho que provavelmente será em outra cidade do estado, dificilmente eu poderei acompanhá-lo. E antes que alguém cogite pensar, não, não é por falta de vontade. "Ah, Malu, como não? Ele atravessou o país para vocês ficarem juntos, por que você não pode ir com ele para onde ele for?" Se você é alguém que me questionaria isso, eu sinceramente só espero que você saiba que nem sempre querer é poder.

Claro que Brayan e eu já conseguimos muitas coisas apesar das nossas limitações. Ele mesmo veio sozinho para cá numa viagem que durou, entre escalas e conexões, quase dez horas. Por minha vez, já o acompanhei sozinha em algumas viagens a Fortaleza - a mais recente foi na que fizemos a prova do Tribunal de Justiça do Ceará. Juntos a gente realiza diariamente um pouco do que muitos julgaram e julgam impossível. Mas, quando a questão envolve a minha mudança de domicílio, surgem obstáculos e dificuldades infinitamente maiores. Então, por ora, e de comum acordo, não, eu não poderei ir junto quando Brayan for começar a trabalhar no tribunal. Se vamos terminar? Não queremos. Não planejamos. E por ora isso nos basta.

"Mas, e se vocês terminarem, Malu, como você vai ficar?" Bom, aqui eu só consigo ouvir Sandy e Junior cantando: o que é imortal não morre no final. Nada é mais representativo do que tenho no coração para o Brayan do que este trecho de música. É que, mesmo separados novamente pela distância, e ainda que na eventualidade do término do nosso relacionamento, minha única certeza é que o sentimento que me liga a ele é, sim, verdadeiro. E justamente por sê-lo é que não vai findar, deixar de existir. Afinal, não é por acaso que somos True Love. É por Amor.

Hábito de Casal: Ler a Dois é Mais Divertido

segunda-feira, 23 de setembro de 2019 11 comentários
Nina e eu, na hora da leitura. Ela entende.

Eu gosto de fazer as coisas do dia a dia com a Malu. Isso inclui ajudá-la com as roupas, pegar objetos que estão muito alto, cortar a carne do prato dela no almoço, etc.. É bom estar ali para a minha pequena e nós já estamos bem acostumados com nossa rotina. Alguém poderia dizer que somos muito pacatos, quase como dois velhinhos; a verdade é que gostamos de rituais, de manter costumes. Por exemplo, nosso revezamento quando vamos escolher filmes para assistir; um da Malu, outro do Brayan, assim os dois veem o que gostam e também exercitam o hábito de ceder, tão importante para manter o relacionamento.

Nas últimas semanas colocamos em prática uma ideia da Malu: começamos a ler um livro juntos. A baixinha já havia me consultado a respeito e eu disse que adoraria. Então, ela escolheu, lá no centro espírita, a obra Tudo Tem Seu Preço, da Zibia Gasparetto. De lá para cá, todas as noites antes de deitarmos, à exceção das quartas do Evangelho no Lar, Malu e eu vamos ali para a cama e lemos um capítulo da história. Até a Nina fica deitadinha perto de nós, quase como se entendesse; ela acaba pegando no sono antes de terminarmos, que nem criança mesmo. Eu vou lendo e interpretando cada personagem, dando uma voz e uma entonação diferente para cada um. É muito divertido. Tem vezes que a Malu acha a maior graça, especialmente quando eu faço as vozes femininas. Até já brinquei que estou descobrindo uma vocação para dublagem.

Um parêntese. Não vou dar spoilers, mas quero falar rapidamente sobre um dos personagens da história, o Marcelo. Ele é um rapaz que, no começo do livro, se mostra frustrado com a vida, fazendo tudo que os outros querem, sem se impor; e ainda é apaixonado por Mirtes (personagem odiosa), que o conduz feito uma marionete. Quando estávamos já no primeiro capítulo, eu me indignei com Marcelo; fiz até alguns comentários jocosos. Só via a Malu rindo, dizendo que ele lembrava bastante a mim em alguns detalhes. De fato, em outros tempos, só para constar, eu era muito "pau mandado" dos outros; e também era loucamente apaixonado por uma garota que não valia a pena, o que me rendeu um sofrimento e tanto. Admito que, ao caçoar do Marcelo, eu olhava para um espelho do passado, mas isso é assunto para outro dia.

Findo o parêntese, saibam vocês que, na verdade, não é a primeira vez que eu interpreto uma obra para a Malu. Certa vez, assistimos ao filme Bastardos Inglórios, aquele com o Brad Pitt, com temática de Segunda Guerra e nazismo. Fiquei um pouco aborrecido quando percebi que muitos diálogos seriam em alemão, sem tradução, apenas com legendas; é que a Malu não consegue ler, e como o filme parecia tão bom, eu precisava de uma ideia para que ambos pudéssemos entender a história. Bingo, decidi dublar as partes com legenda e acho que a Malu conseguiu acompanhar numa boa. Só a circunstância de eu praticamente contar a história já nos rendeu um momento único; é uma boa lembrança.

A Malu, vez ou outra, comenta que um dia não vai conseguir mais enxergar; espero que ela esteja errada a respeito. Mas a minha resposta é sempre a mesma: "então eu vou ler para você e vou dublar os filmes também, se precisar!". Pode ser muita pretensão minha, mas eu quero facilitar a vida da Malu o máximo que eu puder; quero fazer ela feliz dentro do que me cabe. Especificamente sobre o livro que estamos lendo, a experiência tem sido tão gostosa que nós devoramos quase trezentas páginas em pouco mais de quinze dias. Faltam só sete capítulos para acabar. Lógico que a história em si é envolvente, trazendo diversas lições entre os cenários e diálogos. Mas o fato de ser um ritual a dois, uma coisa nossa, um momento do dia em que paramos tudo e nos concentramos em algo juntos, dá um colorido todo especial àquela meia hora antes de deitarmos.

É muito saudável manter um hábito de casal. Penso que isso é um lembrete de que o(a) namorado(a), o cônjuge ou o(a) companheiro(a) são, ou pelo menos devem ser, nossos amigos. E amigos fazem coisas juntos, dividem momentos; por que interditar essa possibilidade logo a quem compartilha da nossa vida? Não preciso dizer que é igualmente importante que mantenhamos nossos costumes individuais, nossos hobbies pessoais; mas, que exercício fantástico de concessão, que demonstração de afeto é dedicar um tempo para o "nós".
  

