sexta-feira, 31 de julho de 2020

Sobre a invencibilidade do "é pra ser"...

A plantinha e a "Mãozinha", cachorrinha com deficiência, que também "era pra ser".

A força da vida e a necessidade de viver são poderosas, transformadoras, invencíveis. Não há o que impeça o brotar da semente que conseguiu fincar suas raízes no solo, assim como nada nem ninguém tira a vida daquele que ainda precisa estar aqui. Tudo conspira a favor do ser, do estar, do permanecer; todavia, é lamentável que poucos de nós consigamos perceber e valorizar isso.

Semana passada eu estava na varanda de casa quando me dei conta do milagre que estava ali, diante dos meus olhos: duas plantinhas floridas brotaram no concreto que margeia a piscina. Claro que eu já havia passado por elas provavelmente umas trocentas vezes, mas só naquele instante eu me dei conta da presença delas ali. Fiquei tão encantada que, ao mesmo tempo em que as fotografava, uma torrente de pensamentos me invadiu a mente e implorou para ser escrita. Pois bem, é para isso que eu estou aqui.

Bom, para mim é impossível observar as plantinhas na foto acima e discordar da ideia de que o que é para ser tem um poder incrível. Sim, porque, por mais que existam obstáculos e forças contrárias ao longo do caminho, o potencial do que aqui eu vou chamar de "necessidade de existir" se exerce de tal forma, que se torna até fácil a gente compreender por que certas coisas são como são. Algo meio do tipo maktub, talvez...

Estes dias vi uma notícia sobre um bebê de 3 anos, com síndrome de down, que superou o COVID-19. "Super Chico", que é como ele ficou conhecido, aparentemente tinha tudo para não resistir a esta doença que tem se mostrado tão medonha, mas pela força da vida e por necessidades que desconhecemos, ele resistiu. Ele venceu. E, como ele, milhares de outros pacientes dos grupos de risco seguem superando, se curando e mostrando pro mundo o quanto a vida pode ser surpreendentemente poderosa. 

Brayan e eu seguimos juntos, firmes e fortes, apesar de todos os ventos contrários que tivemos – e ainda temos - de enfrentar desde que começamos a namorar. Nossas dores e traumas, nossas limitações físicas, a distância que nos separava... Nada indicava que conseguiríamos viver juntos. Mas, conseguimos. Hoje somos um casal prestes a comemorar 4 anos sob o mesmo teto e já com uma história cheia de folhas escritas para contar. 

Se vamos seguir por mais 4 ou 40 anos e envelhecer juntos? Sinceramente, apesar de saber que é exatamente isso o que quero, eu não sei dizer. O que sei, e isso eu falo com toda certeza do meu coração, é que o nosso "é para ser" - assim como o das plantinhas daqui de casa e o do Super Chico – também é muito forte. E acredito que, se for para o bem de nós dois, também vai se fazer invencível. Quanto às forças contrárias, de dentro ou fora de nós, bom, delas o nosso amor vai saber dar conta. Tem sido assim! 

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Casais na Quarentena - Um Convite ao Conhecimento

Juntos, sempre!

A pandemia continua avançando e nós seguimos obrigados a permanecer em isolamento, em casa. Claro que a situação é um tanto desconfortável e, em muitos momentos, eu fico aborrecido por não estar vivenciando a rotina de que tanto gosto, com horário para sair e para voltar, com o convívio com outras pessoas. Sinto falta, especialmente, de sair para passear com a Malu, de fazermos nossos programas juntos, comer uma pizza, reunir os amigos... Mesmo assim, considerando tudo o que ocorre, temos de ser justos e agradecer por estarmos bem, com saúde e sem enfrentar privações materiais.

Tenho visto, nas redes sociais, vários memes e piadas sobre a convivência dos casais durante esse isolamento social. Coisas como homens pedindo para serem presos por violar a quarentena, só para ficarem livres da mulher que têm em casa e que lhes tira o sossego. Essas brincadeiras retratam os relacionamentos como verdadeira prisão, como um peso a ser carregado por pelo menos um dos envolvidos. Sei que são apenas isso, piadas; mas, como nós sempre podemos tirar lições de tudo nessa vida, comecei a pensar a respeito. Toda brincadeira tem um fundo de verdade, afinal.

O meu relacionamento com a Malu não me faz sentir preso ou sufocado, nem me desperta a sensação de estar deixando de viver a vida. É natural que eu renuncie, sim, a certas liberdades que tinha quando solteiro, em nome da nossa relação. Parece que estou ouvindo a Malu dizendo: "Não está fazendo nada mais que sua obrigação". De fato. Mas, notem que isso não chega a ser um sacrifício para mim, porque, pesando as coisas, a nossa história e a nossa convivência juntos ocupam um espaço que nenhuma aventura do passado jamais conseguiu preencher. Nosso relacionamento pode não ser perfeito, mas sinto-me realizado como companheiro da Malu e não tenho qualquer pretensão de jogar fora o que construímos.

Quando vejo piadas de casados, e mesmo de casadas, reclamando dos seus companheiros, tudo em que consigo pensar é: "Mas, se está tão ruim, por que ainda ficam juntos?". Alguém poderia dizer que estou levando a coisa a sério demais, mas o que me incomoda é a mensagem que essas brincadeiras acabam transmitindo. O homem, por exemplo, fica retratado quase que como um escravo, que não pode tomar uma cerveja com os amigos, nem sair para jogar bola ou pescar, porque a mulher não permite. Ela, por sua vez, é pintada, geralmente, como a "patroa", a que manda na relação, a que joga o marido para dormir no sofá, a que fiscaliza celular, etc.. Francamente, eu não consigo imaginar essas coisas acontecendo entre Malu e eu. Novamente, não porque sejamos o casal perfeito, mas porque nos amamos e nos respeitamos demais para tentar acabar com a individualidade um do outro.

A nossa rotina é muito tranquila. Atualmente, estamos passando quase o tempo todo no quarto, mas cada um faz suas coisas. A pequena fica ali, na cama, com o celular ou com um livro; eu fico aqui na mesa, usando meu notebook, trabalhando, estudando, jogando; também dou atenção ao meu videogame quando posso. E está tudo bem assim, nenhum de nós sofre e nem fica neurótico. Aliás, recentemente compramos um controle para o videogame e temos descoberto como é divertido jogar Mortal Kombat juntos; a Malu sempre apela ou reclama. Quero dizer, nossa vida a dois é muito boa e as renúncias que ambos fazemos não são nada fora do necessário para mantermos um relacionamento saudável.

Esse isolamento social, essa obrigação que estamos vivendo de permanecermos em casa, pode ser uma excelente oportunidade para nos importarmos mais um com o outro, para conhecermos melhor aquele (a) com quem dividimos a cama e a rotina. Até entendo que pode ser desafiador ter de passar mais tempo com nosso par. Esses dias mesmo conversei com a Malu a respeito; disse a ela que, por estarmos tão juntos ultimamente, tenho me sentido como no BBB. Depois reconheci que não tinha sido muito justo com ela. Acho que a falta da rotina bateu forte naquele momento. Porém, uma coisa é certa: eu não trocaria o relacionamento tão bom que tenho com a Malu, hoje, pela minha vida de solteiro. Seria um péssimo negócio.

O que eu proponho é que vejamos os relacionamentos de casal além das convenções e além dos lugares comuns tão desbotados, como esses conceitos toscos de "patroa" e de "homem mandado". Qualquer relação que esteja nesse nível, com uma das partes impondo a sua vontade independentemente do que o outro sinta ou pense, já terminou há muito tempo. Só serve pra ser piada em rede social mesmo.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Sim... Às vezes o Amor não é o bastante!

Amamos você!


Não estava nos nossos planos. Quando resolvemos que formaríamos uma família - Brayan, Nina, Sarah e eu - tínhamos a certeza do que queríamos e desejávamos fortemente que tudo desse certo. Tínhamos medo, claro, pois toda mudança de rotina assusta e traz um certo desconforto; mas, vejam, se nos deixássemos levar pelo receio naquele momento, quando que conheceríamos a nuance linda do amor que estarmos todos juntos nos fez experimentar? Por mais doloroso que tenha sido o desfecho, eu ouso dizer, e acredito que o Grandão também, que valeu muito a pena! E aqui eu me refiro à princesa Sarah, que para quem não sabe, é a cachorrinha que adotamos quando estávamos morando em Senador Pompeu. 

E sim, como eu dizia, valeu a pena, pequena! Valeu a pena irmos te buscar na Animus naquela tarde depois que o Brayan saiu do cartório. Valeram a pena as incontáveis noites mal dormidas que tivemos por causa do seu chorinho de filhote que pedia colo. E o que dizer das birras por ciúme da Nina que nos últimos tempos voltaram a tirar o nosso sono? Pois é, princesa, elas também valeram a pena e a gente tem certeza que mesmo agora você sabe disso. Sim, embora para nós humanos soe contraditório, eu quero crer que você sabe, que você sente que o que fizemos ao te doar para outra mamãe e outro papai foi por amor. 

O mesmo amor que nos levou até a ONG e nos fez apaixonar imediatamente por você. O mesmo amor que nos moveu a te cuidar e a não medir recursos para te curar daquela doença que por pouco não te tirou de nos. Não duvida nunca que nós te amamos, pequena; e que foi exatamente por isso que abrimos mão de te ter por perto: para te vermos feliz como você está agora. O fato de percebermos que a nossa condição física não combinava com a tua personalidade e que você precisava de tutores que acompanhassem o seu pique falou mais alto pra gente que a necessidade de te ter aqui. Foi difícil te deixar partir, mas repito: foi por amor.

Sua felicidade nos faz feliz, pequena! E o Bolinha também parece alegre!

