quinta-feira, 21 de março de 2019

Está Mesmo "Escrito no Céu"?

Escrito no Céu 
No início dessa semana eu comentei com o Brayan que já tinha a pauta para o post de hoje. Sim, ainda era segunda-feira e eu já havia decidido escrever sobre a forma como a gente lida com temas como responsabilidade, causas, escolhas e consequências. Será este um tema filosófico demais para um blog que se propõe a falar sobre Amor verdadeiro? Vejamos...

Por que um relacionamento promissor chega ao fim? Por que duas pessoas que se amam, acabam, muitas vezes, seguindo por caminhos diferentes daqueles que desejavam inicialmente? Não era para ser, dirão alguns. Ou, o destino não quis, explicarão outros.

O fato, todavia, é que para as perguntas feitas acima podem surgir infinitas respostas, mas dentre elas, pouquíssimas falarão sobre a responsabilidade dos envolvidos. O que ao meu ver é uma pena, uma vez que demonstra o quão distantes ainda estamos do autoconhecimento que se faz necessário para a conquista da felicidade.

Tem uma música da Família Lima, cantada pelo Lucas em um dueto com a Sandy, que chama Escrito no Céu. Essa música é, na minha opinião, uma das músicas mais lindas e mais tristes que existe. É que além de contar sobre o fim de um amor infinito, sua letra inadvertidamente nos leva a pensar que este término se deu em função de um castigo, de uma punição Divina, e que Deus é o responsável pelo sofrimento narrado.

E neste ponto da música eu confesso que, mesmo sendo uma romântica incurável, me sinto desconfortável. Acho estranho mesmo cantá-lo. Sei lá, particularmente já não concebo a ideia de um Deus punitivo, vingador, capaz de castigar os Seus filhos de forma arbitrária e cruel, sabendo de antemão que eles são ainda imperfeitos e ignorantes. Para mim Deus é Amor, e por ser Amor, só promove o Bem.

Ah, Malu, mas e o mal que existe no mundo? E as maldades e violências diversas? E as dores e os sofrimentos?

Brayan e eu vivemos conversando sobre as questões acima, e por mais difícil que seja a gente entender todas estas nuances da vida em alguns momentos, nós dois procuramos sempre seguir pelo caminho da lógica, buscar o sentido por trás daquilo que ainda não conseguimos compreender. Assim, no tocante a Escrito no Céu, a reflexão que faço, é: quem pode pôr fim a um amor infinito senão os próprios amantes?

Em um relacionamento somos nós, enquanto pessoas, que escolhemos nossa forma de agir. Somos nós que muitas vezes nos deixamos levar pelo impulso e falamos palavras que machucam. Somos nós que, ainda que arrependidos, deixamos o orgulho falar alto em nossos corações e calar um pedido de desculpa. Ainda somos nós que escondemos o que é necessário ser dito, que agimos com deslealdade, falta de cuidado, e as vezes até com desamor.

Então, se as escolhas são sempre nossas, por que achamos que as consequências delas são castigos ou punições do Pai? É sabido que um relacionamento afetivo deve sempre ser permeado por atitudes de amor, respeito, compromisso, cumplicidade... E ainda que a licença poética da música nos permita pensar que o fim de um amor se dá porque está escrito no céu, a verdade é que na vida prática precisamos ter em mente que as coisas não ocorrem assim.

Amo o Brayan com um dos sentimentos mais lindos e fortes que guardo no coração. Sinto a reciprocidade deste sentimento presente em cada atitude dele. Mas nem de longe somos um casal perfeito; sabemos das arestas do nosso relacionamento que precisamos lapidar. E, acreditem, tal conhecimento é - para nós - libertador; pois a partir dele, e diferente do casal da música que se enxergou como réu e abriu mão da possibilidade de correr atrás da própria felicidade, a gente sabe que a autoria do nosso destino está primeiramente nas nossas mãos.

segunda-feira, 18 de março de 2019

O Caramelo Mais Doce

Beiço, lindo

Alguns dias atrás recebi mensagem do meu irmão, Junior, contando uma notícia ruim. Nosso Chow Chow de estimação, o Alejandro (carinhosamente apelidado de Beiço, por ter a mandíbula para frente) foi diagnosticado com câncer em um dos testículos; a doença também teria se espalhado para o fígado. A princípio tentarão o tratamento, porém não foi descartada a eutanásia. Vale destacar que o Beiço já tem doze anos, é um senhorzinho, o que, mesmo assim, não tirou o impacto daquela descoberta. Enquanto ouvia o recado, notei como o Junior estava abalado, falando com a voz embargada. Me segurei, não queria que ele se sentisse pior do que já devia estar. Fiquei triste e muito pensativo. Não coloquei para fora o que sentia, como tenho a mania de fazer.

Mas, como eu disse depois para a Malu, eu sou como uma sacola cheia de água, que sempre irá vazar por algum canto. E sou, aliás, uma sacola que nem consegue assistir filmes de cachorro, porque desaba com a maior facilidade. O resultado é que eu, de fato, explodi no dia seguinte, por um motivo besta qualquer. Chorei, demonstrei a raiva que senti por aquela situação e também por não poder fazer nada. Questionei a Malu sobre a justiça de casos assim, em que um bichinho que nunca fez mal a ninguém acaba tendo de passar por um sofrimento. Senti retornar a revolta com Deus, por não impedir que o Beiço ficasse doente, por ter permitido aquela ocorrência. Revivi o dia da morte do Domingos Montanger, em que até queimei meu chuveiro, por acumular tanta energia negativa. Como sempre, a pequena foi decisiva me ajudando na tarefa, sempre hercúlea, que é o aprendizado. Nós conversamos.

Sem entrar em detalhes maiores, Malu me explicou que os animais não sofrem da mesma maneira que nós, humanos. Pelo que entendi, nós passamos por maus bocados porque colhemos algo que plantamos, ou porque pedimos aquela provação para o nosso crescimento. Os animais, diferentemente, experimentam a dor apenas como ferramenta de evolução, porque não são racionais, não podem fazer escolhas como nós. Logo, se o Beiço está enfrentando essa doença agora, é porque é necessário para a trajetória dele. Não precisaria dizer, mas mesmo com as explicações da Malu, eu ainda fico triste ao pensar no que está acontecendo; é inevitável, afinal de contas o Beiço é um companheiro da minha família há doze anos e já nos proporcionou muitos momentos felizes. Impossível vê-lo doente sem sentir dor também.

Na mesma ocasião em que conversamos, eu disse para a Malu que minha fé é muito fraca. Deixo a revolta me dominar assim que as coisas saem do trilho e já quero apontar o dedo para cima em tom acusador. Questiono leis, métodos e criações divinas; teço severas críticas ao que considero parcial ou “seletivo” por parte d’Ele. E, no fim, mais calmo e esclarecido, enxergo o quanto sou pequeno. Malu usa uma analogia sensacional: segundo ela, Deus é como um Grande Mestre de xadrez, que enxerga quinze, vinte lances à frente no tabuleiro colossal da vida; enquanto nós, seres humanos encarnados, vemos apenas algumas poucas jogadas, de maneira que não entendemos nem de longe os insondáveis desígnios superiores. Quando a raiva passa, eu sinto vergonha por me revoltar; fico como aquela criança que fez “arte” e passa de cabeça baixa pelo pai ou pela mãe, ruborizado, constrangido por saber que errou. Sorte que Deus é bom e não se magoa conosco; é no que quero crer, pois, se eu estiver errado, lascou.