E para a nossa surpresa, nossa vida é... Normal.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019 21 comentários
Arquivo pesssoal. Foto: @fotografowesley

Quando Brayan e eu convivíamos apenas pela internet e começamos a perceber que o sentimento nascido entre a gente já havia superado a "fase do fogo de palha", nós dois - cada um ao seu modo - nos vimos em meio a algumas preocupações. É que, vejam, nós temos nossas necessidades específicas e sempre fomos conscientes das nossas limitações. Sabemos que precisamos de ajuda para algumas das atividades que toda pessoa precisa realizar durante o dia e, já naquela época, passamos a imaginar como seria se nós realmente chegássemos a viver juntos. Assim, questões do tipo "conseguiremos levar nossa vida com a relativa independência e autonomia que desejamos?" permeavam os nossos pensamentos, e mesmo tentando mostrar confiança e positividade quando elas vinham à tona, a verdade, eu reconheço, é que nós dois temíamos não conseguir.

A realidade é que sem a convivência que só o dia a dia e a proximidade física nos permitem hoje, tanto ele lá no Sul, quanto eu aqui no Ceará alimentamos, por algum tempo, determinadas e angustiantes aflições. Afinal, como conversávamos muito e a sinceridade sempre foi presença marcante entre a gente, nós já conhecíamos a rotina um do outro e sabíamos o que cada um precisava no tocante ao auxílio de outra pessoa. 

Eu, por exemplo, sabia que, por conta da sua condição física, o Grandão não tem a mobilidade e nem a flexibilidade que lhe permitiriam calçar meias e sapatos, ou vestir as roupas de baixo. Ele, por sua vez, soube muito cedo das minhas fragilidades respiratórias e, de antemão, conheceu o meu companheiro Trilogy. Soube, também, que por relativa falta de mobilidade, eu preciso de ajuda para abotoar e às vezes vestir shorts e calças jeans; e que não consigo andar muito tempo sem cansar - sentir falta de ar. Enfim... Nós jogamos tão limpo um com o outro sobre as nossas limitações físicas, que acabamos, sem perceber, permitindo que tal sinceridade encontrasse eco justamente na caverninha do medo que trazíamos em nós. "Será que eu vou dar conta de ajudá-lo no que ele precisa?" - eu temia. "Conseguirei cuidar dela, protegê-la?" - ele se preocupava. E assim foi sendo até que um episódio quase fez com que terminássemos de vez, antes mesmo de nos conhecermos pessoalmente.

Mas, graças a Deus o que era para ser o fim foi apenas uma pausa e, com a superação dela, nós partimos para planejar o que acabou sendo a viagem das nossas vidas - o nosso primeiro encontro pessoal depois de um ano e meio de conversas virtuais. Como muitos de vocês que já nos acompanham desde o começo do blog sabem, eu fui para Passo Fundo e lá a gente teve a oportunidade de conviver 24 horas por dia durante uma semana. E, preciso dizer, aqueles dias no Sul foram surpreendentemente reveladores. E pacificadores também. Logo no primeiro dia pudemos perceber que o bicho papão não era tão invencível quanto pensávamos e temíamos. Brayan tirou de letra o fato de me ajudar durante as refeições (cortando as carnes do meu prato, colocando meu café, etc.) e quando eu precisei de uma mãozinha para levantar do sofá (o da casa dele é baixinho). Isso sem contar o episódio em que eu quase levei um tombo no banheiro do quarto dele e ele "correu" para me segurar. Viram como ele me cuida desde o começo?

Quanto a mim, aquela semana me mostrou a verdade daquela frase que diz que "toda baixinha é invocada". Não vou dizer que na primeira vez foi fácil ajudar o Grandão porque não foi. A junção das nossas limitações físicas dificultou o processo do tirar o tênis e a calça jeans dele, mas no fim deu tudo certo. Eu não desisti e ele teve toda a paciência do mundo para me ensinar, esperar. E o resultado desse trabalho em dupla foi que, ao final daqueles sete dias, nós dois já estávamos craques - pelo menos nessa parte. Confesso que saí de lá sem saber se conseguiria ajudá-lo a se calçar e fazer outras coisas, mas só o fato de ter sentido que com jeito e paciência a gente poderia, sim, se virar sozinhos, fez com que uma esperança a mais nascesse no meu coração. Lembro que já em casa o meu pensamento constante era: se o destino colaborar, a gente consegue ter a nossa vida independente, sim!  Naquela época eu mal sabia que ele, destino, já estava encaminhando tudo para que as coisas entre a gente dessem certo; e que as férias no Ceará que havíamos planejado lá no Sul para o Brayan o transformariam num imigrante gaúcho e no mais novo morador de Granja.

Pois é. Agora em novembro fará três anos que o Grandão e eu dividimos o mesmo lar. E caso vocês nos perguntem se aqueles medos e preocupações iniciais ainda existem, ouvirão de nós dois em alto e bom som um rápido "NÃO". Eu já não temo não conseguir auxiliar o Brayan no que ele precisa e ele da mesma forma já perdeu aquela aflição que o fazia sofrer por achar que não daria conta de me ajudar, cuidar. A verdade é que, a cada dia, a gente vem descobrindo juntos novas possibilidades e maneiras de suprirmos as limitações um do outro. Antes de ontem mesmo a máscara do meu respirador desmontou e adivinhem quem consertou? Sim, nós nos ajudamos em tudo. Sempre. E tem sido maravilhoso perceber que, ao contrário do que pensávamos, a nossa deficiência não impede em nada que tenhamos uma rotina igual a de qualquer outro casal. Acredito - e acho natural - que muitas pessoas se questionem sobre como é o nosso dia a dia quando veem a gente juntos. A estas a gente dá agora a resposta que a vida nos deu naquele começo, lá em Passo Fundo: nossa vida é louca e adoravelmente normal! hahaha

"O óbvio é o que menos se enxerga"

terça-feira, 10 de setembro de 2019 15 comentários
Imagens Google. Na mosca.