E hoje, passados alguns dias, depois das muitas fotos que sua nova mamãe tem me enviado de você no seu novo lar, eu sou toda gratidão a ti, sabia? Sim, porque até mesmo com a sua partida você nos ensina algo, Sarah. Algo que talvez consista no mais grandioso e difícil aprendizado que nós, humanos, precisamos vivenciar: o de que o verdadeiro amor liberta. Vocês, seres que chamamos de irracionais, já sabem disso naturalmente, imagino. Mas, a gente, não. Nós, não sei por que cargas d'água, precisamos desenvolver essa consciência na marra. E, acredite, não é muito fácil. Aliás, eu ouso dizer que só é possível quando a gente se percebe amando incondicionalmente de fato. Você entende o que estou a dizer?

Nem consigo imaginar como seriam os nossos dias com você aqui, quando isso significaria te manter boa parte do tempo infeliz... Você sabe que não te faltava nada: você tinha espaço para brincar, comida, lugar quentinho para dormir, mas sabemos que você sentia falta, ou melhor, que você precisava do que eu vou chamar aqui de plenitude por falta de uma palavra melhor. Do que adiantava te oferecermos "casa, comida e roupa lavada" se nosso afeto pra ti, por dificuldades nossas, estava sendo oferecido a conta-gotas, apenas quando nos era conveniente? Você merecia e merece muito mais, meu amor. Lembra sempre disso quando o seu coraçãozinho canino pensar em nós, tá? Lembra que por te desejarmos toda a felicidade do mundo foi que percebemos que, às vezes, o amor não é o bastante. E exatamente por isso te deixamos partir. Seja feliz, princesinha!

sábado, 23 de maio de 2020

O Pequeno Brayan e seus Pokémons

Dezoito anos para "capturar" todos.

Há algumas semanas, comecei a fazer sessões de terapia com a Caroline Treigher, psicóloga espírita bastante conhecida. A Malu já tinha me falado dela e de como ela é boa, mas só agora foi possível começarmos esse acompanhamento, online. Tem sido uma experiência muito positiva. No começo, senti uma certa dificuldade em me abrir e contar dos meus problemas; eu não queria me mostrar frágil. Mas fui percebendo que, se não me soltasse pra valer, a terapia não teria os melhores resultados; então, mergulhei de cabeça. É incrível como somos capazes de mascarar dores e guardar assuntos delicados em um quarto escuro dentro de nós. O problema é que essas chagas não deixam de existir e permanecem lá no escuro, nos atormentando e influenciando de várias formas a nossa vida.

Com a ajuda da Carol, eu comecei a fazer contato com a minha criança interior, com o pequeno Brayan. O pequeno Brayan é um menino ferido que sente muita falta da figura do pai e que sofreu bastante com a deficiência física e seus impactos. Uma criança com pequenos grandes sonhos a realizar, que foram ficando pelo caminho, graças ao surgimento do grande Brayan, definido pela Carol como "o castrador". Este grande Brayan é o sujeito que sempre quer ser forte, que detesta estar errado e que não admite a realização de pequenas alegrias, porque a vida é uma coisa séria e adultos não devem se ocupar com infantilidades. Duas personalidades opostas, vivendo aqui dentro; por não saber conciliá-las, eu costumo sofrer. 

Nesse contato com o pequeno Brayan, me veio um de seus sonhos especiais. Quando estava na sexta série, ele queria uma coleção de figurinhas do Pokémon, que seu colega estava vendendo, na época por cinco reais. O pequeno Brayan não tinha esse dinheiro e sua mãe também não. Inconformado, naquela tarde o pequeno Brayan reclamou e reclamou, até levar uma "tunda" que jamais esqueceu. Ficou magoado e sem suas tão desejadas figurinhas. Isso ficou guardado até alguns dias atrás, quando, a partir desse diálogo com meu pequeno eu, decidi fazer uma pesquisa e encontrei alguém que estava vendendo a coleção completa das preciosas figurinhas do Pokémon. Quando achei o anúncio, fiquei dividido: por um lado, o pequeno Brayan estava feliz e pedia que eu comprasse; por outro, o grande Brayan, o "castrador", dizia que era absurdo gastar dinheiro com pedaços de plástico.

Ora, por que razão me negar essa felicidade? Que mal haveria em realizar um sonho de criança, se felizmente isso não me traria prejuízo e, igualmente, não atingiria ninguém? Contei tudo para a Malu e recebi dela o incentivo mor para comprar as figurinhas. Curioso esse detalhe: terceirizei uma escolha que dizia respeito à minha felicidade, como tantas vezes já fiz. Pois bem, eu comprei aquela coleção e ontem chegaram os cards do Pikachu, do Charizard e outros. O Charizard sempre foi o meu preferido. Imaginem vocês a alegria que eu senti, abrindo a encomenda e contando as figurinhas, uma por uma. Foi engraçado perceber que elas são, hoje, menores para mim do que eram há dezoito anos; afinal, as minhas mãos cresceram mesmo.

Me dar esse presente foi uma espécie de ritual, em que eu exorcizei o fantasma daquela vontade não atendida. Também serviu para me ajudar a superar a mágoa por aquele castigo tão pesado, embora esse processo de cura vá levar um tempo, naturalmente. O que tirei de mais importante dessa história toda é que, mesmo nos tornando adultos, nós sempre teremos uma criança interior; e ela merece ser cuidada, acolhida, ouvida. Comentei com a Malu: como a vida passa rápido; um dia, você é criança, com poucos problemas e sonhos simples a concretizar; de repente, cresce e é jogado no mundo dos compromissos, das contas a pagar e dos abacaxis a serem descascados diariamente. Mas tornar-se adulto não precisa, não deve significar tornar-se também um chato, uma pessoa amarga que não se permite pequenas alegrias, como as que uma criança consegue tão facilmente valorizar. Aprendi uma lição valiosa: a vida é muito curta, ela passa muito rápido; temos de parar e curtir um pouco às vezes.

Ferris Bueller já sabia disso em 1986.

Eu certamente ainda tenho muitos nós a desatar com a ajuda da Carol. Mas dar espaço ao pequeno Brayan e realizar um dos seus muitos sonhos foi um começo promissor. Você, que está lendo esse post, também tem uma criança interior, que é carente de algo. Não a ignore, pelo contrário; ouça o que esse (a) pequeno (a) tem a dizer, compreenda seus reclames. Tem gente que passa a vida inteira acumulando dinheiro, bens e não conquista felicidade. Não é necessariamente "culpa" delas. É que nós temos valorizado muitas coisas fúteis, temos dado maior importância ao que os outros pensam a nosso respeito do que ao que o nosso coração nos implora. É um erro muito grave. 

Para mim, foi uma coleção de figurinhas. Para você, pode ser um carrinho, ou uma boneca, ou um gibi. Faça esse exercício, pergunte-se que necessidade a sua criança interior pede para ser atendida. Em muitos casos, será algo até simples, mas a que você talvez prefira não dar atenção porque tem outras preocupações. Não tem absolutamente nada de errado em realizar sonhos, se você não machuca ninguém. Não sejam "castradores". Não permitam que os compromissos e as eventuais dificuldades deste mundo arranquem de vocês a essência da criança, que se contenta com coisas simples. Eu estou me reconciliando com o pequeno Brayan depois de muitos anos e agora, mais que nunca, vou me lembrar do que ouvi em algum lugar: "adultos são apenas crianças grandes". E está tudo bem com isso.

Conta pra gente, nos comentários, o que sua criança interior te pede.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Mais um dia nosso

Nosso dia 7!

Sem pretensão nenhuma, nós já percebemos que algumas pessoas enxergam na gente uma espécie de casal modelo, não é? Graças a Deus, apesar disso, você e eu temos os pés bem fincados no chão para compreendermos que somos apenas um homem e uma mulher se esforçando para compartilharem o seu melhor. Assim é que, sem cobranças e sem idealizações, nós caminhamos agora para os cinco anos de namoro, dos quais comemoraremos quatro sob o mesmo teto. É muito tempo, não é mesmo? Às vezes eu olho para trás e sinto como se estivéssemos vivendo o inacreditável, afinal, quem diria que aquela conversa do chat modificaria tanto, e tão rapidamente, as nossas vidas?

A verdade, que só você e eu sabemos, é que nestes quase 5 anos a gente já viveu muitas coisas, Brayan. Nós conseguimos nos conhecer e aprender muito um sobre o outro, mesmo quando a nossa convivência era apenas virtual, lembra? Você de cara identificou minha teimosia e romantismo, do mesmo modo que eu não demorei pra perceber teu jeito impulsivo e generoso. Destas percepções às outras que fomos tendo a partir do momento em que passamos a morar juntos, foi fácil para nós constatar que, se quiséssemos realmente seguir como um casal, nós dois teríamos que estar conscientes de que nessa arte do amar nós somos, os dois, aprendizes. E eu acho que isso tem funcionado, você concorda?

Nestes quase 5 anos é impossível não recordarmos o muito que já compartilhamos. Nós dois sabemos que risos e lágrimas fazem parte da nossa história como da de qualquer outro casal; e não é porque nós somos PCD que não rola ciúme, brigas, estresse... Muito pelo contrário, talvez. Individualmente, a nossa condição de PCD's já foi o estopim de algumas poucas experiências difíceis, que nos deixaram marcas profundas; espécie de traumas que, por mais que nos esforcemos, acabam por vez e outra refletindo no nosso relacionamento. Natural, né? Temos o nosso passado e não dá para fugir dele. Dessa forma, o que se faz nosso norte em todos os dias de luta ou de glória que compartilhamos tem sido justamente o nosso querer, a nossa vontade. E, preciso dizer, que jeito mais lindo você achou no último dia 7 para me mostrar que segue querendo ser NÓS! Permaneceremos juntos... NEOQAV!

terça-feira, 14 de abril de 2020

A Quarentena e a Pedagogia da Vida

"Nozes".

Oi, gente! Quanto tempo, hein?