Quem cria um bichinho de estimação sabe quanto amor essas criaturas podem despertar. Até Hitler adorava cães. De igual forma, quando nossos companheiros adoecem ou partem, somos tomados pela tristeza, porque perdemos uma parte de nós mesmos. Mas tudo nesse universo tem um porquê; a Malu me lembrou que o Beiço já é um cãozinho idoso e que algumas moléstias são consequências do próprio envelhecimento. A carne é temporária, essa vestimenta grosseira que tanto cultuamos um dia se tornará pó e não podemos impedir, porque é uma das tantas leis da vida. Que grande razão para investirmos da melhor forma cada um dos nossos dias por aqui, hein?

(Paro de escrever por alguns instantes para afagar a Nina, que estava chorando, procurando pela Malu que foi tomar banho e está ali cantando com a Sandy no chuveiro. Que calor eu sinto na alma enquanto agrado essa criaturinha tão importante em nossas vidas).

Antes eu estava estudando e lia que os próprios tribunais, em diversos lugares do mundo, já estão reconhecendo que os animais não podem mais ser vistos apenas como objetos. Eles têm sentimentos e, se há controvérsias acadêmicas sobre se eles possuem ou não direitos, me cabe afirmar, sem dúvidas, que eles merecem todo o nosso respeito e consideração. Digo sempre que a Nina tem mais valor para mim do que muitas pessoas que conheço. É verdade que, dizendo isso, assumo meu lado egoísta e até mesquinho, porém não posso sentir diferente, ainda. Está aqui a autocrítica de hoje. Estudamos que a humanidade é uma grande família e que, um dia, nos amaremos dessa forma sem julgarmos o outro pelas falhas que tenha cometido. Para isso temos de crescer muito, o que só acontecerá com tempo e trabalho.

Lamento pela doença do Beiço, mas também agradeço por tudo o que ele nos proporcionou nesses anos todos. É um cachorrinho incrível, muito especial. Acredito que ele ainda pode melhorar e peço a Deus que ilumine todos aqueles que o estão tratando. Se o pior (do nosso ponto de vista) acontecer, resta aceitar e confiar que ele estará em um lugar melhor, mais feliz e continuando sua evolução. Não posso deixar de registrar como, diante desse episódio, novamente diagnostiquei, em mim, a doença da falta de fé. Dá mesmo uma sensação de vergonha, mas Deus conhece todos os corações e sabe que, se me encolerizo, o faço por ignorância ,já que cada um só dá o que tem.

Se você tem um bichinho, cuide, ame, dê todo o carinho. Mas não se adone a ponto de se tornar egoísta. Ninguém tem o direito de impedir ou de se indignar pela evolução do outro, seja um humano ou um animal. Entender isso me tranquiliza e já não fico mais tão triste, embora ainda não me sinta preparado para assistir Sempre ao Seu Lado.


quinta-feira, 14 de março de 2019

A Hashtag Do Momento E A Reflexão Que Não Pode Faltar.

Imagens Google

Semana passada tivemos o Dia Internacional da Mulher. Anualmente comemorado no dia 8 de março desde o ano de 1921 - data que ficou marcada por uma manifestação de 90 mil operárias russas em um protesto que ficou conhecido como "Pão e Paz" - ele simboliza um marco na luta pelos direitos e pela liberdade da Mulher. Aliás, o ser mulher e os seus desafios foi o pano de fundo do meu último post aqui no blog, lembram? E embora eu não tenha focado especificamente na data comemorativa - pois sinceramente naquele dia, em vista dos acontecimentos recentes, não vi muito o que comemorar - eu me vi praticamente impelida a dizer algo. Tentei fazer um texto o mais isento possível, e por isso preferi deixar para o futuro uma especificidade do assunto "Mulher" que também é de suma importância refletir e abordar: #sermulhercomdeficiênciaé... 

Pois bem, o futuro chegou! E, para comecar, esclareço que coloquei a expressão ser mulher com deficiência é... em forma de # porque me ocorreu que posso juntar o útil ao agradável neste post.

Como assim, Malu? Explico...

O Coletivo Hellen Keller criou, no último dia 7, a #sermulhercomdeficiênciaé... e, a partir dela, deu voz a milhares de mulheres PCD nas redes sociais. A hashtag bombou e depois de euzinha passar horas lendo as centenas de definições, eu pensei que poderia trazê-la para o blog e com ela não só refletir sobre a experiência de vivenciar o gênero feminino e a feminilidade em um corpo "deficiente", mas, ao mesmo tempo, dividir com vocês truelover's não apenas o meu ponto de vista, mas também a visão de muitas outras mulheres que, assim como eu, fazem parte do contingente de 25.800.681 pessoas e representam 13,53% da população total do Brasil segundo os dados do IBGE (2017).

Vamos lá?!

#sermulhercomdeficienciaé ter que sentir os olhares de pena das pessoas sob suas costas quando você passa na rua (experiencia bem pessoal essa rs) - Thayama Matos

#sermulhercomdeficiênciaé ter sua saúde comprometida e diagnósticos tardios de algumas doenças pq uma simples visita ao ginecologista não é encaminhada/feita/permitida.
“Vai ao gineco fazer oq? Não precisa não!”
“Gineco é coisa de quem apronta”. - Marina do @rodandopelavida (Twitter)

#sermulhercomdeficiênciaé ser duas vezes desacreditada - não te ouvem por ser mulher e te julgam menos capaz por ser deficiente. A mulher deficiente é constantemente nivelada por baixo, menos mulher, menos pessoa. - Aleijada Hipócrita do @aleijadinha (Twitter)

#sermulhercomdeficiênciaé apagarem a deficiência de Frida Khalo para tornarem sua imagem um ícone feminista.; e

#sermulhercomdeficiênciaé ser estuprada e ouvir dos algozes que fizeram um favor em te oferecer o "prazer do sexo". - Disbuga do @fatineoliveira (Twitter)

#sermulhercomdeficiênciaé ter que ouvir constantemente que meu companheiro é um anjo por estar com "alguém como eu". Comentários como esse fazem com que MUUUITAS mulheres com deficiência permaneçam em relacionamentos abusivos, afinal ninguém irá querer ficar com alguém "como nós".; e

#sermulhercomdeficiênciaé ter que ouvir que meu companheiro seria uma ótima mãe, como se minha pequena não tivesse uma. O fato de ele também cuidar dela, ao invés de ser entendido como natural do papel de pai, é entendido como a minha incapacidade de exercer a maternidade. - Vitória Bernardes (Facebook)  

#sermulhercomdeficiênciaé as pessoas não acreditarem que você pode sim ser lgbt porque uma coisa não tem nada a ver com a outra.; e