Eu já passei por pelo menos três psicólogos. Os problemas a tratar eram sempre os mesmos: minha baixa autoestima, a não aceitação da minha deficiência, as questões mal resolvidas com meu pai e minha dificuldade em lidar com a raiva. Quando começava o acompanhamento com um novo profissional, já ia dizendo: "Tenho muita coisa para resolver, vou dar trabalho!". Como se não bastasse, recentemente adicionei dois itens à lista: a depressão e a ansiedade. Essas duas circunstâncias não são novas, não surgiram do nada. Para ser franco, elas vinham comigo há muito tempo, porém eu as negligenciava, sempre colocando para debaixo do tapete, como se fosse capaz de lidar com tudo sozinho. Talvez eu tenha me deixado levar por comentários como "depressão é falta de trabalho", "ansiedade é frescura", etc.. Reconheço que não me fiz bem agindo dessa maneira. Eu sabia que tinha de fazer algo a respeito, mas ia empurrando com a barriga, porque era mais cômodo.

Quando comecei a viver com a Malu, tomei a consciência definitiva de que era necessário sair da zona de conforto e buscar ajuda novamente. Porém, agora, abrindo a caixa de Pandora para valer, expondo todos os itens da minha lista. Eu precisava encarar todos os demônios para seguir em frente. Acabei chegando ao CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) no ano passado e, desde então, tenho realizado tratamento com o Dr. Fábio, um cara gente boa, muito tranquilo e que sempre tem uma boa resposta para as minhas indagações. Inclusive, já tive uma grande epifania em uma das consultas. Preciso admitir, a ajuda do psicólogo tem sido muito importante na minha busca por uma vida mais feliz. 

Mesmo assim, e por mais incoerente que isso possa soar, eu costumo ficar contrariado quando se aproxima o dia da consulta, todo mês. Não dá vontade de ir. Eu começo a me aborrecer por ter de sair de casa, por ter de gastar uma hora do dia dessa maneira. Birra, pura birra da criança mimada; esse meu lado merece uma bronca. Apesar de saber que o tratamento me auxilia, fico me sabotando. Creio que é a tentação de voltar à zona de conforto, o velho impulso de "deixar pra lá", fingir que os problemas não existem e ir levando a vida. Nada esperto. Por isso, não falto às consultas, apesar de resmungar um bocado; e ainda bem que compareço sempre, porque volto de lá me sentindo bem melhor.

Enfim. Na última consulta eu desabafava com o Dr. Fábio sobre como não estou levando a vida que planejei. Sim, porque eu tinha arquitetado tudo, antes mesmo de me formar: como sempre estudei pra caramba, passei na OAB antes de pegar meu diploma; depois da colação de grau eu procuraria uma vaga em algum escritório, ou advogaria por conta, durante uns dois anos; e ficaria "bem". Olhem que maravilha! Parecia tão simples... O problema é que, segundo um pensador desconhecido, "a vida é que nem matemática, se está muito fácil é porque está tudo errado". E eu me equivoquei bonito. Descobri na marra o quanto era difícil encontrar trabalho na área jurídica, ainda mais recém formado, sem experiência. Acabei me tornando concurseiro e, apesar de ter sido aprovado em um bom certame, ainda estou esperando pela minha vaga. Isso me aborrece, porque tenho sonhos a realizar, sendo que um dos principais é atingir a estabilidade financeira.

Na verdade, para os fins deste post, eu preciso ser mais específico. Me decepcionei muito com o Direito. Acreditei que o curso me abriria muitas portas, me daria oportunidades fantásticas de ganhar dinheiro. Se fosse há uns vinte ou mesmo trinta anos atrás, de fato, eu poderia estar certo; haveria trabalho e se poderia até fazer um pé de meia na advocacia. Mas eu devo lembrar a vocês que hoje, em 2019, nós já temos mais de um milhão e duzentos mil advogados no Brasil. É gente demais. E olhem que nem contabilizei os bacharéis que não passaram na OAB. O sonho jurídico dourado há muito desvaneceu. O nicho que sobra é mesmo o dos concursos. Mas ninguém quer fazer faculdade para se tornar concurseiro. Eu não queria, por isso a frustração.

Mas deve-se notar que o meu sentimento de insatisfação decorre do foco exagerado nas coisas que ainda não tenho. É um processo completamente oposto ao da gratidão, quando reconhecemos que somos afortunados. Eu costumo me sentir um fracassado porque, até o momento, não consegui satisfazer muitos de meus desejos. A frustração anda de mãos dadas com a depressão, a ansiedade por chegar logo "lá"e a raiva por ver gente se dando bem sem fazer por merecer. Isso tudo pesa demais para carregar todos os dias.

Pois bem. Voltando à minha última consulta, após meu desabafo completamente justificável, o Dr. Fábio fez suas considerações e, lá pelas tantas, me disse para eu pensar em todas as coisas que aprendi ao longo da minha vida. Nem todas elas vieram do Direito, da minha faculdade. Eu aprendi com pessoas, com experiências, com diversos fatos e circunstâncias. De repente, entendi o que ele quis dizer: a minha vida não é apenas o Direito. Isso ficou ainda mais claro quando ele enfatizou: "Brayan, a sua vida não acabou". Bingo! Eu cometi o erro supremo de monopolizar meu tempo, minha energia e meus sonhos, direcionando tudo isso apenas para o Direito, como se não houvesse mais nada que valesse a pena. Até admiti ao Dr. que eu ajo como uma mula usando aquela geringonça que impede de olhar para os lados. Só enxergo um caminho e sofro se ele não me leva aonde quero chegar.

Investigando mais a questão, acabei lembrando de algo que a minha mãe disse no meu primeiro dia de faculdade. Ela disse: "quando você sentar a bunda naquela cadeira, lembre que estará construindo o seu futuro!". Conselho de mãe, não poderia ser mais correto; a dona Eliane foi certeira, eu realmente tinha de ser responsável e me dedicar aos estudos. Acontece que levei o ensinamento dela a sério demais. Tenho essa mania feia de ser extremista, ou oito ou oitenta. A minha mãe nunca disse que eu devia abdicar das coisas que gosto, nem que eu tinha de devotar atenção exclusivamente ao Direito. Confesso que quis dar orgulho para ela, mas acho que pesei a mão. Acontece, pessoal. 