É, eu reconheço que estive meio ausente aqui do blog. A rotina mudou muito nesses meses, com o trabalho e muitas outras coisas a fazer. Até o fim do ano passado, Malu e eu ficávamos boa parte do tempo em casa, sem ter de desempenhar grandes responsabilidades; porém, desde que assumi meu cargo e nos mudamos para Senador Pompeu tudo ficou bem mais corrido e exigente. Também entrei em uma fase de crise criativa, em que eu simplesmente não tinha ideias para escrever. Outras vezes, eu até tinha algo sobre o que falar aqui, mas os sentimentos não estavam legais por alguma razão, então eu preferia não postar. De qualquer forma, hoje venho atualizar vocês sobre como Malu e eu estamos, neste momento de pandemia e isolamento.

A melhor notícia é que o TRE autorizou minha transferência de volta para Granja. Foi um alívio imenso! Penso que o avanço do coronavírus até acelerou a decisão, de certa maneira, porque não deve ter demorado nem dez dias entre a data em que eu informei o Tribunal sobre os casos suspeitos nas redondezas de Senador e a data em que decidiram pelo meu retorno a Granja. Novamente, percebo que tudo aconteceu como devia acontecer, no momento certo. Tanto que, pouco depois de termos voltado para cá, descobrimos que havia casos suspeitos lá mesmo em Senador; não demorou para que pelo menos um se confirmasse. Minha princesa e eu escapamos por pouco!

Temos permanecido em nosso quarto. Eu mesmo só saí daqui na semana passada, quando fui com dois amigos buscar as nossas coisas lá de Senador. Sair com esse clima de doença, deixando a Malu e tendo que resolver diversos detalhes às pressas não é bem a minha definição de uma boa viagem, mas tudo correu bem no final. Foi algo triste não podermos nos despedir dos amigos que fizemos naquela cidade, como o pessoal do Cartório Eleitoral, da Casa da Caridade e a nossa super-mega-hiper fisioterapeuta e companheira Geórgia, que pode estar lendo este post nesse momento (um abraço nosso pra você, menina!). Ainda vamos ter muita oportunidades para compensar este "até logo" tão aborrecido.

Ah, sim. A Sarah está enorme. Um monstrinho. Nem parece a mesma cachorrinha triste, doente e cheia de carrapatos que nós pegamos lá na ONG. Graças a Deus ela melhorou, com todo o tratamento. Digo com alegria que ela se tornou um verdadeiro grude, especialmente comigo, já que vai atrás de mim até quando vou tomar banho. E vocês não imaginam o quanto ela come. Tivemos de dosar a ração dela em duas porções diárias, uma de manhã e outra à noite, porque a criatura estava sem controle. Coitada da Nina nessa história toda, porque a Sarah não dá sossego para a bichinha; é quase todo o tempo correndo atrás dela, mordendo, provocando, como todo filhote faz. As duas princesas tornam os nossos dias mais felizes.

Ela é preguiçosa.

E já passou a Nina

Estamos passando o tempo como podemos. Nesse fim de semana compramos mais dois controles para o videogame e agora só dá pancadaria no Mortal Kombat, com a Malu apelando demais. É muito bom ter esses momentos com ela, brincando, rindo. Eu que sou resmungão e chato por natureza volto a me sentir uma criança quando jogamos. Ontem, aliás, a Malu me disse que eu pareço duas pessoas diferentes, quando estou chateado, irritado e quando estou tranquilo, de bom humor. Não é segredo que eu ainda tenho algumas broncas internas para resolver, mas estou no caminho. O isolamento pode ser uma armadilha para trazer de volta lembranças e pensamentos ruins, por isso precisamos canalizar boas energias e nos mantermos elevados. 

Pois é, pessoal. Malu e eu estamos bem e torcendo para que as coisas melhorem o mais rapidamente possível. É chato termos de ficar em quarentena, afastados dos amigos e privados dos passeios. Que isso nos sirva de aprendizado para que valorizemos a companhia do nosso próximo. Nesses tempos de smartphones e redes sociais, nós muitas vezes nos fechamos em um mundinho virtual e não percebemos quão preciosa pode ser uma simples conversa pessoalmente. Eu mesmo, que tenho forte tendência a me afastar das pessoas, tenho sentido falta de interagir, de conversar, de ver gente. Costumamos dar valor ao que não temos, não é?

Essa falta de liberdade tão chocante, que a maioria das pessoas "normais" sente pela primeira vez neste momento, é uma constante para muitos de nós que temos limitações. Tenho plena certeza de que, para aqueles que não têm deficiência, essa circunstância do isolamento pode ser exatamente uma oportunidade de sentirem na pele como é o dia a dia de muitas PcDs que não podem sair de casa com facilidade e que têm suas diversões e hábitos limitados. Um exercício de empatia a fórceps. Como a Malu sempre faz questão de lembrar, a vida tem dois métodos pedagógicos: ou ela ensina pelo amor, ou ela ensina pela dor. Ao que parece, não temos aprendido de acordo com o primeiro, porém, ainda temos tempo. O melhor é que só depende de nós, porque Deus, além de justo, é misericordioso e bom, o tempo todo.

sábado, 4 de abril de 2020

#AssimComoVocê: Linda Babi

De cara eu começo este post dizendo que o título dele não poderia ser outro. Como podem ver nós trazemos mais um texto da #AssimComoVocê - a categoria do blog em que a gente recebe convidados mais que especiais - e este de hoje é de uma mineirinha cuja história de vida tem muito, muito a nós ensinar. Antes que alguém pense, não falo isso por ela ser PcD, mas pela sensibilidade e a capacidade dela de tirar de todas as situações o bem, o bom, o belo... Sim, quando vocês lerem a seguir o texto da Bárbara verão que ela é uma mulher linda, um ser humano incrível e que eu, particularmente, adorei conhecer!

***

Arquivo pessoal


"Quem acredita sempre alcança!"

Sou Bárbara Lemos Ameno Cunha, portadora de diplegia espástica CID G-80. 1. Fui convidada pela Maria Luiza (Malu) para compartilhar com vocês um pouco da minha história de vida e experiência como PCD e acima de tudo como ser humano, que deseja conquistar seu espaço no mundo. Cursei o ensino fundamental em escola normal particular, o ensino médio em escola pública e o superior na Universidade Federal de Minas Gerais, a UFMG, onde me graduei bacharela em Letras. Atuo como servidora pública municipal em minha cidade natal, Belo Horizonte. Dou aulas particulares como forma de atuar em minha área de formação. Sou apaixonada por animais, Literatura e línguas estrangeiras principalmente Inglês e Italiano.

Nasci prematura de seis meses em 1986, numa época em que a medicina não era tão evoluída quanto hoje. Passei 32 dias na estufa e a primeira coisa que meus pais ouviram dos médicos é que eu teria poucas chances de sobreviver, mas graças a Deus, ao amor incondicional dos meus pais e a fé inabalável de minha mãe, superei este primeiro obstáculo. Tanto eu quanto meus pais não sabíamos, mas minha trajetória de superação, lutas e conquistas estava apenas começando. Sofri muito tempo com alergia de leite, até encontrarmos um médico que finalmente encontrou uma receita de mingau com a qual consegui ganhar peso. Aos 04 meses de vida, fui diagnosticada com artrite osteomielite, uma infecção no osso e tive que passar por minha primeira cirurgia. Ao completar um ano, tive uma crise convulsiva e fui parar no hospital. O médico disse aos meus pais que não iria aprender muita coisa, e teria muitas outras dificuldades. E que se eu saísse do primário, já seria um grande feito.


Meus pais não desistiram e continuaram firmes. Tudo mudou, quando aos quatro anos, depois de ganhar um presente, da loja Bakana, escrito com K, reconheci sozinha esta letra ao passar na porta das lojas Eureka.  Ao retornarmos para casa, meu pai escreveu meu nome em uma folha de papel, junto com várias outras palavras, leu todas pra mim, embaralhou e me pediu para que eu lhe mostrasse onde estava escrito Bárbara. Quando apontei direto para meu nome, meus pais decidiram me colocar na escola normal, pois  parte cognitiva não tinha sido afetada.

Com o tempo, iria descobrir que meu cérebro não reconhece minhas pernas e que seriam necessárias muitas cirurgias e fisioterapia constante, para que eu pudesse me locomover.  Passei por várias cirurgias ao longo da vida. A última delas foi em 2009, no fêmur. Para caminhar uso andador em casa e no, trabalho, e cadeira de rodas, em shoppings e outros lugares. Ainda na infância percebi que a natação e a equoterapia seriam fontes de liberdade, mas a maior delas seria a de pensamento, que eu conquistaria através dos estudos. Devido ao problema da artrite osteomielite no braço direito, não desenvolvi a coordenação motora e virei canhota. Ao pensar sobre isso hoje, vejo que me adaptei ao meio, passando pela famosa “seleção natural de Darwin”.

Sair pra me divertir é difícil. Há poucos lugares acessíveis para quem precisa usar andador ou cadeira de rodas. Poucos são os amigos que tem tempo e disposição para sair comigo.    Adoro ir á cinemas, teatros e bloquinhos de carnaval. Sempre que posso vou aos shows de minha cantora preferida Laura Pausini.

Os preconceitos como PCD começaram bem cedo: Ouvi de muitas pessoas que eu era muito bonita, mas sendo portadora de deficiência onde eu iria chegar? Que rapaz iria olhar pra mim com todos esses problemas?  Todos estes comentários me abalaram como ser humano e como mulher, pois não me sentia dentro do padrão de beleza pré- estabelecido.  Eu não me sentia bonita, por ser “cheinha”. Infelizmente, esse não seria o primeiro tipo de bullying  que iria enfrentar e o pior ainda estava por vir durante a adolescência.