#sermulhercomdeficiênciaé acharem que você quer achar ou ter uma cura pro que você tem, sendo que você só quer viver em PAZ e ter seus direitos garantidos. - Xu do @mrsjulli (Twitter)

#sermulhercomdeficiênciaé ser capaz de ver. Sou mulher com uma deficiência do invisível, onde nem tudo que você ver é que o eu sinto. Sou mulher, sou forte, determinada, tenho voz ativa, sou dona de uma doença que muda minhas possibilidades + que nunca será capaz de modificar minha essência que sempre permanecerá integra. - Juliana Menezes Rodrigues (Facebook) 

#sermulhercomdeficiênciaé ter pessoas estranhas na rua te tocando sem pedir permissão, te culpar por ser pcd porque segundo ela vc não acredita em Deus, te falar que vc não é inteira, te falar que tem pena de vc. - Ma do @all_THAT_you (Twitter)

#sermulhercomdeficiênciaé ser mais que olhos que não enxergam, ouvidos que não ouvem, pernas e corpos imóveis, mentes e intelectos que sofrem. É ser desejos, sonhos, vontades, lutas e vidas cotidianas, nem belas, nem feras, nem super nem maiores, nem menores que as demais. É ser mulher como as demais, às vezes amada, às vezes amante, às vezes mãe, às vezes filha, as vezes trabalhadora, as vezes não. É podermos sempre mais do que pensamos, merecermos sempre mais do que muitas vezes recebemos. - Gislana  Monte Vale/Profa Mestre em Avaliação de Políticas Públicas (Citação retirada da fanpage do Movimento Brasileiro de Mulheres Cegas e Com Baixa Visão

#sermulhercomdeficiênciaé ter consciência de que a feminilidade, iniciativa, força e sensualidade, COMBINAM SIM com órteses e próteses. - Tati Oliveira do @Tati151077 (Twitter)

#sermulhercomdeficiênciaé ser duplamente desacreditada pelo mercado trabalhista, que além de misógino te enxerga como uma "cota" a ser preenchida na empresa, fazendo qualquer coisa que não seja valorizar seu trabalho e te tratar com a competência merecida. - tic tic nervoso do @bengalasazuis (Twitter)

#sermulhercomdeficiênciaé ouvir: “tão bonita na cadeira de rodas.”, “tão nova na cadeira."; "você pode ser mãe?”; “nossa que legal, você namora.”; “você é um exemplo de… - Vanessa Pimentel Batistelli do @pimentelvanessa (Twiiter)

Bom, embora estes quinze tweets não expressem totalmente a realidade da experiência feminina em um corpo com limitações (congênitas ou adquiridas), eles mostram de uma forma peremptória que às dificuldades do ser mulher na nossa sociedade somam-se, obviamente, os perrengues e as vicissitudes trazidos pela "deficiência"; que além do fato de termos de driblar os preconceitos trazidos por uma cultura machista e misógina, temos ainda de superar os limites estruturais e conscienciais de uma sociedade que ainda engatinha nos quesitos inclusão, acessibilidade e, principalmente, respeito à diversidade. Em concordância com todas estas mulheres, autoras dos trechos citados, e levando em conta pelo menos 18 dos meus 33 anos de vida, eu posso também me juntar a elas e dizer que ser mulher com deficiência é, embora não pareça, uma das experiências mais exigentes desse mundo.

Para quem chegou ao ponto de ter que "escolher" entre continuar vivendo de relações cortadas com o próprio corpo, negando assim todas as exigências físicas que a idade adulta traz, ou fazer as pazes consigo mesma, aceitar a própria condição de PCD para então tentar conseguir ser feliz, eu posso dizer - sem nenhum receio de estar caindo no vitimismo - que ser mulher com deficiência não é nada fácil; é,  por exemplo, ter de aprender tocar o foda-se (palavrão que o Brayan adora! hahaha) para todos os não's que a gente escuta e acaba internalizando desde a infância; é, muitas vezes, precisar bater o pé no chão para simplesmente dizer "não quero", "não vou", "não precisa", e isso simplesmente porque para uma única fala da nossa parte geralmente não é dada a devida importância. Ser mulher com deficiência é, por muito tempo, mais do que o desejado por nós, ter de viver apenas como uma menina ou, no máximo, como uma garotinha madura da qual não se espera nada além de um exemplo de força, bondade e superação.

Enfim, eu poderia passar dias escrevendo e alongando este post que já está excessivamente longo, simplesmente refletindo e desabafando - porque, acreditem, este texto também é um desabafo - sobre como é ser uma mulher com deficiência. Mas, para não torrar a paciência e exigir excessiva generosidade da parte de vocês que nos acompanham aqui no True Love, vou tentar resumir toda a minha vivência como uma Mulher PCD dizendo, talvez acima de tudo o que citei, que ser mulher com deficiência no mundo, hoje, ainda é ter de forçosamente buscar, todos os dias e antes de qualquer coisa, conhecermos, aceitarmos e amarmos a nós mesmas se desejarmos e quisermos ser realmente felizes.

segunda-feira, 11 de março de 2019

Verdades Sejam Ditas

Nós

A Thayama Matos, que já foi nossa convidada no #AssimComoVocê, abordou recentemente uma pauta interessante. Ela fala sobre as verdades que nunca foram contadas sobre os relacionamentos amorosos de pessoas com deficiência. O texto me inspirou a também escrever um pouco sobre o assunto, especificamente sobre meu namoro com a Malu, que, a bem dizer, já é praticamente um casamento, considerando que moramos juntos há quase três anos. Imagino que muitas pessoas que nos conhecem não creem que fazemos algumas coisas; talvez até nos enxerguem como um casal perfeito, o que estamos bem longe de ser. A seguir, algumas verdades sobre o casal Brayan e Malu.

Um dos detalhes que pode surpreender é que ela e eu discutimos ocasionalmente. Temos nossas divergências sobre alguns assuntos e às vezes lidar com isso não é fácil. Ambos temos o gênio forte e somos grandes defensores de nossas crenças, então fazemos realmente um esforço para não permitirmos que nossas ideias sejam maiores do que o amor que sentimos um pelo outro. Já aconteceu de discutirmos sobre dado tema e eu mesmo reconhecer que meu ponto de vista não era o melhor. Porém, isso só foi possível porque eu ouvi a Malu, entendi o que ela disse e percebi que fazia sentido. Renunciei à satisfação do meu ego para aceitar a opinião diferente e a própria Malu já reconheceu erros também. Nós dois acabamos tirando valiosa lição disso: podemos e devemos dialogar, sempre.

Aliás, se tem uma coisa que fazemos muito é conversar. Quando nos desentendemos, geralmente precisamos nos dar um tempo para esfriar a cabeça. Tiramos meia hora, uma hora, para nos distrairmos com alguma coisa (já tiramos até uma noite). Depois, com mais tranquilidade, um de nós toma a iniciativa de chamar o outro para “ter uma DR”. E então esclarecemos tudo; se eu agi de alguma forma que não foi legal, a Malu me fala sobre como se sentiu diante do fato; se foi ela quem escorregou, eu ponho as cartas na mesa e digo como me atingiu. Adotamos a regra do jogo limpo para que jamais coloquemos qualquer coisa debaixo do tapete; se há um problema, falamos a respeito e resolvemos da melhor forma. Aprendi que pedir desculpas não é tão difícil e que posso relevar eventuais faltas. E nós seguimos em frente. Detalhe importante é que lavamos a nossa roupa suja na privacidade do nosso quarto; nada de espetáculos públicos. Admito que já pequei nesse ponto, já quis me estressar com a Malu na frente de outras pessoas, mas me propus a não repetir o erro.