A fala do Dr. Fábio, sobre a minha vida não ser apenas o Direito, veio ao encontro de algo que a Malu me disse na semana passada. Segundo a minha linda pequena, lá na frente, daqui uns anos, eu posso descobrir outras coisas que me façam sentir realizado, além do Direito. Ela até me pediu para imaginar o que eu desejava há dez anos atrás; fiquei estarrecido ao lembrar que era apaixonado por uma verdadeira bruxa, só para citar um exemplo. Foi um exercício muito interessante, como uma terapia de choque. A minha terapeuta caseira novamente foi ao ponto. Quanto à consulta com Dr Fábio, voltei de lá me sentindo muito melhor. Foi como se tivesse tirado um grande peso das costas. Não é que o Dr. tenha dito algo extraordinário, mas é como um ditado que já escutei, "o óbvio é o que menos se enxerga". A vida é um leque de possibilidades e traz consigo uma miríade de oportunidades; nós só precisamos estar abertos. Enfim percebo isso. Antes tarde do que nunca...

Setembro Amarelo: Na espiral da vida é que acontece o aprendizado

sexta-feira, 6 de setembro de 2019 31 comentários
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Com o que tenho em mente para este post, a Malu de outrora poderia começar dizendo que a vida transcorre numa espécie de círculo, no qual algumas experiências se repetem indefinidamente. Mas, de tanto a vida me mostrar que a gente está aqui para aprender, crescer, e que isso seria algo impossível de se conseguir num processo circular, eu prefiro iniciar este texto refletindo sobre o fato de que, talvez, o movimento da vida se desenrole numa espécie de espiral. Afinal, se é certo afirmar que algumas situações que vivenciamos se repetem, também é certo dizer que nós nunca somos os mesmos quando algo assim acontece. Vocês já se deram conta disso?

Vejam, estamos mais uma vez em meio à campanha do Setembro Amarelo - uma ação social de alcance mundial e que, em poucas palavras, pode ser descrita como um conjunto de atividades que tem por fim o combate à depressão e a prevenção do suicídio. Ano passado eu cheguei a escrever sobre este assunto aqui no blog, quando contei sobre a minha gratidão por ser baixinha e fiz uma reflexão sobre a importância dessa campanha no contexto atual da nossa sociedade. Naquela época eu já tinha uma noção sobre o quão importante é o Setembro Amarelo e toda a mobilização que ele promove. Mas, hoje, um ano depois, ainda que escrever sobre este tema pareça ser apenas mais uma experiência se repetindo na minha vida, o que eu posso dizer é: eu não sou mais a Malu daquele post, a autora que, mesmo nutrida das melhores intenções, acreditava que o simples fato de falar coisas positivas para quem vivencia a depressão poderia ser a solução. Hoje eu sei que não é. Na verdade anda longe de ser...

Como alguns de vocês já sabem - pelo menos vocês que acompanham semanalmente as nossas postagens -, a dona depressão não é novidade na minha vida. Em um texto publicado recentemente aqui no blog - o Amor X Depressão - eu comentei sobre um período complicado que passamos em casa, quando o meu pai vivenciou a realidade dessa doença; e, ainda no mesmo, que na verdade foi escrito em forma de uma carta, eu prometi a ela, depressão, que lutaria com todas as minhas forças e o meu amor ao lado do Brayan (que foi diagnosticado ano passado com TAG e transtorno depressivo) e que juntos nós a venceríamos, não me importava o quão difícil fosse a batalha. Pois bem, a batalha continua e a promessa está cada vez mais de pé, afinal, quanto maior a luta, mais ela nos fortalece, certo?

Voltando, todavia, à questão de como se processa o desenrolar da vida e a mudança que percebo em nós (em mim, no Brayan, e inclusive no True Love) do Setembro Amarelo de 2018 para o presente, é inegável que a gente aprendeu no decorrer desse tempo, que - modéstia à parte - a gente cresceu um tiquinho não apenas como pessoas mas também, e graças a Deus, como casal. Hoje, por exemplo, eu tenho uma percepção maior sobre o que fazer/falar para o Grandão quando os sintomas da depressão se apoderam dele. A depender do estado que ele fica e do modo como reage, já consigo relativamente bem saber que postura adotar - às vezes acolher basta, em outros momentos se faz necessário um pequeno choque de realidade. 

Claro que não é fácil, mas com os nossos estudos e a nossa dedicação as coisas vêm dando certo, graças a Deus! Aliás, escrevo nossos estudos e dedicação não para seguir aquela regrinha de português que assevera que é deselegante escrever em primeira pessoa sobre os nossos feitos, não é isso. Escrevo "nossos" porque o Brayan está fazendo muito bem a parte que lhe cabe, se esforçando contra a doença, fazendo terapia, tomando medicação e, principalmente, não desistindo. Assim, quando eu digo que ele é forte e corajoso, não estou "corujando" o "crush", viu? É a mais pura verdade! E eu tenho muito orgulho disso. Dele.

Desta forma, estando um pouco mais consciente sobre o que é realmente a depressão e experimentando  - ainda que indiretamente - na pele toda a complexidade de sentimentos, dores e sensações que ela envolve, eu encerro este post com dois pedidos e uma reflexão. O primeiro pedido é a você que convive com alguém que experimenta temporariamente a situação da TAG, da depressão ou de qualquer outro transtorno de ordem psicoemocional: estude, se informe, pesquise sobre o assunto, não julgue, não condene, não exija mudanças bruscas, acolha, abrace, seja presente, conscientize quando necessário, mas sobretudo ame. Tenha em mente que agindo assim você não resolverá o problema, até porque isso não depende de você, mas você será parte importante do que pode vir a ser a solução. Lembre-se: o mundo já está super lotado de dedos que apontam, aja na contramão desse caminho, seja um daqueles abraços que protegem, erguem ou, simplesmente, acolhem. A vida vai lhe sorrir em resposta.

Meu segundo pedido, e ele já traz a tira-colo também a reflexão, é dirigido a você que por experiência própria sabe o que é ter e viver a depressão: não desista! Imagino que a sua vida anda longe de ser/estar como você gostaria e compreendo o quanto a distância entre o que você deseja e o que você vive te causa dor, mas lembre-se que tudo se transforma a todo instante. E, sim, por mais irreal que te pareça esta ideia, a mudança que você tanto deseja e espera que aconteça depende em grande parte de você, do seu trocar de perspectiva/foco, da sua vontade de melhorar. Não esqueça que mesmo os diamantes que parecem rígidos e, por isso, imutáveis, podem ser modificados, lapidados, e o mesmo se dá com os seus pensamentos/sentimentos negativos e emoções. 