Durante o ensino fundamental eu era “chamada de cérebro lento” pelos colegas de classe. Eles não sabiam que pela lei eu tinha um tempo maior para fazer prova.  Uma delas me disse que eu iria passar no vestibular aos 90 anos, e as boas notas que eu tirava não passavam de enganação. Sofri muitas dores em minha alma por causa desses comentários, até entender que tudo isto era fruto da intolerância com resquícios de crueldade dos adolescentes e do ser humano. Nesse período tive terríveis crises de choro. Apesar de todo esse sofrimento, nunca perdi a fé em Deus e segui em frente. Afinal, meus professores me respeitavam muito.

Meu pai sempre me dizia desde pequena que eu iria estudar na UFMG, onde ele estudou. Enquanto cursava o ensino médio na escola pública, aprendi italiano sozinha, ouvindo as músicas de minha cantora italiana predileta: Laura Pausini, e me tornei espírita, fortalecendo ainda mais minha fé em Deus e a certeza de que Ele me amparava em todos os momentos.

Em 2009, passei no vestibular da UFMG! Realizando meu sonho e dos meus pais! Neste mesmo ano, fui aprovada no concurso da Prefeitura de Belo Horizonte, onde trabalho até hoje. Ao dividir estas conquistas com amigos e familiares, fui vítima de preconceito novamente: Disseram-me que eu não precisava trabalhar porque meus pais não deixariam nada faltar. Trabalhar e estuda já é difícil para quem não é PCD, imagina pra quem é? Muitos amigos consideravam o curso de Letras um dos mais “fáceis” da universidade. Uma amiga me disse que dentro da doutrina espírita, eu havia sido aprovada na UFMG, não por mérito, mas sim por débito. de vidas passadas.  Vivi muitas coisas maravilhosas como estudante universitária da UFMG, onde descobri a maneira sofisticada que o bullying pode adquirir: lá sempre me perguntavam se eu era casada com Jesus, pelo meu jeito de ser e me comportar.  Eu respondi que não era casada com ELE, mas tínhamos uma relação de amizade, e que Jesus sempre esteve presente em minha vida.

Ainda não encontrei o amor da minha vida, mas acredito que um dia encontrarei. Toda Julieta tem o seu Romeu... Quando pensei que meu colega de universidade estaria interessado em mim, ele mesmo me revelou que gostava de rapazes, mas que não tinha nada de errado comigo. Com relação ao assunto namorado sempre escutei de várias pessoas que não devia ser exigente e aceitar o primeiro que aparecesse, porque nenhum galã de novela iria olhar pra mim. Muitas das minhas amigas dizem que o certo é PCDs namorarem PCDs porque vivemos no mesmo mundo.  De acordo com elas é muito difícil pessoas sem deficiência namorarem PCDs, pensamento do qual discordo totalmente.

Meu primeiro e único namorado até o momento, surgiu em minha vida no final da faculdade. Estava indo tudo bem no principio, mas ao perceber que eu não tinha nenhuma vivência nesta área, ele começou a pegar pesado, dizendo que todo mundo ia achar que ele era “gay” porque nós não tínhamos tido nenhuma intimidade. A gota d’água foi quando ele me pressionou para comprar um carro e me mudar para o puxadinho dele (um quarto extra na casa de sua mãe). Terminei tudo. Conversando com minhas amigas sobre isso, elas me disseram que eu devia ter agüentado firme e que namoro era assim mesmo, não tinha nada de estranho. Até hoje me pergunto se fiz o certo. 

Em 2014 me formei bacharela em Letras pela UFMG.  Não consigo expressar em palavras, o que senti ao receber meu diploma! Fico emocionada ao recordar esse momento tão sublime. Mesmo graduada continuo como assistente administrativo na Prefeitura de Belo Horizonte. Dentro de meu ambiente de trabalho, sempre me deparo com a seguinte pergunta: Você é contratada, não é mesmo? E quando eu respondo: “Sou concursada”- quebrando a expectativa de meu interlocutor que me vê pela primeira vez, ouço de volta: “Você está com o burro na sombra! Mas não parece uma servidora pública”.

Em 2015, tive a oportunidade de participar do curso “Método Sensorial,” totalmente gratuito para todos aqueles que se interessassem por Artes, especialmente as Artes Cênicas.  Não era exigida experiência como atriz.  As aulas seriam na creche do Centro Espírita que eu e minha mãe freqüentamos. Resolvi participar do curso. Não tinha a menor ideia de como seria recebida e nenhuma experiência como atriz. Fui muito bem recebida por todos, fiz novos amigos que se tornaram minha “família do coração”. Não sofri nenhum tipo de preconceito, fui imediatamente aceita e incluída no grupo. A partir daí um universo novo nos foi descortinado, pelo idealizador do curso, Shelmer Gvar, que conhece profundamente o universo das Artes Cênicas, da Sétima Arte e o mercado audiovisual brasileiro e mundial. O Cinema ganhou destaque dentro do curso.  Com o tempo e convivência em grupo, eu fui desenvolvendo minha sensibilidade e autoconhecimento, em meio ás técnicas de atuação que nos eram ensinadas por Shelmer que dividia conosco sua visão de mundo. Ao final do curso, ele nos revelou que participaríamos de um curta, sobre o qual não posso dar mais detalhes, pois se encontra atualmente em fase de pós-produção.

No curta, minha personagem assim como eu é PCD, mas tem sua própria história de vida diferente da minha. Tive muito medo no inicio, não sabia se daria conta do recado, e não queria decepcionar quem me deu esta oportunidade maravilhosa.  Shelmer me dirigiu com sua mão amiga, quando eu me sentia perdida e assustada. Deixou-me á vontade no set de filmagem, e me deu a tranqüilidade para vivenciar todo esse processo de dar vida a outro ser humano, outro “eu” diferente de mim mesma. Junto de mim havia uma equipe maravilhosa, que cuidou de tudo ao meu redor e fizeram com que eu pudesse interpretar organicamente minha personagem da melhor maneira possível (embora eu ainda pense que podia ter feito algo mais).  Participar do curta foi uma experiência transformadora para mim como pessoa, aprendi enfrentar meus medos, respeitando meus limites e minha intuição. Sinto que as amizades que fiz são pra vida toda, bem como a gratidão que sinto por ter participado deste projeto.

Não sei o que o futuro reserva para mim. Minha única certeza é que a vida é um presente de Deus.  Sigo vencendo preconceitos e quebrando barreiras todos os dias de minha vida, conquistando meu lugar ao sol, certa de que ele brilha pra todos. Sinto-me infinitamente abençoada pelo Criador. Ser feliz é um direito de todos, independente das diferenças e limitações de cada um.  Acredito no que dizia Renato Russo: “quem acredita sempre alcança” em uma de suas canções intitulada Mais uma Vez.

terça-feira, 31 de março de 2020

Sobre Senador Pompeu, Granja e Resident Evil

Imagens Google - Edição True Love


Estamos com o maior vácuo entre as postagens do blog. Eu, Malu, reconheço e assumo a responsabilidade. Não vou aqui justificar o fato tentando enumerar as prováveis causas desse hiato, mas, se puder dizer algo em minha defesa, digo que esse cantinho aqui é muito especial pra gente e julgamos que só vale a pena alimentá-lo com as verdades que trazemos no coração. E, sobre elas, bom, acho que nem sempre conseguimos materializá-las em forma de palavras e transportá-las para cá. Entendem?

Brayan e eu estamos em Granja. Com essa onda toda do Coronavírus, quando o TRE suspendeu as atividades, nós não pensamos duas vezes e logo voltamos para casa. Estamos literalmente trancados no quarto há dez dias. Saímos vez ou outra para tomar sol, e só minha mãe nos visita para fazer a limpeza e trazer nossa comida. Escrevendo sobre isso é impossível não sentir o coração entristecer, mas, não me vejo no direito de reclamar, afinal, estamos em casa, todos juntos e bem. Graças a Deus.

Mas, saindo um pouco dessa vibe pandêmica - não sem antes insistir no #FiquemEmCasa - tomo a liberdade de informar em primeira mão para vocês que acompanham o blog que logo logo voltaremos definitivamente às terras granjenses. Sim, a transferência do Brayan vai sair bem mais rápido do que esperávamos e em breve ele será lotado no cartório eleitoral de Granja. Estamos felizes com tal conquista, já saudosos das amizades que deixaremos em Senador Pompeu e, confesso, estamos bastantes reflexivos também. É o encerramento de um ciclo, afinal...

Tipo, passamos 3 meses e alguns dias morando sozinhos. Claro, o Luiz estava conosco, ajudando no necessário e no que precisávamos, mas a responsabilidade no fim das contas era nossa. "Lá eu me sentia mais adulto", me disse o Grandão esses dias quando conversávamos sobre o assunto; e penso que essa fala dele resume bem a importância dessa nossa temporada lá. Foi uma experiência nova, desafiadora, reveladora em alguns aspectos, mas sobretudo repleta de oportunidades de aprendizado. 

No fim, se a vida fosse o game Residente Evil 5, quero acreditar que conseguimos passar de fase. Ora ele agia como o carinha que vai na linha de frente, se arriscando e derrotando todos os adversários; ora eu, a mocinha, seguia distraindo os monstros, lutando e fazendo a minha parte para alcançarmos a vitória no final. Acho que conseguimos. E o que vamos guardar de Senador Pompeu - além dos laços de amizade construídos - é justamente isso, a certeza de que se quisermos lutar e seguir juntos, tudo nos será possível.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Ser "Nós" Nos Faz Melhores

O pessoal desce do carro e a gente tira foto.

A vida de solteiro certamente tem muito atrativos, sendo o principal deles a liberdade de escolha; podemos livremente nos interessar e ficar com qualquer pessoa que nos corresponda. Tudo muito simples, muito direto; não devemos nada a ninguém. Quando eu era mais novo e já havia alcançado um certo grau de desilusão com o amor, me enveredei com gosto por esse caminho e me envolvi com muitas mulheres, embora tenha levado também muitos foras. Malu mesmo, esses dias, comentou com a Geórgia que eu sou "mais rodado do que prato de microondas", o que não deixa de ser verdade. Mas é bom que se diga que as experiências que eu tive só foram possíveis porque eu me lancei, porque eu busquei viver; não fosse minha força de vontade nesse sentido, provavelmente as minhas limitações pesariam e eu não teria amadurecido como me era necessário. Então, sou "rodado", mas isso me ensinou muitas coisas.