E, bem, por mais incrível que possa soar a algumas pessoas, Malu e eu temos intimidades, como todo casal. Será que alguém supõe, ou supunha, que nosso namoro é coisa só de beijo no rosto e de segurar as mãos? Longe de dar qualquer detalhe, mas nossas limitações físicas não nos impedem de demonstrarmos nossos sentimentos e, nesse quesito, estamos muito bem, obrigado. Não sinto falta de nada e me dedico da melhor forma para que a baixinha fique sempre à vontade comigo. Sobre ela em especial, posso dizer que é uma mulher completa e satisfeita. Nos conhecemos bastante, valorizamos muito o nosso tesouro particular. E como é bom... Há um certo tabu sobre pessoas com deficiência fazerem sexo; é como se, apenas por terem uma limitação, elas não tivessem o direito de exprimirem seus desejos e terem prazer. Grande tolice. Ora, o dito “relaxa e goza” também vale para nós!

Essa pequena lista de verdades sobre nós pode parecer óbvia para quem é despido de preconceitos e nos enxerga como as pessoas normais que somos. A verdade definitiva é que não há nada de extraordinário no relacionamento amoroso de uma pessoa ou de um casal com deficiência. O sentimento não está nos membros que faltam ou que têm menos capacidades. Se há, de fato, limitações que podem impedir que um deficiente ou mesmo um “normal” se relacione, elas são os sentimentos de autopiedade e de vitimismo. Ontem mesmo eu conversava com a Malu e dizia que, se um dia terminarmos, nunca mais vou me envolver a sério com alguém, por melhor que seja a pessoa. Preciso fazer a autocrítica; reconheço que um dos motivos para esse meu pensamento é que eu não acredito que eu fosse interessar a outra mulher, devido às minhas dificuldades. Por isso eu evitaria frustrações e seguiria o meu rumo. Eis aí um dos muitos defeitos que preciso trabalhar, a falta de amor próprio. Porque, objetivamente falando, nada impediria que eu, ou a Malu, encontrássemos outras pessoas. E, não duvidem, tem deficiente pegador por aí.

O que realmente importa é que as pessoas, deficientes ou não, se aproximem por afinidade e se dediquem a fazer o melhor que puderem. Não existe receita de bolo; relacionamento é algo muito complexo, justamente porque representa a união de dois sujeitos que são, em si, universos particulares. Graças a Deus, Malu e eu nos encontramos e temos vivido uma experiência maravilhosa juntos. Como alguém que encontrou a tampa da sua panela, digo que o amor pode acontecer quando nos abrimos e permitimos que alguém se aproxime. Mas o primeiro passo é gostar de si mesmo, porque ninguém dá o que não tem.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Temos Poder!

Resistência 

Eu sei que o cenário está assustador. As mídias de rádio e televisão, a internet, e mesmo o que testemunhamos no dia a dia não mais nos permitem achar que a sociedade nos oferece um lugar seguro. Hoje, por exemplo, uma das primeiras notícias que me apareceram em mais de uma rede social foi a da mulher que teve 80% do corpo queimado pelo próprio namorado. Depois, não bastasse a história desse acontecimento criminoso e trágico, li a funesta estatística: só em 2019, e aqui lembrem que estamos ainda em meados de março, 130 mulheres morreram vítimas de feminicídio. Dizer que tudo isso é triste se torna um eufemismo gigante. 

Infelizmente, a verdade é que à medida em que a gente cresce fisicamente e que a maturidade vai tomando o lugar da natural ingenuidade infantil em nossos corações, o mundo que antes nos parecia um parque de diversões a ser descoberto, hoje nos chega aos olhos como um lugar completamente inseguro. Um ambiente que quase sempre nos obriga a ficarmos num estado de alerta, prontas para o combate ou a fuga. Sim, meninas, garotas, mulheres... O contexto social, e isso em 99,9% do mundo, há muito tem sido um tanto carrasco com o gênero feminino.

Não precisamos ir longe. Muitas vezes é dentro da nossa própria casa, junto à nossa família, que o desrespeito à nossa figura e ao nosso corpo se faz presente. Tal afirmação não tem nada de vitimista, pelo contrário. Por se tratar de uma realidade histórica o fato de nós, mulheres, termos sido subjugadas, vendidas, violentadas, marginalizadas, é que é estarrecedor perceber que, ainda hoje, o quadro de violência - seja esta psicológica, emocional ou física - a que somos submetidas permanece praticamente igual ao de séculos atrás. E é neste ponto, a partir desta constatação, que uma reflexão urgente deve ser feita: O que podemos fazer para esta cultura da desvalorização feminina mudar?

Como não podia ser diferente, gente, penso que muito do poder para realizar tal façanha, digo, para demolir a base do pensamento que legitima a violência contra a mulher está, justamente, na mão da própria mulher. Afinal, como seres humanos, e essencialmente espíritos dotados do livre arbítrio, todos os dias a gente tem a chance de acordar e mudar o rumo das nossas histórias. E nós mulheres, apesar de tudo, também temos conosco a possibilidade de fazer o mesmo, o poder de contribuir e muito para a transformação do mundo. Sim, a gente tem sempre, e observem o que estou dizendo, nós temos indubitavelmente pelo menos três opções de escolha nas mãos:

A primeira: seguirmos o caminho que parece ser o da maioria, o da concordância e aceitação dos preconceitos diversos. Mulher não pode isso, garotas não podem aquilo. Quando escolhemos esta opção nos tornamos exatamente o nosso primeiro e principal algoz.

A segunda: pegarmos a rota do comodismo, aceitando, ainda que inconformadas, a situação de aparente caos em que todos estão mergulhados, nos deixando levar pelo sentimento cômodo de impotência que nos leva a pensar que nada pode ser feito. Será mesmo assim?

A terceira, e a escolha que eu faço todos os dias: a gente pode revolucionar e assumir o papel de autoras da nossa própria história. 

Sim, garotas, mesmo que esse conhecimento nos tenha sido negado ao longo do tempo, nós - meninas e mulheres - somos tão protagonistas no palco do mundo quanto os meninos e homens. A gente pode, ou melhor, nós devemos sim levantar a cabeça e a voz diante de cada "não" nascido dos preconceitos arcaicos. Ah, quão lindo é o poder que temos nas mãos! Abandonemos a síndrome da princesa que precisa ser salva e salvemos a nós mesmas, percebendo que a mudança do cenário aterrador que vivemos atualmente também - ou, principalmente - passa, repito, pelas nossas mãos. Mais do que a possibilidade de gerarmos vidas, a gente tem o poder de reconstruir consciências pela Educação; utilizemo-lo e, com ele, construamos um mundo novo! 