Exige esforço? Sim. Muito! É necessário trabalho, paciência e perseverança? Constantemente. Mas, acredite, se dedicar firmemente nesta estrada vai te dar frutos de cura, melhoria e renovação. Quando você se cuidar e amar, quando você se acolher e respeitar, a dor no seu coração aos poucos vai diminuir, até cessar, acredite! Alimente a esperança, a fé em você e na vida. Viva o hoje. Fique. Não desista! Do amanhã, Deus, o Universo ou seja lá o nome da Força que você acredita, cuidará.

Subtração de Vontade: Uma Injustiça na Realidade das PCDs

segunda-feira, 2 de setembro de 2019 24 comentários
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Eu não suporto injustiças. Quando vejo alguém se prevalecendo de outra pessoa, sinto o impulso imediato de "reequilibrar a balança"e colocar o valentão ou o espertalhão no seu devido lugar. É algo que faz parte da minha natureza e que, suponho, não devo ter empregado da maneira mais correta em algumas de minhas vidas passadas. Minha tese é a de que vivo a experiência da limitação física porque cometi excessos em outros tempos; ligando as coisas, só posso crer que impus minha justiça particular de modo que foi justo apenas para mim e que provocou sofrimento a terceiros. Estou pagando a conta. É uma explicação que faz sentido.

Dito isto, vocês podem estar imaginando que o post de hoje é sobre a deficiência e sua explicação espiritual. Mas, não, eu não pretendo abordar essa temática, até porque não me julgo capacitado para tanto; a Malu com certeza se sairia muito melhor falando do assunto. Quero compartilhar com vocês a minha indignação quando li esta matéria. Foi na semana passada, eu estava quase de saída do trabalho quando tive a bela ideia de espiar as notícias e me deparei com o caso que me fez sair bufando de raiva.

O resumo da ópera é o seguinte. Uma mãe entrou na justiça pedindo autorização para realizar o procedimento de vasectomia em seu filho, de 34 anos e que tem deficiência intelectual por conta de uma síndrome genética. O homem namora com uma jovem que também tem deficiência. De modo que aquela mãe moveu o processo por estar receosa de uma gravidez "indesejada". O pedido foi julgado improcedente em primeiro grau, porém, adivinhem? O Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios autorizou, à unanimidade, que a cirurgia fosse feita. Eu disse à unanimidade.

Com todo o respeito aos doutos Desembargadores, mas até agora eu não consigo me conformar com essa decisão. Porque, moral e juridicamente falando, reputo inaceitável que uma pessoa com deficiência tenha tolhido o seu direito de ter filhos. Falemos do aspecto legal. Ora, a própria Lei Brasileira de Inclusão, a Lei 13.146/2015, conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência, deixa explícito que a deficiência não afeta a plena capacidade civil da pessoa, inclusive para exercer direitos sexuais e reprodutivos (Art. 6º, II). Eu já falei disso aqui no blog. 

A decisão dos nobres julgadores se baseou na lei 9.263/1990, que regula a questão do planejamento familiar tendo em vista a Constituição Federal. Essa lei mais antiga prevê que "a esterilização cirúrgica em pessoas absolutamente incapazes somente poderá ocorrer mediante autorização judicial" (Art. 10, § 6). Porém, o Estatuto de 2015 retirou os deficientes mentais da lista de incapazes no direito brasileiro. A lei nova trouxe regras incompatíveis com a lei velha, e a consequência disso é que deve ser aplicada a norma mais recente. Em direito, chamamos isso de "revogação tácita"; está no Art. 2º, § 1º, da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro. Possivelmente essa foi a razão pela qual o juiz de primeiro grau negou o pedido da mãe. Sim, eu fui técnico nas linhas anteriores, mas não podia deixar de compartilhar o meu entendimento jurídico sobre o caso. Considero a decisão do TJDFT bastante equivocada.

Sob o ponto de vista moral, a minha irresignação aumenta sobremaneira. Como é possível que uma mãe pleiteie a castração do próprio filho? "Ah, Brayan, mas poderia acontecer uma gravidez e os pais poderiam não ser capazes de cuidar da criança...". E, por acaso, esse homem e sua namorada são sozinhos nesse mundo de Deus? Será que nenhum familiar ou amigo se disporia a auxiliar no acolhimento do bebê que poderia vir a nascer? É preciso ir tão longe, à esterilização chancelada pela justiça, só por medo de algo "indesejado"? Respeito quem pensar de maneira diferente, mas eu não consigo tolerar esse apoderamento da vida alheia, essa subtração de vontade só por causa da deficiência.

Repito, detesto injustiças. E uma das que mais me tira do sério é a que ocorre quando alguém toma o deficiente como uma marionete, negando-lhe possibilidades que estão a seu alcance apesar das limitações. Já houve aqui na cidade quem dissesse que, se fosse mãe da Malu, não a deixaria namorar (cá entre nós, uma alma sebosa dessas deve ser muito ignorante para não entender que as dificuldades do corpo não impedem o coração de amar). 

Dou ainda outro exemplo. Quando eu tinha uns doze anos, meu pai, que tinha a mania de querer me dar "lições de vida" para ver se eu caminhava, levou lá em casa um rapaz, mais velho, que tinha deficiência mental. E aquele jovem havia sido esterilizado pela vontade dos pais. Lembro que, já naquela época, fiquei chocado; e que também senti uma ponta de medo de que me acontecesse algo semelhante. Eu poderia ilustrar de outras maneiras o quanto a vontade das pessoas com deficiência pode ser negligenciada. Na escola, quando alguém me segurava pelas mãos para ir até o banheiro, as pessoas que paravam para conversar davam atenção apenas a quem me ajudava; eu ficava me sentindo um fantasma ali, apenas assistindo. E o que dizer da vez em que um credor ameaçador foi até nossa casa, eu comprei a briga e ele simplesmente disse: "Com você não discuto, porque é só um deficiente"? Eu nunca vou conseguir engolir situações como essa. 

Me dói na alma pensar que tantas pessoas com deficiência estão por aí tendo seus desejos ignorados e suas capacidades restringidas, muitas vezes pela vontade de quem poderia (e deveria) ser um apoio. Fico triste com isso. Porém, ao mesmo tempo lembro-me de ser grato (novamente); por meus limites não serem tão graves; por eu ter tido, apesar das dificuldades, uma família que me auxiliou; por ser capaz de afirmar minha vontade todos os dias e escolher aquilo que considero melhor para mim. 