Quando reflito a respeito, sempre me lembro de como me sentia depois de cada aventura. Vinha uma sensação de vazio, de estar errado, deslocado. A satisfação era momentânea, durava das primeiras conversas mais quentes até o final dos encontros. Eu não conseguia ver um fundamento naquela vida que era, a princípio, tão sedutora e prazerosa. Essa foi a fase em que eu fui do oito ao oitenta, em que abandonei meus sonhos românticos de garoto e aceitei que só existiam interesses, que era melhor assim, sem correr o risco de sofrer novamente. Graças a Deus, Malu e eu nos encontramos e o vácuo interno deu lugar ao sentimento de completude ao lado de alguém que também me ama de verdade.

Nós, seres humanos, somos criaturas sociais, feitas para interagir umas com as outras, para manter relacionamentos e criar laços. Talvez a sensação de vazio decorra justamente da negação dessa natureza, quando nos contentamos com pouco, apenas saciando vontades físicas, desprezando aproximações sinceras. Não deixa de ser uma autoviolência. E fica ainda pior quando percebemos que saímos carregando as energias de todos com quem nos envolvemos, ainda que em um único encontro; já não aconteceu de vocês ficarem com alguém, mesmo que uma vez, e sentirem essa pessoa próxima, como se estivesse aí dentro? Imaginem a confusão interna de quem sai ficando sem critério, pulando de galho em galho; de repente a pessoa perde a consciência de si mesma. Ninguém merece isso.

Aprendi com a Malu que é, sim, possível amar e ser amado de verdade. E essa compreensão foi se fortalecendo com o passar do tempo, levando a outras descobertas, muitas das quais já inspiraram vários textos que escrevemos aqui. O pensamento de hoje é o de que um relacionamento não deve ser, nunca, uma tábua de salvação para a vida de ninguém; por outro lado, ele é, em essência, uma ferramenta de melhoria para os envolvidos. Basta lembrar da nossa natureza de seres que devem se ligar uns aos outros. Como seria possível o crescimento pessoal sem que aprendêssemos a desenvolver a empatia, a desejar o bem do(a) nosso(a) companheiro(a) independente do nosso? Bom, eu só consigo ver amor real dessa maneira. A Malu sabe que, mesmo se no futuro viermos a terminar, eu sempre desejarei a felicidade dela em todos os sentidos e farei o que estiver ao meu alcance para realizá-la; tenho absoluta certeza de que ela pensa o mesmo sobre mim. O nosso compromisso não se limita ao nosso namoro e por isso nós já vencemos tantas coisas.

É claro que esse crescimento a dois só pode acontecer quando enxergamos de verdade a pessoa que vive ao nosso lado. Ora, não é suficiente manter um relacionamento no modo automático, empurrando com a barriga. É muito cômodo simplesmente compartilhar os dias sem considerar o que o outro sente, como sente, o que deseja, o que é importante para ele(a). Precisamos nos importar com nosso amor. Se pensarmos um momento nisso, veremos que muitos casais chegam ao fim exatamente porque um já não está nem aí para o outro, porque a dedicação do começo do namoro foi morrendo. As pessoas esquecem ou mesmo desconhecem que o relacionamento amoroso é porta para uma evolução singular. Sou um cara cheio de defeitos, mas garanto que viver com a Malu me tornou alguém melhor, da mesma forma que enxergo com clareza o quanto a minha pequena cresceu ao longo da nossa jornada. 

Nenhum relacionamento é perfeito. Acreditem, a pequena e eu temos nossas discordâncias e, às vezes, é muito difícil conciliarmos tudo. Para quem acredita em signos, uma taurina e um escorpiano juntos dão uma combinação e tanto. Não tenho dúvida de que a convivência sob o mesmo teto tem sido a prova definitiva à solidez da nossa relação. Felizmente nós dois temos consciência de que é nosso papel alimentar o que construímos até aqui. A vida fica mais gostosa de viver quando é compartilhada com alguém especial, porém é preciso dedicar-se sinceramente para que a chama não se apague. Não há necessidade de gritar seu amor na janela, nem de espalhar outdoors pela cidade se declarando para o(a) seu(sua) amado(a). Muitas vezes o diferencial para o relacionamento será uma atitude invisível aos olhos, como se colocar no lugar do outro antes de fazer uma brincadeira, como aprendi a fazer por aqui. 

quinta-feira, 5 de março de 2020

Vamos ajudar a Tamires?


Abro esta página em branco com o meu coração batendo fortemente movido pelo sentimento de indignação. Por isso, desde já, peço desculpas se em algum momento eu me expressar de forma mais dura ou mesmo deixar escapar um palavrão. É que, sinceramente, tem coisas que não dá pra gente engolir. E, quando falamos sobre a realidade das pessoas com deficiência, determinados fatos e algumas situações acabam se tornando uma delas. Mas, sem mais delongas, deixem-me começar a explicar o que me deixou tão indignada há alguns minutos. Vou começar pelo começo.

Vocês que nos acompanham desde o começo lembram de quando a gente estreou aqui no blog a categoria #AssimComoVocê? Lembram quem foi a nossa primeira convidada? Se você não recorda ou não sabe de quem eu estou falando, clica aqui para conhecer a Tamires, uma querida amiga que o Facebook me trouxe e da qual eu tenho o maior orgulho. 

Pois bem, como já está descrito lá no post da #AssimComoVocê, a Tah - de forma semelhante ao Brayan - nasceu durante um parto complicado e sofreu falta de oxigenação. Em decorrência desse fato ela ficou com algumas sequelas que os médicos diagnosticaram como resultado de uma paralisia cerebral; e que, inevitavelmente, a inseriram entre os quase 24% da população brasileira que vivência algum tipo de deficiência. Feita essa ressalva, vamos aos fatos.

A Tamires é estudante de Psicologia, começou agora o último ano do curso que era custeado pelo FIES - um programa de financiamento estudantil do Ministério da Educação. Acontece que no início do semestre do ano passado ela tentou renovar o financiamento e, pasmem, não conseguiu. A Faculdade a encaminhava para o Banco; o Banco a encaminhava para a Faculdade. E nem o próprio FIES lhe deu qualquer resposta. Resultado: Tamires perdeu o prazo e, óbvio, o FIES.

Bom, as consequências disso eu acredito que vocês conseguem imaginar: Tamires não conseguiu pagar as mensalidades da faculdade - num país marcado pela desigualdade social como o nosso, são poucas as pessoas que conseguem, né? - e só não teve de largar tudo porque um dos tios dela generosamente pagou toda a dívida. Mas, estamos em outro ano, né? A Tah ainda tem dois semestres pela frente, e com a pouca renda familiar, novamente ela não está tendo condições de arcar com as despesas do seu curso. Para vocês terem ideia, nem da merecida festa de formatura ela poderá participar. Como poderia se a grana tá curta para pagar as próprias mensalidades do curso?

Ah, Malu, mas por que você está contando tudo isso aqui no blog? Não é muito mimimi da sua parte, não? Afinal, quem não passa por dificuldades financeiras e não sofre um bocado para cursar e pagar uma universidade? 

Então, vamos la... Primeiro que, sinceramente, eu quero muito acreditar que nenhum de vocês que nos lêem aqui no True Love me fariam tais perguntas; mas, se por ventura acontecer de alguém questionar algo assim, eu quero fazer um pedido: por favor, volte dez casas! Leia, pesquise sobre a realidade das pessoas com deficiência aqui no Brasil. Informe-se sobre como funcionam NA PRÁTICA as políticas de inclusão e acessibilidade; como ocorre o nosso acesso a educação, ao mercado de trabalho, ao lazer... Enfim, saia da caixinha limitada que te faz pensar que a meritocracia é uma realidade e que as minorias que lutam pelo PRÓPRIO ESPAÇO são oportunistas que só exigem privilégios. Sério, esse tipo de pensamento precisa acabar!

E, segundo, mas não menos importante: a vertdade é que apesar de saber que existe muita coisa ruim online, eu confio muito no potencial que a Internet tem de despertar o melhor em cada um de nós. Assim, quando a Tamires me contou sobre a situação que está vivenciando, imediatamente junto ao sentimento de indignação me veio uma forte vontade de ajudá-la. Mas, como minhas condições não me permitem fazer muito, pensei em algo que provasse a veracidade daquele tão conhecido ditado popular que diz que a união faz a força. Foi assim que surgiu a ideia de usar a visibilidade - ainda que pequena - do True Love para ajudar a Tah a concluir sua tão sonhada faculdade. A gente pode contar com vocês?

A ideia é simples: com a autorização da Tah, nós criamos uma vaquinha virtual - uma espécie de campanha beneficente - que, neste caso, tem como ÚNICO OBJETIVO angariar recursos para que a Tamires possa concluir o restantezinho que falta do seu curso de psicologia e, quem sabe, juntamente com os seus colegas de classe, possa também ter a sua tão sonhada e merecida festa de formatura. Ela, como qualquer pessoa que batalha e corre atrás dos seus sonhos, merece muito a oportunidade de se formar sem passar por maiores dificuldades além daquelas que ela já enfrenta todos os dias. Vamos ajudá-la? Para isso, basta que você clique aqui. Doe o que você puder! Acredite: você pode fazer a diferença! E, antes de concluir o post, se você quiser onhecer mais sobre a Tamires, clica aqui para assistir um vídeo em que a dona Vera, mãe da Tah, fala sobre ela. Assistam por favor e comprovem por si mesmos que a minha amiga merece muito essa forcinha!