Nenhuma solta a mão de nenhuma!

segunda-feira, 4 de março de 2019

Dois Velhinhos

Apenas bebidas leves

Nós dois parecemos um casal de velhinhos. E isso não apenas pelo fato de termos, aqui na prateleira, diversos tipos de comprimidos de uso diário; refiro-me ao nosso estilo de vida mais “sossegado”. Malu e eu não somos fãs de muito agito e costumamos deitar cedo, ali pelas 22hs. Nesse particular, a própria Nina já começa a se aninhar pelas nove e meia, e tem vezes em que ela fica pedindo para irmos para a cama, porque quer dormir emboladinha entre nós. A pequena e eu também preferimos assistir um bom filme na tranquilidade do nosso quarto enquanto o pessoal vai para a praia ou visita uma cachoeira. Isso, é claro, se trata de uma opção nossa; de vez em quando abrimos exceções e fazemos algum programa diferente. Em geral, saímos uma ou duas vezes por semana, no máximo, para comer (obviamente) e também quando vamos ao centro espírita. A propósito, ontem mesmo a Malu soltou que “se é pra sair, que seja pra comer, senão não tem graça”. Ela é taurina, creio que esse detalhe dispense maiores explicações.
Fico pensando se estamos, de fato, mais velhos. De espírito. Há pouco conversava com a Nara, irmã da Malu, sobre as bebidas que já não suportamos mais. Fiquei surpreso quando ela contou que também não pode mais nem ver whisky na frente. No meu caso, graças ao maior porre que já tomei nessa vida, aos dezessete anos, em uma “janta” da faculdade, aboli o destilado da minha lista de preferências. Agora sou mais uma cerveja gelada (se for malzbier, melhor ainda), um vinho ou no máximo uma caipirinha. Deixo a vodka e o energético para a garotada. Quanto à Maria Luiza, bem... No nosso passeio de ontem, ela tomou pela primeira vez uma garrafinha inteira de Ice. Ficou molinha e, até hoje cedo, ainda estava com sono e a cabeça cansada. “Ressaca de Ice” debochei, e ela teve de concordar. Disse (e acaba de repetir) que nunca mais bebe.
Mas, voltando à questão do nosso envelhecimento de espírito, fico pensando que todos passamos por essa fase de transição na vida. Aquele momento em que pensamos “poxa, eu já não tenho mais pique pra essas coisas”. Não faz muito que estávamos na cidade vizinha, sentados em uma mesa na calçada e esperando nossa comida (se é pra sair, que seja pra comer!), quando vi passar um grupo de jovens, uns três rapazes e umas quatro ou cinco meninas. Fiquei horrorizado com meu pensamento naquele instante: “É, estou ficando velho. Olho pra essa meninada e me sinto um coroa”. Com 27 anos! Segundo Malu, existe uma tal de “crise dos 27”, pode ser o caso. Sei que me lembrei dos meus dezoito anos como se eu os tivesse completado há um século atrás. A mesma sensação me vem quando levanto da cama pela manhã e sinto as costas doerem. Vinte e sete no RG, oitenta na coluna, santo Deus.
Ao pensar sobre tudo isso, me recordo da conversa que tivemos ontem à noite. Deitamos às 21hs, porque Malu estava só o bagaço (kkkkkk ela não ficou bêbada, só de sono); brincadeira, foi pelo cansaço dos dois e também porque eu adoro ficar agarradinho com ela, papeando e alisando aquela barriguinha tão gostosa (sei que ela vai ficar envergonhada). Aliás, sim, nos cansamos de um passeio de uma tarde, somos velhinhos, lembram? Pois bem, a certa altura, entre lembranças de outros tempos, meus e dela, chegamos à conclusão de que temos, também, uma fase “abestada”. Nós, e mesmo vocês que estão lendo, certamente já passaram, ou podem estar passando agora, pela época dos sonhos sem limites, das expectativas astronômicas, dos hormônios explodindo, da sensação de que se pode tudo. Não se ofendam pelo “abestada”, por favor; quero dizer que não temos, nessa época, a noção exata sobre muitas coisas. E isso pode acontecer aos dezoito ou mesmo aos quarenta, dependendo da pessoa e das suas experiências. Minha mãe sempre diz que a dor ensina a gemer, e alguns de nós aprendemos mais cedo, outros nem tanto.
Dizia eu para a Malu sobre o quanto já criei cenários fantásticos na minha cabeça. A ponto de passar uma virada de ano na maior das expectativas sobre uma guria com quem conversei umas três vezes; na semana seguinte, vi no Orkut (ainda!) que ela tinha começado a namorar outro cara, mesmo falando comigo e dando aberturas. Foi só mais uma das diversas vezes em que me lasquei no campo afetivo. Mas a culpa foi minha, porque esperei demais de alguém que eu sequer conhecia. Um erro que, atualmente, já não cometo mais; isso porque envelheci. Envelhecemos ambos, Malu e eu. Se, por um lado, ela ainda mantém (e espero que mantenha sempre) o coração tão sentimental e as emoções tão intensas, por outro sei que ela já aprendeu muito e amadureceu de uma forma que me faz ainda mais apaixonado a cada dia.
Amadurecimento, eis a melhor expressão. Acontece quando você percebe o que te faz bem e o que pode te prejudicar. Uma questão de experiência, erros e acertos. E é onde quero chegar: Malu e eu nos damos tão bem e vivemos uma vida de casal tão completa porque já fomos imaturos, “abestados” no passado. Se não tivéssemos quebrado a cara algumas (ou muitas) vezes, nos mais diversos quesitos, suponho que nem teríamos chegado a nos conhecer. É provável que ainda estivéssemos acalentando sonhos irrealizáveis. O que vivemos serviu para refinar nossos gostos e, graças a isso, nós somos “velhinhos” felizes que se sentem completos pela companhia um do outro.


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Se Nos Compararmos Uns Com Os Outros, Esqueceremos O Principal


Filhos de Deus
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Antes de ontem minha irmã n° 2, a Luzi, companheira de traquinagens na infância e minha defensora master contra o bullying no colégio ou onde quer que ele se fizesse, usou a palavra dura para dizer, imagino, que eu consigo lidar relativamente bem com as dificuldades que a deficiência física me traz. A gente conversava sobre depressão e coisas afins quando, de repente, ela me soltou aquela e eu fiquei pensando até que ponto isso é verdade, e se é verdade.

Tá, tudo bem que na semana passada eu escrevi sobre o fato do meu pai ser grato por eu não ter crescido uma pessoa revoltada. Não cresci. Mas, a pergunta que me faço neste post e em muitos momentos complicados, quando o bicho querendo pegar, é: "esse jeito de lidar com as minhas limitações é realmente digno de nota ou não é nada mais que o meu dever, a minha obrigação?"

Vejam... Nasci com má formação física na coluna e nos membros, sim, e esse quadro trouxe e ainda traz algumas complicações, claro. Mas, e sempre existe um mas, contrabalançando as dificuldades que a Síndrome de Escobar me trouxe, graças a Deus minha vida sempre foi e continua sendo repleta de fatos que só me fazem parar e agradecer, porque, afinal, não fossem eles, eu reconheço que tudo poderia ter sido e estar sendo bem pior; e isso a começar pela minha infância.