"...Só sei que sem você parei de respirar..."

sexta-feira, 30 de agosto de 2019 19 comentários
Um dos responsáveis pelo meu "turu turu"

Aposto que alguns de vocês ao lerem o título deste post lembraram imediatamente de Sandy e Júnior; e, talvez por isso, já estejam agora psicologicamente se preparando para o que pensam, se tratará de mais um texto romântico e repleto de declarações de amor. Confesso que poderia ser esse o caso, se recentemente eu não tivesse percebido que parte dessa música tem a ver com um relacionamento tóxico e, portanto, não diz muito do que sinto e quero sempre sentir pelo Brayan: amor - com todo o respeito à liberdade do Grandão que este sentimento encerra.

Mas, filosofias musicais e sandyejuniísticas à parte, usei este trecho de turu turu (na verdade a música se chama Quando Você Passa) porque ele me lembra um companheiro que entrou na minha vida de forma inesperada, e que só ontem me dei conta de que ele já está comigo há sete anos, me acompanhando sempre e aonde quer que eu vá. Pois é, esse amigo chegou antes do Brayan gente, e com ele sim eu vivo uma relação de necessidade, dependência mesmo. Na verdade, preciso dizer, só com ele eu consigo dormir em paz.

Espera aí, Malu... Como assim "relação de dependência" e só com ele você consegue dormir em paz? E o Brayan, como fica nessa história?

Bom, o que posso dizer? Eu fui sincera com o Grandão desde o começo: falei da presença desse colega na minha vida, contei que minhas noites precisam sempre da sua companhia e que, apesar das dificuldades no começo da nossa relação, ele hoje me faz um bem danado. Felizmente o Brayan não viu nenhum problema nas minhas revelações; e quando fui conhecê-lo pessoalmente, tratei logo de levar o meu amigo junto (afinal eu preciso dele) pois era óbvio que o quanto antes eles fossem apresentados, melhor.

Neste ponto do post acho que eu não preciso dizer que no fim deu tudo certo entre a gente por lá, e que hoje somos nós três: Brayan, eu e o meu amigo Trilogy. Certo? "Mas, quem é esse tal Trilogy, Malu?", vocês devem estar se perguntando. Antes que eu fale sobre ele, deixo claro que não é nada do que vocês estão pensando! hahaha

Então, o Trilogy surgiu na minha vida em 2012, quando por causa de uma pneumonia eu tive uma parada respiratória. Naquela época foi um auê... Fui hospitalizada (cheguei à Santa Casa de Sobral sem vida, precisando ser reanimada), me induziram ao coma, fui entubada e, por fim, foi necessário que me fizessem uma traqueostomia. Eu não lembro de nada disso, graças a Deus. Só recordo que ao acordar já estava traqueostomizada e ligada a vários aparelhos, um estado que se prolongou durante quase três meses - praticamente todo o período em que estive no hospital. Felizmente aqueles dias chegaram ao fim e eu pude voltar para casa - livre da traqueostomia e acompanhada pelo que seria, a partir dali, o meu companheiro de todas as noites.

Explicando em poucas palavras, o Trilogy é um aparelho de ventilação mecânica que facilita a vida de pacientes que apresentam quadros de insuficiência respiratória. Eu, por exemplo, tenho pouca capacidade pulmonar devido à má formação da minha coluna - um dos meus pulmões é quase que totalmente comprometido. Assim, no meu caso, e explicando de um modo leigo, o Trilogy não apenas dá uma força extra aos meus pulmões, como também faz com que eu lembre de respirar enquanto durmo. Sim, a pessoa aqui meio que esquece de fazer isso, e é o meu amigo Trilogy que, jogando ar nas minhas narinas, impede que eu durma de vez... haha

Escrevi este post tentando contar de um modo divertido este detalhe da minha vida porque ontem, ao me dar conta de que já fazem sete anos que faço uso do Trilogy, os sentimentos que me ocorreram foram o de surpresa e gratidão. Surpresa porque o tempo passou e eu não vi. Vivi. E gratidão porque, bom, meu foco nestes anos todos nunca foi a necessidade do Trilogy na minha vida, mas a sua disponibilidade. Vejam...

Graças a Deus eu tenho a possibilidade de ter este amigo em casa, de poder usá-lo sem a traqueostomia. Felizmente não precisei ficar no hospital para continuar usufruindo dele e nem necessito usá-lo 24hs por dia. Do mesmo modo, graças a Deus nossa condição financeira permitiu e permite que os meus pais banquem um plano de saúde, que mesmo a contra gosto e por ordem judicial, me oferece o serviço de home-care disponibilizando não apenas os aparelhos como também as sessões de fisioterapia que me são necessárias... Enfim, por tudo isso, e pela vida que ele, Trilogy, me permite levar hoje, como não ser grata?

Os Altos e Baixos de um Soldado

sexta-feira, 23 de agosto de 2019 25 comentários

Eu já devo ter dito que ser "pessoa com deficiência" não é uma coisa bacana. Detesto me repetir e também vivo com receio de tornar o True Love um tipo de muro das lamentações; mas gosto de falar sobre o que vivemos e atualmente sinto a necessidade de abordar mais um pouco a forma como as minhas dificuldades me afetam, em especial sob o prisma emocional/sentimental. É um tipo de desabafo, considerando inclusive alguns fatos recentes.

Bem, Malu e eu sempre conversamos muito e já concluímos que deve ser mais "fácil" lidar com uma deficiência que se traz logo no nascimento do que com uma que seja adquirida ao longo da vida, depois que a pessoa já está acostumada a fazer suas coisas e a se virar sozinha. A tese faz sentido, já que é certamente um choque ter uma vida normal e, de repente, ver-se privado de capacidades que eram naturais; o sujeito sabe, até então, qual é o gosto da liberdade de ir e vir, da autonomia. Por outro lado, nós que já chegamos a este mundo privados de algumas possibilidades, sem experimentarmos o baque da perda posterior, deveríamos, em tese, ser mais resignados, conformados; afinal, já viemos assim mesmo, que se pode fazer? 

Acontece que essa forma de pensar abarca só metade da questão. Ok, podemos até aceitar que temos limitações desde o início e que elas fazem parte da nossa jornada presente. Mas isso não significa que nós, os "deficientes de fábrica", não sintamos falta de fazer todas aquelas coisas que as pessoas ditas normais podem realizar diariamente; e nem quer dizer que levamos a vida tão na boa. Falando por mim, confesso que vivo uma sucessão de altos e baixos emocionais, com base nessa dualidade de pontos de vista; ora encaro com tranquilidade meus limites e agradeço por não serem tão graves, ora me pego amaldiçoando meus dias e perdendo o ânimo. Ainda não encontrei uma forma de conciliar esses modos de sentir tão antagônicos. Permaneço à deriva neste mar de emoções. 