Brayan, Tamires e eu contamos com vocês.

E, desde já, gratidão!
Beijos!

quarta-feira, 4 de março de 2020

Desejos, Vontades e o Meu Processo de Aprender a Escolher

Imagem Google

Não tem fuga. Não há saída. Crescer, se tornar gente grande como dizem as crianças é ter, inevitavelmente, que fazer escolhas; optar por este, aquele ou outro caminho... Decidir, enfim. Para muitas pessoas ter de viver isso, ou seja, ter de escolher é ou pode vir a se tornar um fardo. E é engraçado o fato de que eu escrevo isso agora ao mesmo tempo em que lembro que durante boa parte da minha adolescência e início da idade adulta, eu mesma vivi um conflito enorme em torno da necessidade de tomar decisões, optar entre um simples sim ou não, acatar uma ou outra experiência/possibilidade – algo que hoje, eu sei, é um desafio inerente ao nosso processo de adultecer. Deixem-me tentar explicar...

Como pessoa com deficiência e, óbvio, como espírita, o fato é que por um período até considerável da minha vida eu me prendi a questionamentos tentando encontrar, digamos, a finalidade pedagógica da minha condição física. Eu basicamente me perguntava quais as características psicológicas e emocionais que preciso desenvolver nesta existência a partir deste corpo: aprender a resignação ao renunciar muitas das minhas vontades, desejos e escolhas? Ou aprender a ser forte, determinada, a expressar o que sinto e, de certa forma, fazer valer o que quero e desejo de verdade?

Tais questões parecem demasiadamente filosóficas e sem nenhuma utilidade prática, vocês devem estar pensando, mas a verdade é que elas tiraram o meu sossego durante muito tempo. Desejar ir a um show, por exemplo, era uma vontade que sempre me colocava em meio a um grande conflito, pois escolher ir resultaria em trabalho, gastos e cansaço para outras pessoas – meus pais e irmãos, geralmente – que, muitas vezes, nem tinham o mesmo interesse que eu. Resultado: eu ficava no impasse entre renunciar ao desejo ou lutar por realizá-lo.

Escrevendo isso agora, já beirando os meus 35 anos, a sensação que tenho é que naquela época eu complicava demais. Digo, eu ficava tão preocupada em escolher o certo, um certo que na minha cabeça deveria agradar todo mundo, que eu simplesmente paralisava diante de qualquer situação que me exigisse tomar uma decisão. Eu não percebia que se o meu foco fosse outro, parte de todo aquele conflito poderia ter sido evitada. Sim, pois se em vez de tentar fazer escolhas que agradassem a gregos e troianos eu simplesmente pensasse no que eu realmente queria, talvez eu tivesse aprendido mais cedo sobre o quão libertador é dizer sim e/ou não quando se tem vontade, e que também é maravilhoso poder contar com pessoas que por amor se dispõem a escolher o que é bom para nós.

No fim de tudo, e depois de um tiquim de amadurecimento, penso que o amor e a verdade do nosso coração são os grandes facilitadores desse processo que envolve o uso do nosso livre arbítrio. Se a gente escolhe com amor (por nós e/ou pelo outro), por mais simplória que seja a situação, acaba sendo bobagem e só causa de sofrimento nós nos preocuparmos com erros ou acertos. De igual modo, quando escolhemos usando a sinceridade e a nossa verdade, sem subterfúgios ou segundas intenções, a vida por si mesma atenua quaisquer consequências menos felizes (se elas vierem!) porque conhece o que se passa no fundo do nosso coração. Foi começando a compreender assim que eu acabei por perceber que escolher não é o monstro terrível que eu enxergava na adolescência. Terrível e assustador mesmo é não poder, não ter a liberdade de fazer escolha alguma. E essa, graças a Deus, a deficiência física não me tira.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Felicidade São Momentos - Nem só de Amor Vive uma Relação

Olha a família aumentando!

Que saudade de vir aqui conversar com vocês! A correria tem sido grande; muito trabalho, estudo, fisioterapia... São tantas prioridades a atender. Felizmente as coisas vão bem. Já faz dias que penso em voltar a escrever, porém preferi deixar para hoje, domingo, dia em que temos mais tempo livre e posso organizar melhor as ideias. Penso que foi uma decisão acertada, porque agora posso situar melhor vocês sobre os últimos acontecimentos.

Para começar, conto a novidade da semana: Malu e eu decidimos adotar... mais uma cachorrinha! Sim, como vocês podem ver na foto que introduz este post, nossa família nada tradicional cresceu por esses dias com a chegada da Sarah. Na semana passada eu havia pensado em comprar uma filhote de "salsichinha" (Dachshund), raça pela qual tenho uma simpatia muito grande. Acabei perdendo a chance de buscar uma cadelinha e, quando pesquisei em um pet shop de Fortaleza, fiquei surpreso com o preço. Isso me fez refletir e eu acabei concluindo que poderia encontrar uma companheira para a Nina aqui mesmo. Malu e eu descobrimos, então, sobre uma ong aqui da cidade, a Animus; e fomos até lá, onde encontramos a Sarah e sua irmãzinha. Foi duro ter de escolher apenas uma; se pudesse, criaria mais. Então, agora somos quatro. Espero que, em breve, a Sarah se acostume a dormir à noite...

Feito esse registro especial, vou ao assunto principal da postagem de hoje. A convivência com a Malu em uma casa só nossa tem sido diferente do que havíamos experimentado, até então, em Granja. De fato, passamos a viver como se fôssemos casados, tendo de assumir responsabilidade sobre um lar e escolher até o almoço do dia seguinte. A própria mudança para uma cidade nova já foi um grande novo passo no nosso relacionamento, pelo fato de que a Malu deixou sua família para estar comigo, assim como eu fiz quando vim do RS para o Ceará. Esse "corte" momentâneo no contato físico diário com os familiares é nota distintiva de um casamento; "quem casa, quer casa". E um dos maiores problemas que um casal pode enfrentar no período pós-matrimônio é a acomodação, seja de um, seja de ambos os envolvidos. Simplesmente se relaxa, se deixa de conquistar o outro todos os dias. Muitos divórcios e separações se devem a isso. De repente, a fogueira não é mais alimentada. Pois saibam vocês que, depois de muita conversa com a minha pequena, eu descobri que estou pecando exatamente nesse ponto.

A Malu é a pessoa em quem eu mais confio nessa Terra. Ela sabe praticamente tudo sobre mim. Essa confiança tão grande vem da maturidade que eu observo na minha princesa, do caráter que ela possui, do conjunto de valores que eu sei que ela cultiva diariamente. De maneira que eu vivo muito tranquilo, porque sei que a Malu não irá jamais me iludir ou enganar; porque tenho certeza de que ela é muito forte e pode vencer qualquer desafio; porque, enfim, não tenho a menor dúvida de que ela me ama sinceramente. Pois é, alguns de vocês já devem ter percebido onde eu quero chegar. É precisamente a certeza que eu tenho sobre o amor da Malu que me fez relaxar um pouco nos últimos tempos. É verdade que eu tenho trabalhado muito e estudado também, o que me consome bastante tempo; mas, mesmo assim, eu poderia - e deveria - estar reservando mais momentos para nós dois. Foi essa semana, em uma das nossas muitas conversas, que a Malu apresentou seu justificado reclame.

De repente, me vi incidindo em um erro que me propus a não cometer. O foco no atendimento às várias prioridades diárias, aliado à confiança de que a Malu me ama incondicionalmente, me levou a relaxar demais. Paramos de fazer coisas juntos. Claro que aqui em Senador Pompeu não temos saído à noite porque a cidade é nova, um tanto violenta e não conhecemos ninguém. Mas isso não me exime da responsabilidade, de jeito nenhum. E eu sou bastante homem para reconhecer quando peco. Mesmo não saindo mais com a Malu, eu poderia estar separando um momento do dia para ver um filme ou uma palestra com ela; para deitarmos juntos e ficarmos conversando em outro instante que não seja o de antes de dormirmos; para viver o presente ao lado da minha mulher. A constatação de que estivemos vivendo esses dias mais como colegas de quarto do que como companheiros me atingiu profundamente. Por isso, ouvindo a Malu, eu decidi que preciso fazer algo para consertar as coisas.

Vejam só. Ontem à tarde mesmo, eu convidei a minha pequena para assistirmos uma palestra do Clóvis de Barros Filho, um cara que eu admiro muito, pela oratória incrível e pela lucidez do pensamento. Escolhemos esta aqui: "A Vida que Vale a Pena". Já pelo título eu previa as bordoadas. E elas vieram. Recomendo muito que assistam ao vídeo, porém me permito dar um leve spoiler: Clóvis aborda a questão da felicidade, em quê ela consistiria. Marcou-me muito o pensamento segundo o qual a felicidade está naqueles momentos da vida tão bons, mas tão bons, que nós não gostaríamos que acabassem. Como são os instantes que eu vivo com a Malu, dividindo, aprendendo, rindo, brincando. Nós somos felizes juntos. A palestra estava tão bacana que eu fiquei chateado quando terminou. Mas veio junto a alegria: a Malu também gostou de assistir, nós finalmente tivemos um momento nosso entre a correria, o trabalho, o estudo, o xadrez e etc.. Eu compreendi a lição. 

A felicidade está nos momentos, é bom repetir. 

Lembro-me agora que, dia desses, a Malu compartilhou no Instagram um post que falava sobre como um relacionamento não vive só de amor. De acordo com a mensagem, é preciso muita compreensão, muita renúncia, muita vontade de estar junto para que uma relação siga forte. Gozado como a vida nos manda a real na lata e nós muitas vezes não percebemos. Até que fica tarde demais. Então, depois que perdem é que as pessoas costumam dar valor. Não quero perder o que tenho com a Malu e percebo que não é suficiente apenas que nos amemos e confiemos um no outro. Relacionamento é fogueira, se não alimentar acaba morrendo e então o frio nos abraça. Apesar de detestar cometer erros, tenho de admitir que, sem eles, nós não perceberíamos onde estamos pecando e não seríamos capazes de buscar o acerto; na verdade, as maiores invenções do homem só foram alcançadas após muitos equívocos. Ainda bem que eu percebi a tempo. Obrigado, Malu, por novamente iluminar a estrada. Eu amo você!

domingo, 2 de fevereiro de 2020

O cuidado de Deus e novas amizades.