Como descrevi no primeiro parágrafo e em outros posts aqui no blog, tal qual a maioria das pessoas com deficiência ou aquelas que fazem parte de grupos que compõem minorias e/ou não se encaixam nos padrões normatizados pela sociedade, eu vivenciei a experiência do bullying tanto na infância quanto no início da adolescência. E o que posso dizer a respeito desse período se resume em apenas duas frases: Ele deixou marcas profundas. Ele me mostrou que apesar de qualquer dificuldade, eu nunca estive sozinha.

E é justamente sobre o nunca ter estado ou estar sozinha que quero agora falar. Ainda pegando o gancho do auto-questionamento que fiz no segundo parágrafo, teria eu realmente motivos para ser revoltada quando nunca me faltaram amparo, cuidado e proteção? Mesmo tendo pessoas que fizeram e fazem de tudo para me ver bem, a deficiência física me autorizaria a alimentar inconformismos variados? Eu, particularmente, e levando em conta o MEU CONTEXTO PESSOAL, penso que não.

E ao pensar desse modo, quero deixar claro que falo exclusivamente de mim. Não tenho como, e nem quero tecer comentários ou fixar regras de conduta sobre e para a vida de ninguém. Até porque eu só sei sobre o que vivo e só sinto o aperto do sapato que eu calço. Isso por si já tira o direito de definir como deve ser o pisar ou o andar de quem quer que seja. Aliás, quem de nós pode, com autoridade moral, dizer que aquilo que o outro vive e sente é errado e/ou injustificável?

Brayan comentou no seu mais recente post aqui no blog sobre o que ele chamou de sua última crise. Não vou entrar nos pormenores do assunto porque ele já contou o bastante, mas preciso deixar claro algo muito importante: o fato de nós dois lidarmos de forma um tanto diferente com a experiência semelhante que vivenciamos - a deficiência física - não faz com um de nós seja melhor ou mais evoluído que o outro. Jamais. Como ele mesmo escreveu há algum tempo aqui no True Love, nós somos, e isso com certeza, farinha do mesmo saco. E tal fato nem poderia ser diferente...

A verdade é que eu acredito firmemente que o Grandão e eu não nos encontramos por acaso. Nós dois temos nossas necessidades de aprendizado e, percebemos, a cada dia com a nossa convivência, que elas se complementam. Por exemplo, se por acaso a minha aceitação ajuda o Grandão a ver a deficiência com outros olhos, é com o coração gigante dele, e com a sua facilidade para reconhecer seus erros e pedir desculpas que eu tenho, bem perto, um exemplo de humildade e a melhor oportunidade para, por minha vez, aprender a dominar o melindre e o orgulho. Percebem que formamos uma equipe?!

Voltando, todavia, às palavras da minha irmã no início do post, eu não sei se sou dura como ela disse. O que eu sei é que tendo a família, os amigos e o Brayan na minha vida, eu só sinto que não devo ser mole. Mas, novamente, este sentir está intimamente ligado à MINHA vida e às MINHAS experiências; o que, portanto, desqualifica qualquer comparação. Dessa forma, encerrando as reflexões deste post, acho oportuno salientar que melhor e mais saudável que todo julgamento neste sentido, é lembrar que somos seres únicos, filhos e amados de Deus. Isso sim deve ser sempre digno de nota. De resto, tenhamos em mente que somos todos aprendizes num caminho que é sempre de evolução.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

O Homem com Deficiência - Um Desabafo

Tudo passa

Eu escrevo muito melhor quando traduzo os meus sentimentos em palavras. Não gosto de ter de pensar muito para colocar algo no papel; meu método, digamos assim, é sentir e transmitir, e então tudo flui com espantosa tranquilidade. Leio sempre muitos comentários elogiosos e talvez isso signifique que muitos de vocês, leitores, vejam Malu e eu como pessoas sempre otimistas, equilibradas. De fato, quem acessa o True Love costuma ler sobre amor e motivação, sobre como as nossas deficiências não nos impedem de viver as coisas, sobre como enfrentamos os desafios que surgem. Acontece que não é tão fácil, blogueiro também é gente e tem suas broncas. Há os dias difíceis e hoje eu vou contar um pouco sobre minha última “crise”, que se arrastou de ontem para cá e que só há pouco debelei, com o apoio inestimável da Malu.

Ter o que se chama de uma “deficiência” não é legal. Além das inúmeras limitações que são possíveis de ocorrer, nos mais variados graus e quesitos, há também todo o estigma social e que igualmente se manifesta de “n” formas. É comum que o deficiente seja visto como alguém incompleto, por vezes digno de pena. Eu poderia elencar aqui, também, os problemas de acessibilidade que sempre experimentamos em vários lugares, assim como o bullying que muitas pessoas nessa condição sofrem desde cedo. Em suma, o “pacote” da deficiência inclui muito mais do que capacidades físicas ou mentais restringidas. Nós experimentamos o mundo de uma forma muito específica, o que está longe de ser uma coisa excitante.

Isso soará provavelmente hipócrita vindo de alguém, em certa medida, excluído da sociedade. Mas eu carrego comigo alguns preconceitos, e um deles me diz que é mais “aceitável” para a mulher ter deficiência do que para o homem. Quero dizer, nós, homens, historicamente fomos feitos para o trabalho, para carregar peso, para fazer força, caçar, lutar, enfim. O indivíduo masculino, desde os primórdios, representa poder e desempenha tarefas variadas. Evidente que as mulheres também têm toda capacidade para fazer qualquer coisa, mas quero manter o foco nessa questão, de que o homem é feito para agir. Agora, pensem sob o ponto de vista da deficiência, no caso, física, e pensem comigo. Como um homem deve se sentir, sabendo que seu corpo não permite que ele faça tudo aquilo que deveria ser capaz de fazer? Que tipo de sentimento cultiva ao saber que lhe faltam força, ou mobilidade, e que, por isso, não poderá ser o provedor ou o protetor que, em tese, deveria ser? De minha parte, essas constatações me levam a estar sempre em intensa luta contra a revolta e contra a depressão.

Frequentemente, quase que todas as noites, eu sonho que estou brigando com alguém. Eu luto, disparo armas de fogo e corro atrás de muita gente. Há sonhos em que sinto verdadeira raiva e descarrego com tudo o que posso. Costumo acordar exausto, simplesmente não relaxo. Minha teoria é de que faço dormindo tudo aquilo que gostaria de fazer acordado, mas não posso. É como se a minha mente usasse os sonhos como válvula de escape para toda a raiva e frustração que mantenho acumuladas dentro de mim. Porque, salvo nos momentos em que me irrito muito e dou um soco na mesa, como quando perco estupidamente no xadrez, eu não boto pra fora o que sinto. E isso pode implodir uma pessoa.