A situação fica mais complicada pelo fato de que tanto a gratidão como a lamentação são facilmente detonáveis em mim. Por coisas do dia a dia. Estou numa boa, aí sofro um revés (derrota feia no xadrez, um tombo, não conseguir realizar alguma tarefa simples, etc.); pronto, lá vem a depressão e a vontade de me enfiar num buraco. Ou acontece o contrário: estou na "bad", aí abro uma notícia sobre alguém com uma doença grave precisando de doações; imediatamente me sinto abençoado por não estar, eu, prostrado em um leito. Seria isso bipolaridade? Não sei. 

O que posso garantir é que me esforço muito para seguir em frente quando as coisas estão difíceis, apesar de me sentir, frequentemente, como um prisioneiro neste corpo limitado; ou como um soldado que luta todos os dias uma guerra diferente. Isso explica minha rabugice um tanto constante e também minha mania (irritante até para mim) de reclamar por qualquer coisa. Novamente a criança se debatendo no chão porque quer o doce e o pai não dá, filme reprisado... Não é por outra razão que gosto tanto do Dr. House e da sua síndrome de cãozinho ferido, com a qual me identifico tanto. Enfim, eu digo sempre para a Malu que os meus reclames são plenamente justificáveis e ela até me dá alguma razão. Mas, depois de me revoltar, eu só consigo me achar pequeno e carente de luz. Aí desabo, choro, faço a autocrítica e me proponho melhorar; até que dou de cara com alguma frustração e vejo o ciclo recomeçar novamente. Isso precisa mudar.

Sinto falta do que não posso viver, como os bailões que não posso dançar e os esportes que não sou capaz de praticar. Julgo minha vida como difícil, apesar de eu não ter grandes carências materiais; porque o peso emocional que eu carrego, incluindo as vontades contidas e a sensação de pequenez, me exige muita força para não deixar a peteca cair. De fato, é preciso coragem para não desistir e nem sempre eu estou no meu melhor. Hoje novamente fiquei aborrecido e vim aqui desabafar um pouco. E assim procuro tocar o barco, superando os momentos de crise.

Ser "deficiente de fábrica" pode até doer menos do que se tornar incapacitado ao longo da vida, mas não é, só por isso, algo simples de encarar. Carrega-se um fardo; as pessoas julgam; coisas e situações nos testam a força de vontade. É foda, só o palavrão pode definir. Mas o show precisa continuar, não há fuga. Lembro de ouvir da minha princesa que as missões mais complicadas são dadas apenas a soldados realmente fortes e aptos para a tarefa. Desejo mesmo vencer o que me foi atribuído enfrentar. 

Um Blog Fora da Curva

quarta-feira, 21 de agosto de 2019 16 comentários
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Brayan sempre comenta que nós formamos um casal fora da curva, tendo em vista a nossa afinidade e modo como sempre tentamos levar o nosso relacionamento. Eu particularmente entendo o que ele quer dizer, até porque muitas vezes já me percebi com questionamentos do tipo: será que todo casal de namorados vive experiências pelo menos semelhantes às da gente? Bom, a resposta para esta pergunta eu não tenho, mas tenho e venho comentar uma reflexão bem parecida com aquela que a originou, digo, semelhante à opinião do Grandão sobre nós. A minha, todavia, diz respeito ao blog e, especialmente, a todas as questões que são abordadas nele.

Quando idealizamos o True Love sabíamos que faríamos parte de um nicho restrito e de pouca visibilidade na internet. Impressão esta, aliás, não muito diferente daquela que frequentemente experimentamos no dia a dia, afinal, ser PCD em uma sociedade que ainda estigmatiza e exclui o diferente é quase como viver em um mundo à parte. Raras vezes somos vistos, e menor ainda é o número de vezes em que somos lembrados; por isso que, como escreveu o Brayan no seu último post, a representatividade importa, sim! Mas, voltando à questão do blog, vocês que nos acompanham desde o começo hão de concordar comigo quando eu digo: o True Love também é um blog fora da curva. Vejam...

A gente não fala aqui sobre os assuntos que diariamente bombam e/ou viralizam na internet: vida dos famosos, moda, makes, vida fitness, viagens. Na verdade as nossas pautas são assuntos que muitas vezes incomodam - seja porque nos obrigam a refletir sobre os preconceitos que ainda alimentamos, seja porque nos fazem sair da zona de conforto ao, ainda que implicitamente, questionarem sobre qual o papel que estamos desempenhando na sociedade e o que realmente estamos fazendo para melhorar o mundo. E, sinceramente, sobre este aspecto, nem poderia ser diferente, né? Afinal a busca pela quebra dos paradigmas preconceituosos relacionados especialmente ao segmento das pessoas com deficiência é um dos principais objetivos que nos motivam a continuar vindo aqui e blogar para vocês.

Sim, porque se formos levar em conta a rentabilidade do True Love ou mesmo a sua popularidade, bom, precisamos confessar que tais fatores ainda não fazem parte daqueles que nos estimulam diariamente nesta vida de blogueiros. Só para se ter uma ideia, a nossa página no Facebook, por exemplo, ainda não atingiu 800 likes. Nosso perfil no Instagram oscila mensalmente entre 700 e 800 seguidores - números não tão animadores se comparados aos de tantos outros blogs com bem menos tempo de existência que o nosso. Enfim... Nada disso importa tanto, todavia, quando a gente vem aqui e se depara com comentários que realmente mostram que vale a pena escrever e compartilhar parte da nossa vida e história com vocês. E, por pensar em vocês e desejando retribuir um pouco do muito de incentivo que nós recebemos na forma da presença e dos comentários de cada pessoa que passa por aqui, é que Brayan e eu vira e mexe tentamos bolar algo que possa chegar como um pequeno afago do True Love nos seus corações.