De um almoço especial ♥️

Sim, eu fiquei em Senador Pompeu e, como escreveu o Brayan no seu último post aqui no blog, nós seguimos juntos - para surpresa de todos, alegria de alguns, por conquista nossa e, claro, graças a Deus. Aliás, acho sempre oportuno destacar a presença de Deus na nossa história, afinal, quando Ele não age por Si mesmo, nos fortalecendo e ajudando a superar obstáculos que parecem intransponíveis, a Sua ação se faz através das mais variadas pessoas - familiares, amigos e mesmo desconhecidos - que terminam por fazer as vezes de anjos da guarda que nos ajudam a compreender e vencer, quando possível, as dificuldades do caminho. Assim é a Vida. Assim é Deus... Pelo menos na minha - limitada - visão.

Pois bem, vamos completar brevemente 2 meses nesta nova cidade, que apesar de tão diferente da nossa, acabou por nos receber maravilhosamente bem. Claro, digo isso fazendo menção às pessoas com as quais nós já travamos relações e criamos alguns vínculos de uma promissora amizade. O Grandão já comentou aqui sobre os seus novos companheiros de trabalho e sobre o quanto tem sido enriquecedora a experiência de fazer novos amigos, e com isso compartilhar reflexões e aprendizados, lembram? Então, é sobre um pouco de tudo isso que eu hoje me dispus a vir aqui falar.

Dentre algumas pessoas incríveis colocadas em nosso caminho desde o dia que aqui chegamos – acreditem, são muitas! – no presente post quero apresentar para vocês a Geórgia, nossa fisioterapeuta. Foi o Brayan quem chegou até ela através de pesquisas no Facebook, e poxa, o tio Marck Zuckerberg não poderia ter nos levado a ninguém melhor. Aliás, só um comentário rápido sobre a nossa aproximação, convivendo com a Geórgia quase que diariamente, mais uma vez ficou muito claro para mim sobre o quanto a vida trabalha levando em conta não apenas as nossas necessidades de aprendizado, mas também a questão da afinidade. Ou você vai ousar dizer que eu estou viajando na maionese quando souber que, além de uma ótima profissional – justamente como a gente precisa – ela é, também, fã de Sandy e Júnior?!

É como eu sempre digo: nada acontece por acaso!

Mas, voltando à Geórgia, sabem quando o santo bate? Pois é, isso aconteceu logo de cara quando a gente se conheceu. Como comentei antes, nós chegamos até ela por meio do Facebook. O Grandão pegou o WhatsApp da clínica onde a Geórgia atende e marcou uma avaliação. Neste primeiro encontro a coisa já fluiu positiva e naturalmente entre a gente. Tanto que de fisioterapeuta do Brayan, como foi o combinado no início, já que eu não ficaria em Senador Pompeu, ela aceitou ser minha fisioterapeuta também. Dito tudo isso, não é difícil imaginar que de uma relação que seria inicialmente entre “médica” e “pacientes” nasceu uma amizade, né?

E, como em toda amizade nascente, as conversas vão fluindo de forma natural, as impressões vão se revelando... Foi num desses momentos, em uma das sessões de fisioterapia do Brayan, enquanto eu o ajudava de um lado e ela o auxiliava a exercitar o braço do outro, que ela, Geórgia, disse: “a Malu é uma namorada e tanto, viu? É bom guardar!”. Confesso que achei bacana este comentário da parte de alguém que mal me conhecia; ainda assim, ouvindo-a falar diretamente para o Grandão e depois de alguns rápidos segundos de reflexão, eu completei: “Guardar, não, Geórgia! Cuidar! Se só guardar corre o risco de esquecer. Tem que cuidar!”. Foi aí que ela olhou para mim e soltou: “Olha aí, Malu também é cultura! Aliás, vocês são tops!” e continuou contando que o Renan, namorado dela, já tinha lido quase todos os posts aqui do blog.

Ganhamos novos amigos e, de quebra, novos leitores. Massa, né?

Para não me alongar demasiadamente neste post, o que quero passar ao escrever sobre a importância das nossas novas amizades, em especial sobre a Geórgia, é que, no fim das contas, tudo acaba dando certo de um jeito ou de outro. Eu inicialmente não vim para ficar com o Brayan em Senador Pompeu, mas numa prova de confiança, extremo amor, generosidade e desprendimento, os meus pais perceberam que eu permanecer aqui seria o melhor para todo mundo. O Brayan, que por tanto tempo desejou retomar sua fisioterapia e sua reabilitação, acabou encontrando aqui a pessoa perfeita para ajudá-lo neste processo; e, indiretamente, conseguiu uma fisioterapeuta para mim também, e uma amiga para nós. Não sei se para vocês tais fatos descritos aqui terão o mesmo significado que têm para nós dois – e é natural que não tenham! – mas, como disse no primeiro parágrafo, eu gosto de destacar o que julgo ser a presença de Deus na nossa história... Os cuidados e o Amor dEle por nós.

É isso...

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Seguimos Juntos!

Cuidado.


A melhor novidade deste começo de ano eu vou contar agora: a Malu vai ficar! Sim, a minha pequena vai permanecer aqui na cidade morando comigo e nosso amigo Luis. Eu já estava desanimado com a perspectiva de a Malu voltar para Granja com os pais, enquanto eu ficaria aqui trabalhando e estudando. Não seria a mesma coisa sem a minha companheira; acordar de manhã e não vê-la ao lado; chegar em casa e não encontrá-la à espera; seriam dias longos e sem graça. Felizmente, dona Marta e seu Chico atenderam nosso pedido e permitiram que fiquemos juntos. Está sendo uma experiência incrível dividir a responsabilidade de manter uma casa com a mulher da minha vida.

Pra ver como as coisas acontecem de formas realmente misteriosas. Dona Marta, quando esteve por aqui nesta semana, disse que é interessante como Malu e eu, e mesmo ela, minha sogra, chegamos a esta cidade que tem um passado difícil. Talvez tenhamos "tocado fogo no coreto" em outras épocas e, agora, estejamos cumprindo algum tipo de tarefa para restabelecer o equilíbrio. Vai saber... Importante é que seguimos a nossa caminhada de aprendizado e, nesse processo, temos a oportunidade de adquirir mais vivência, amadurecer. O próprio trabalho no cartório eleitoral tem me ensinado bastante, não apenas me dando a prática do expediente interno como também, e especialmente, me mostrando que eu sou capaz de me impor e vencer os desafios que surgem. Me sinto mais forte agora.

E eis que, hoje, a Malu compartilha no Instagram a foto que introduz esse post, me surpreendendo positivamente. Na legenda, ela falava sobre como nos apoiamos um no outro naquela ocasião, naquele momento em que estávamos sentados na água, dentro daquela lagoa entre as dunas. Ali nós servimos de equilíbrio um para o outro e essa imagem, para além de ser um lembrete de um dia especial, também ilustra com perfeição o que deve estar presente em um relacionamento: o auxílio, a convivência e a troca de experiências com o objetivo primordial de cuidar e crescer junto. Sozinhos, nós dois não conseguiríamos nos sustentar dentro da lagoa; já unidos, agarradinhos, não tivemos mais o que temer e pudemos aproveitar com alegria aquele instante. Assim tem sido nossa vida nos últimos anos, desde o encontro naquele chat do Uol e apesar das idas e vindas; estamos vivendo melhor, mais felizes e mais seguros do que quando "boiávamos" sós.

Dar esse novo passo, o de assumir a responsabilidade por uma casa, me assustou um pouco no início. Porque tem muito mais envolvido do que apenas pagar boletos. Eu tive que abrir mão da convivência com pessoas especiais e sair de uma zona de conforto, em que tinha tudo sob relativo controle, para me lançar em um novo trabalho, em uma cidade desconhecida e, ainda, ter de cuidar dos detalhes domésticos, como escolher o almoço do dia seguinte. Tudo isso enquanto administro minha deficiência e me adapto como posso. Ter a Malu ao meu lado nessas circunstâncias é receber um amparo extraordinário para não ter medo, para confiar no melhor. Nós dois estamos melhores do que nunca como casal e eu só posso agradecer a Deus por ter colocado uma mulher tão especial na minha vida; não tenho do que reclamar. Tudo o que tem acontecido, da assunção do cargo público à melhoria financeira, não teria a mesma graça sem a Malu. 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Da Ilusão à Realidade: Uma Carta Sobre e Para o Amor

Somos uma família
Antes tarde do que nunca, é o que dizem; e é também o que eu lembro quando começo a Te escrever essas linhas. Então é isso mesmo, meu Caro? Depois das feridas adquiridas ao longo do caminho, e só quando eu finalmente me dei por vencida, foi que Você resolveu bater à minha porta? Era esse o seu plano? Deixar eu me quebrar inteira, para só aí você chegar e ocupar o espaço que sempre foi Teu? Tudo o que vivi antes, todas as vezes em que me enganei achando que era você finamente chegando, todas elas foram apenas um teste? Sério? Era necessário mesmo eu ficar tão cheia de cicatrizes para estar a altura de Te receber? Não teria sido melhor o contrário? Digo, não seria mais fácil você chegar e encontrar meu coração novinho, virgem, sem marcas - portanto, sem medos - e nele construir sua morada? Como você acha que vai sobreviver numa casa tão bagunçada? Espera, não precisa me responder; só me diga que você sabe o que está fazendo... Por favor!