Respondendo, então, àquelas perguntas que fiz no terceiro parágrafo, eu, Brayan, digo a vocês que me sinto um lixo quando penso que não posso correr, nem lutar, nem demonstrar força física. Eu gostaria de me arriscar, de sentir a adrenalina pulsando nas minhas veias; se pudesse, talvez teria entrado para a polícia, ou faria esportes radicais, não sei. Mas eu sinto uma falta gigantesca de viver. É uma verdadeira fome que não tenho conseguido saciar e que me irrita e deprime se penso demais. Daí as “crises” ocasionais, quando minha já limitada fé é testada. Nesses momentos costumo achar a vida injusta; acho minha própria existência uma merda e sinto que poderia explodir tudo se tivesse o poder para tanto. O palavrão que eu acabo de usar é um eufemismo perto de todos os impropérios que tenho vontade de pronunciar quando me sinto assim, um prisioneiro em um corpo limitado; um fraco que nem consegue se defender sozinho. Esses pensamentos e sentimentos fazem com que eu não me sinta plenamente homem. Queria ser normal, queria uma vida comum.

A crise de ontem levou Malu e eu a termos uma conversa difícil, já que eu não conseguia enxergar as coisas claramente. O motivo? É simples. Vejo outros caras dirigindo, correndo, praticando esportes, fazendo coisas de homens normais. E, enquanto isso, fico eu apenas assistindo, sabendo que não tenho condições de agir da mesma forma. Isso pode ser definido como inveja e eu não posso negar que sinto. Mas não é inveja do tipo “quero que eles também não possam fazer as coisas”; é do tipo “porra, eu também queria ser assim, também queria fazer o que fazem!”. Acabei chocando a Malu ontem quando disse que a felicidade alheia me incomoda. Eu estava com raiva e deprimido, falei uma besteira. E criei um climão que se arrastou até hoje de manhã, quando voltamos da rua e chorei feito uma criança.

Havíamos saído para levar a Nina para a tosa e também para vermos algumas coisas. Tive de ir a um lugar em que precisei subir dois degraus relativamente altos. Contei com a ajuda do Wesley, primo da Malu e subimos bem. Na hora de descer, porém, senti o pavor que me acompanha vinte e quatro horas por dia: o medo de cair. Simplesmente travei a ponto de não conseguir levantar os pés do chão. Tive que ser abraçado por trás e erguido até estar abaixo dos degraus, na calçada. Eu até dei risada, fiz graça com a situação, mas tudo o que eu queria era chorar de raiva e de tristeza, por ter perdido, de novo, para dois simples degraus. Viemos para casa e não deu outra: agarrei a Malu e chorei de cansaço, de dor na alma, de desespero. Coloquei pra fora tudo o que estava sentindo e disse a ela o quanto me sinto pequeno, limitado. Recebi o aperto maravilhoso dos braços da minha amada e ouvi dela o que precisava ouvir. Nada de passar a mão na minha cabeça; a pequena foi firme e me chamou para a realidade.

Foram muitas as coisas que a Malu me disse, mas provavelmente a que mais me impactou foi que eu mesmo posso vencer o medo e caminhar sozinho. Sempre pensei que dependeria de ajuda de outras pessoas para superar esse problema; até cogito contratar um hipnotista que me coloque na cabeça que sou um triatleta. Mas a baixinha me provocou uma epifania das boas; eu mesmo posso e preciso fazer alguma coisa para superar o medo de cair e finalmente andar sem apoios. Teoricamente eu já deveria ser capaz disso, porque fiz as cirurgias corretivas nas pernas quando era criança. Acontece que me surgiu um pavor terrível de cair e me machucar, e é esse medo infeliz que me acompanha há anos, me mantendo preso ao andador. Isso só me deixa ainda mais revoltado, porque tem gente com uma perna só, ou mesmo sem qualquer membro, que se vira e é independente, enquanto eu, com tudo corrigido na medida do possível, permaneço limitado.

Eu preciso e vou fazer alguma coisa para superar esse medo. Mas também preciso trabalhar fortemente minha raiva e minha tendência à depressão. Me sinto péssimo por invejar outros caras, por vê-los como “completos” enquanto me sinto um homem pela metade. Vencer a batalha interna é muito difícil. Creio que consegui melhorar um pouco com os estudos com a Malu e também escrevendo o blog, mas a estrada é longa e há muito a ser feito. A pequena me disse, com razão, que eu me saboto; quando estudamos, eu compreendo os porquês da vida e consigo aceitar; mas, basta um pequeno infortúnio para me despertar novamente a ira e colocar abaixo o que já tinha conseguido construir. Me irrito desproporcionalmente com as coisas, porque não sei lidar com todo meu inconformismo; logo, descarrego e me arrependo, entrando em um ciclo idiota de erro, dor na consciência, desculpas e promessa de melhora, só para depois começar tudo de novo. Preciso crescer.

Faço um esforço para não contaminar o blog com meus sentimentos negativos; mas também não posso bancar o hipócrita escrevendo textos bonitos e sendo elogiado, enquanto continuo errando. Malu sabe que procuro equilibrar os relatos que posto, entre profundidade e humor, para não cansar vocês que leem. Hoje vou deixar esse desabafo e também as minhas escusas por falar tanto de mim. Conversar com a Malu e chorar me fizeram sentir melhor. Falta aprender, entre muitas outras coisas, que ter um corpo “perfeito” não é o que faz de alguém um homem. Racionalmente entendo isto, mas a compreensão verdadeira apenas o tempo e o trabalho poderão me proporcionar.


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Sobre Uma Revelação do Meu Pai

Um dia a gente chega lá!
Semana passada entre papos aleatórios durante o café da manhã, ouvi meu pai falando para o Brayan algo que até então eu não sabia. Disse ele que é imensamente grato a Deus por eu não ter crescido revoltada; que, por muito tempo, um dos seus maiores medos quando eu era criança, foi o de que eu pudesse vir a ser uma pessoa inconformada com a vida e com a minha condição. Tal revelação me deixou surpresa e reflexiva, pois nem de longe eu supunha que meu pai tivesse esta preocupação.

De fato, tenho muitas arestas que precisam ser aparadas na minha personalidade, mas graças a Deus a revolta crônica (digamos assim) nunca foi uma delas - digo, não nesta existência. Se me perguntarem qual o meu sentimento em relação às limitações do meu corpo, posso lhes dizer, com sinceridade, que atualmente transito entre a resignação e a vontade de que fosse diferente - pelo menos em alguns aspectos. Algo do tipo "tudo bem ter as más formações físicas, mas precisava mesmo eu não ter plena liberdade de ir e vir?".

Racionalmente eu sei hoje, e graças a Deus, que precisava. E não, com isso não tô dizendo que é fácil viver cercada por limites. Não é. Mas é possível, e pode, sim, vir a ser uma vida repleta de alegrias e felicidade. Tudo bem que - como disse mais acima - em alguns momentos eu me deixe seduzir ainda pelo desejo de que muitas coisas não fossem como são; mas; passada a emoção, aceito que não dá para continuar fazendo birra feito criança mimada quando escuta um "não". Então, penso que o melhor é aceitar o que se é e seguir em frente.