Foi com esse desejo que logo nos primeiros meses do blog conseguimos uma parceria com a loja Boutique Judith - leia sobre ela aqui. Algo que de início pareceu bem promissor, acabou não saindo como o esperado. Fizemos o sorteio e a Denise Cunha ganhou, mas infelizmente a loja não cumpriu com o combinado e a Denise acabou ficando sem o prêmio. Por ene vezes eu enviei e-mail e tentei entrar em contato com a BJ, mas não obtive resposta. Novamente, a gente deixa aqui as nossas desculpas à Denise. Passado algum tempo e um tanto ressabiados com tal experiência, mas desejando presentear vocês no aniversário de 1 ano do True Love, Brayan e eu decidimos fazer um concurso de comentários. Nós divulgamos a ideia na pagina e você pode ficar por dentro dela aqui. O prêmio? Um exemplar da antologia de contos de amor "De Repente, Nós", publicada pela editora Andross, da qual eu tive o prazer de participar com o conto "Argumento Ineficaz". O concurso ainda tá rolando e você ainda pode participar, viu?


Recentemente, pesquisando assuntos interessantes no Google e mexendo no Instagram, vi uma proposta bacana de afiliação e novamente lembrei de vocês que nos acompanham, e do nosso desejo de, de alguma forma, retribuir o carinho com que vocês nos presenteiam. Fui ver do que se tratava, e bingo! Dei de cara com a Delicata, uma loja on-line perfeita para as mulheres que adoram comprar semi jóias em ouro 18k a baixo custo. Percebendo que ela oferece garantia personalizada e busca em cada uma de suas peças compartilhar empoderamento, beleza, felicidade e sinergia com suas clientes e consultores, não demorei em entrar em contato com a loja através do formulário de afiliação. Confesso aqui que não esperava um retorno positivo, uma vez que a resposta que recebemos quando buscamos parcerias é sempre a mesma: "o blog de vocês é lindo, mas não se encaixa no padrão que estabelecemos para os nossos parceiros.". Lembram o que falei no início sobre o nosso nicho ser mais restrito? Pois é, deve ser por isso que a gente não se encaixa nos tais padrões...

Mas, estes benditos padrões à parte, o que importa é que a Delicata foi super atenciosa com a gente e, logo em seguida, nos chamou pelo Whatsapp para combinarmos todos os detalhes da nossa parceria. E o resultado desse trato eu vou contar agora: vocês truelover's terão 5% de desconto se comprarem na loja acessando este link e usando o cupom AMIGADELICATA. Digam para mim: esta é ou não é uma baita novidade? Eu, Malu, adorei! Como vocês podem ver nas fotos abaixo, as semi jóias da Delicata são lindas e de uma delicadeza que encantam até mesmo aquelas mulheres mais despojadas. Não percam tempo e corram lá no site para dar uma conferida (só não esqueçam de acessá-lo por este link, okay? E tampouco do cupom promocional!). 


Parceria Delicata e True Love

No mais, termino este post agradecendo a presença, o carinho, o feedback e o incentivo de cada um de vocês que nos visitam frequentemente e enchem o nosso coração de estímulo e felicidade. Sim, o True Love pode até não viralizar na blogosfera, mas, independente disso, a gente vai seguir escrevendo, blogando e tentando cada vez mais compartilhar um pouco daquilo que trazemos de melhor no coração. Prometo!

Representatividade Importa, Sim!

sábado, 17 de agosto de 2019 17 comentários
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Um dos sonhos que acalentei após me formar na faculdade de direito foi o de ser ministro do Supremo Tribunal Federal. Possivelmente eu fui longe demais ao me enxergar ocupando uma daquelas onze cadeiras tão seletas; tanto que, depois de a realidade pós-formatura bater na minha cara, eu abandonei totalmente a pretensão. Importa dizer que eu não pensava unicamente na realização jurídica. Não. Eu também era impulsionado pela ideia de representatividade; afinal, a menos que eu esteja equivocado, nunca houve um ministro deficiente no STF. Que marco seria eu chegar lá!

Pois é. Essa semana eu estava sem muita inspiração para escrever, então a Malu sugeriu que eu falasse sobre esse tema, o da representatividade. E eu quase de imediato me lembrei daquele sonho "supremo" de recém-formado. Uma recordação doce, de quando eu era mais boca aberta ingênuo. É fora de dúvida que nós, PcDs, somos um tanto quanto negligenciados pela sociedade. Não se trata de vitimismo, estou sendo objetivo (ora, precisamos até de um estatuto dizendo que temos o direito de transar!). Então, imbuídos dessa consciência, de que somos uma minoria nem sempre assistida, nós que temos limitações nos empenhamos, muitas vezes, em nos mostrarmos ao mundo; nós queremos ser reconhecidos, queremos provar que podemos realizar as mesmas coisas. Era exatamente no que eu pensava quando me imaginava usando a toga e proferindo meu voto, ao vivo, na TV Justiça: eu queria mostrar que o poder também pode ser alcançado por alguém com dificuldades físicas.

É precisamente o mesmo desejo de reconhecimento que impulsiona outras minorias, igualmente ou até mais desprezadas, a lutarem por seu espaço e por seus direitos. Já que falei de Supremo, me recordo de quando vi a primeira advogada transsexual sustentando oralmente um processo perante aquele Tribunal (conheça ela aqui); a ação pedia que se declarasse e garantisse o direito de as pessoas trans mudarem seu nome e seu gênero no registro civil sem a necessidade de autorização judicial, que muitas vezes exigia a comprovação da redesignação sexual. Fiquei muito satisfeito quando, ao final, o direito foi reconhecido pelos ministros. Não pretendo divagar sobre a questão jurídica; quero me centrar no sentimento que levou aquela advogada a subir à tribuna e dizer, com orgulho, que era a primeira profissional trans a ocupar aquele espaço e pleitear um direito: representatividade. Representatividade que significa, em síntese, levantar uma bandeira, erguer a voz em nome daqueles que se sentem pequenos e desguarnecidos. 

Diversas vezes fui sondado sobre o interesse de entrar na carreira política. Muitos me disseram que eu deveria me candidatar a vereador, ou a deputado, para lutar pelos direitos das pessoas com deficiência. Minha reação sempre foi e continua sendo a mesma: não está nos meus planos, não porque eu não me importe com direitos alheios, mas porque eu simplesmente não levo jeito para o jogo político, ainda mais no Brasil. Contudo, hoje, mais maduro, eu consigo entender melhor o fundamento da representatividade. Não se trata de uma "síndrome do patinho feio", nem de "mimimi", como muitos gostam de alardear. Só quem já sofreu um preconceito ou uma negligência sabe como é desagradável se sentir abaixo dos demais.

 
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