Eu sempre quis Te viver, isso é um fato. Sua ausência sempre gritou alto dentro de mim, embora só depois de uma certa idade foi que eu vim realmente entender o que era aquele sentimento indefinido, aquela saudade sei lá de quê, aquele vazio. Quantas cartinhas eu escrevi para um destinatário imaginado, quantas histórias eu criei na minha imaginação precocemente romântica... Eu não sabia na época, mas ali já era o meu coração reclamando a Tua presença. Com o passar do tempo, mais do que sentir a Tua falta, eu passei a Te procurar. A cada gesto de atenção, a cada carinho recebido eu achava que era você chegando... Por Deus! Que mocinha estúpida! Lembro até hoje da primeira vez em que meu coração bateu forte, me fazendo pensar que, enfim, você havia chegado. Eu estava na missa e num banco atrás de mim, estavam dois garotos. Um deles começou a me encher de perguntas inoportunas sobre a minha condiçãõ, e o outro deve ter notado meu constrangimento, porque disse pro colega: "Hey, cara, para! Deixa a menina em paz." E se dirigindo pra mim, completou: "Liga não! Ele é chato assim mesmo!" Ali eu me apaixonei! 

Claro que não deu em nada, você sabe! Primeiro porque eu tinha 12 anos. Segundo porque apesar de no ano seguinte eu ter ido estudar na mesma escola e na mesma classe que ele, bom, naquele nosso contexto adolescente onde a popularidade e a beleza acabavam sempre falando mais alto, ele era como a cereja do bolo numa festa de aniversário, enquanto eu não passava daqueles aperitivos de queijo, presunto e azeitona. Hoje eu sei que confundi os sentimentos... Aquele garoto pode até ter sido, ou melhor, foi o meu primeiro encanto; mas, com certeza, ele não trouxe você para o meu coração. Não foi amor. Da mesma forma que hoje eu também sei que não foi você o sentimento que me prendeu àquele outro amigo por oito e longos anos. Com ele eu tive a primeira experiência de um sentimento correspondido (eu acho!), mas ainda assim não era você. Foi bonito enquanto durou, mas mesmo assim não foi você. E sabe por que eu sei? Porque quando é você o tempo não afasta, o orgulho não vence, a indiferença não predomina. Acertei, né? Aquele sentimento foi uma ilusão, uma baita confusão, mas ainda não era você, não era amor.

Quisera eu ter parado aí, digo, quisera não ter visto nenhuma outra miragem no meu caminho; ou pelo menos, nenhuma tão dolorosamente impactante como a última. Eu já estava sem esperanças, é verdade, mas daí para confundir você com carência e sensações puramente físicas, por favor... Lembro de tudo e fico me perguntando onde andava meu juízo naquele momento. Sinceramente? Não sei. Na verdade nem sei se me arrependo dessa infeliz experiência porque, no fim das contas, ela me trouxe um aprendizado muito importante: o de que você, caro sentimento, nunca vem em forma de migalhas; jamais nos chega como numa espécie de conta gotas e, muito menos, em busca de vantagens. Talvez eu precisasse passar por algo parecido, não sei. O fato é que a partir daquela experiência eu conheci mais a respeito de mim mesma, dos meus desejos, sonhos e, de quebra, conheci mais a respeito de você também.  No fim, eu aprendi com a maior de todas as ilusões da minha vida. E, por mais incrível que pareça, de certa forma foi ela que me trouxe você; ou, você que me salvou dela.

Sim, você de quem eu havia desistido e que chegou num momento em que eu já havia jurado para mim mesma não mais Te procurar. E confesso que sentir que era você foi um choque para mim, afinal, como eu poderia imaginar que você me viria através de um sentimento despretensioso, espontâneo, e inicialmente, quase fraternal? Nem de longe me passou pela cabeça que aquele encontro virtual me traria você cinco meses depois. Você que é diferente de tudo o que já senti, que não me pesa demasiadamente no coração; você que somando com os meus melhores sentimentos me faz querer ser ainda melhor... Eu não entendo como se deu tal transformação, mas eu sei que daquela amizade nasceu você, um sentimento maior, incondicional. Talvez soe exagerado isso, mas você mesmo sabe que passou por uma prova de fogo recentemente. A possibilidade da distância e o não saber o que iria acontecer - se iríamos ou não continuar juntos - foi uma experiência que fez meu coração doer como nunca doeu antes, mas que também deu a ele a força e a coragem para lutar...  No fim, você, por ser amor, venceu; e se isso não é uma prova de incondicionalidade dentro dos limites humanos, eu não sei o que é. A verdade e o mais importante é que com você no meu coração eu já não tenho tanto medo do futuro, embora ele ainda me pareça incerto, muito mais do que já é por si mesmo. Com você eu estou optando por viver um dia por vez. Eu aprendi que isso basta para você, Amor.

Obrigada por ter finalmente chegado!
Obrigada por ter vindo num jeito Bom de se deixar viver!

*

 "Ser profundamente amado por alguém nos dá força. Amar alguém profundamente nos dá coragem!" - Lao Tsé

domingo, 5 de janeiro de 2020

Meu Novos Jovens Amigos - Uma Troca de Experiências

Novos amigos.
E mais um ano se inicia. Novamente fixamos metas, definimos as realizações e projetos a serem concretizados, enfim, uma vez mais orientamos nossa bússola para a jornada sem fim. Não sei vocês, mas eu pelo menos fico um tanto reflexivo nessa época, até filosofo mais do que de costume. Faço um balanço do ano que passou, identifico o que de melhor me aconteceu e procuro encontrar o lado bom das coisas negativas que experienciei. Dessa vez pude agradecer por finalmente ter assumido a vaga do meu concurso, realizando um sonho de muito tempo. Não deixa de ser interessante o fato de eu ter começado a exercer as minhas funções neste momento de reflexão; é como se a vida me lembrasse de manter a cabeça no lugar, aconteça o que acontecer.

Nesse começo de atividade no cartório eleitoral, eu já venho me dedicando em manter um bom relacionamento com todos os meus colegas. Fiz questão de me mostrar acessível, para evitar que qualquer um deles ficasse receoso de se aproximar de mim só pelo fato de eu ocupar um cargo de nível superior, afinal eu não sou melhor do que ninguém por isso. E foi assim que pude conhecer, além dos meus colegas com cargos fixos, os quatro estagiários que auxiliavam no expediente: a Yasmin, o Rodrigo, a Beatriz e a Jade, todos eles com dezessete anos. Eu disse "auxiliavam" porque o estágio deles se encerrou junto com 2019. Apesar do pouco tempo que passamos juntos, nós conversamos bastante e essa experiência acabou se revelando um aprendizado para mim; quero crer que para eles também.

A gente sabe o quanto essa fase, da adolescência até a vida adulta, é marcada por dúvidas e expectativas. Conforme me aproximei dos meus novos jovens amigos, fui identificando alguns dos seus temores: o desafio de cursar uma faculdade, o receio de enfrentar o mercado de trabalho, até mesmo alguns dilemas familiares. Me chamou atenção uma pergunta feita pela Yasmin: "Mas, e se lá na frente eu perceber que não gosto do que escolhi fazer?" A resposta me veio com facilidade: "Então largue e faça outra coisa". Sim, alguém dirá que eu só falei o óbvio, mas a coisa não é tão simples aos dezessete. Ah, os meus dezessete anos... Quando eu pensava que era o dono do mundo, que tinha poder para impor a minha vontade à revelia de qualquer circunstância. Como o tempo ensina.

Em um desses últimos dias do estágio dos meninos, eu novamente percebi os seus dilemas. Então decidi lhes contar um pouco da minha história; de como a gravidez da minha mãe foi difícil; de como nasci enforcado pelo cordão umbilical, com sério risco de morte; de como precisei estudar muito para conquistar a bolsa do Prouni, o diploma de Direito, a carteira da OAB e, por último, o cargo de analista do TRE. Achei incrível como eles ficaram admirados com tudo, conforme eu ia falando. No fim, repeti o que já tinha dito a eles logo que comecei a trabalhar: "Vocês podem ser qualquer coisa que quiserem; basta terem fé, acreditarem em vocês, na vida; e se esforçarem". Não sou dono da razão, mas a história está cheia de exemplos que confirmam meu ponto de vista. Minha intenção foi, além de tranquilizá-los um pouco, também dar um estímulo para que eles se dediquem.

Outra coisa que me veio em mente dizer a eles foi que, mesmo quando chegarem à vida adulta, eles vão cometer erros. Porque isso é da natureza humana. Nós crescemos, adquirimos experiência em vários sentidos, mas jamais saberemos tudo, jamais controlaremos todas as coisas; e nem tomaremos sempre as melhores decisões. É bom que eu mesmo lembre disso, porque tenho grande dificuldade em lidar com minhas falhas, me cobro demais. Como disse, esse contato com os meninos me serviu de aprendizado também; tem sido um exercício de empatia como até então eu não havia experimentado. Devo confessar que o sentimento que tenho por eles é, em grande medida, paternal, semelhante ao que tenho pelos meus irmãos. Um desejo de vê-los bem, realizados, encarando o futuro com confiança; é como se eu me sentisse um tanto responsável por todos eles.

Eu nunca quis ser exemplo para ninguém, até porque sou imperfeito, tenho meus calcanhares de Aquiles e muitas arestas a aparar. Mas confesso que transmitir um pouco da minha história aos meus novos amigos trouxe uma sensação muito boa, de estar fazendo algo positivo. É esse mesmo móvel que nos traz, Malu e eu, aqui ao True Love, para contar a vocês dos nossos dias, do nosso sentimento; a intenção de mostrar que, por maiores que sejam as dificuldades da vida, ela pode ser muito bonita e feliz. Que esse pensamento nos acompanhe neste 2020 e que possamos realizar nossos sonhos, sempre com muita coragem e serenidade. Malu e eu desejamos a todos vocês um ano de realizações e de alegrias!