"O perdão não muda o que passou, mas modifica o que poderia ser". Essa frase de Briana no último episódio da quarta temporada de Outlander (que Brayan e eu vimos ontem), não tem muito a ver com o post, mas expressa justamente a ideia que eu quero passar através dele. A revolta não mudaria o que eu sou, nem o que eu vivo, mas modificaria negativa e completamente quem eu poderia me tornar e o modo como eu poderia viver. E, sinceramente, negatividade não está nos meus planos para o futuro. Então, minha pergunta é: valeria a pena manter um coração inconformado?

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Meu Adorável Mundo Novo

Nós e a peteca

A ausência de afinidades está entre as razões pelas quais os meus relacionamentos anteriores fracassaram de maneira retumbante. De um modo geral, eu costumava procurar por alguém simplesmente para não ficar sozinho, para poder mostrar aos outros que eu também podia ter uma namorada. Sim, a satisfação do ego me movia, além dos interesses físicos, que não posso ser hipócrita de desconsiderar. Porém até nesse sentido do envolvimento corporal o foco era direcionado apenas ao meu bem estar, à minha realização. Se eu conseguisse provocar alguma sensação boa nas mulheres que conheci, só pensava que era ponto pra mim, que eu era “o cara”; a felicidade delas era um detalhe meramente acidental. Nada extraordinário para um egoísta de carteirinha.
Evidentemente que esses anos e experiências todas me fizeram amadurecer e enxergar que relacionamento é via de mão dupla. Nada, entretanto, me ensinou mais do que viver com a Malu. A sucessão dos nossos dias juntos, além de consolidar um amor verdadeiro como nunca senti antes, serviu também para mostrar os inúmeros detalhes que formam uma genuína relação. Já abordei aqui o prisma mais filosófico do assunto, a questão da complexidade do processo de conhecer alguém a fundo. Só que há o lado prático do namoro, quero dizer, as muitas coisas que se pode descobrir a dois. Nunca eu havia parado para pensar que poderia adotar novos hábitos ou mesmo aprender com minha companheira, isso porque era centrado demais no meu próprio umbigo. Então, quando Malu e eu começamos a morar juntos, vi mudar não apenas a rotina, como também muitos dos meus gostos e concepções.
Querem ver só? Logo que cheguei ao Ceará, a Malu me apresentou uma série fantástica chamada Outlander. Baseada em uma coleção de livros, trata-se de uma história sobre viagens no tempo, ação, aventuras e romance. De início, resisti mentalmente à ideia de me abrir para uma novidade, de assistir a uma ou mais temporadas de algo que eu nem sabia que existia até então. E, bem, eu já não me via sendo tão adepto de romances como era na adolescência. Mas, fiz a aposta, assisti ao primeiro episódio, e já estamos acompanhando a quarta temporada, cada vez mais entusiasmados com o enredo. Nós também vimos e vemos muitos filmes, mas o importante é que, puxa, eu descobri que posso me desligar do meu mundo particular, das coisas de que gosto, para passar um tempo com a Malu, nos divertindo e emocionando. O velho Brayan egoísta até que amoleceu bastante, a ponto de assistir a outros romances e até de chorar, sem sentir vergonha.
E não é só isso. Também descobri o quanto é especial criar um bichinho de estimação com alguém que amamos. A Nina, a nossa poodle petequinha, é como se fosse uma verdadeira filha. Para onde vamos, ela vai junto; adora passear de carro, sempre no banco da frente no meu colo, de preferência na janela. Malu e eu temos dado muito amor à bichinha e, novamente, me surpreende como pode haver “algo” além do namoro. Tirando que não gosto muito de limpar xixi (a Malu cuida do cocô), me divirto ajudando a pequena a secar a Nina depois do banhinho. Enquanto eu a seguro no colo, Malu passa o secador, o “bicho bicudo que fica soprando” e que a Nina tanto detesta. E faltou contar que essa bonita assiste filmes com a gente e presta a maior atenção. Até me assiste jogar videogame.
O próprio blog é algo que, quando solteiro, eu não teria idealizado manter com uma namorada. E vejam, o que começou como uma sugestão do seu Chico, pai da Malu, virou esse espaço tão querido onde deixamos nossas impressões e contamos para vocês a nossa maravilhosa história. Esses dias até comentei com a Malu o quanto é bom termos algo nosso; como é fantástico construir uma coisa com a minha princesa, criando em parceria. Do jeito que nós dois dedicamos tempo e energia, o blog é, também, como se fosse um filho nosso. E é uma felicidade que ele tenha crescido e alcançado tantas pessoas.
Mas o acréscimo mais especial com certeza tem sido a família da Malu. Meus sogros, Dona Marta e seu Chico, meus cunhados Jessé, Luzi e Nara, além dos tios e tias e dos primos da pequena, todas essas pessoas me acolheram de braços abertos e têm se tornado cada vez mais importantes para mim. Realmente ganhei uma segunda família e tenho muito a agradecer a eles, por todo o apoio que já me prestaram. Apesar dos defeitos, procuro ser alguém em quem eles possam confiar, porque a Malu é o tesouro mais precioso dessa casa e eu me sinto responsável por ela (o que não é nem de longe um fardo, aliás). Há alguns dias fiquei muito feliz por ouvir do seu Chico que a confiança em mim “está 100%”. Acredito que estamos no caminho certo e a tendência é que melhore, sempre.
No último post comentei sobre amigos de namorados/cônjuges, e destaquei que muitas pessoas simplesmente abandonam seus camaradas quando entram em um relacionamento. Comigo aconteceu o contrário, já que, agora, os amigos da Malu também são meus amigos. E nós nos reunimos muitas vezes, sempre com muitas risadas (e álcool de vez em quando). Não sou um cara de muitas amizades, e sempre respeitei a relação que a pequena tem com os seus amigos; jamais quis me intrometer e tomo cuidado até ao perguntar sobre alguns deles, porque não quero forçar qualquer barra. Mas é muito bacana quando se recebe o carinho de pessoas até então desconhecidas, e é uma grande alegria saber que os amigos da baixinha me cederam um espaço nos seus corações.
A minha intenção, hoje, era escrever um texto mais descontraído, para equilibrar, já que nas últimas semanas tenho desatado a filosofar sobre emoções, relacionamentos e etc.. Mas a mania de aprofundar não me deixa; eu gosto de complicar o que devia ser simples. Há pouco até perdi uma partida no xadrez por fazer um lance extravagante em vez do mais básico, que me teria dado a vitória. Na verdade, o óbvio é o que muitas vezes não se enxerga, e eu não via que um relacionamento podia ser mais do que “o Brayan e alguém para mostrar aos outros”. Parece que eu concebia um namoro como algo que se observa dentro de um tubo de ensaio, isolado da realidade exterior e sem interações. Será que eu só queria uma boneca, ou um troféu?
Felizmente não foi isso que encontrei. A Malu é uma pessoa que me mostra que a vida pode ser mais gostosa, mais diversificada. Ao lado da pequena, percebo que, ao embarcarmos em um relacionamento, estaremos, também, ingressando em todo um universo de pessoas e de coisas, que podem nos mudar para melhor. Não se trata de usurpar a família ou as amizades, mas de somar. Porque um relacionamento só vale a pena quando é para fazer bem; quando pode nos elevar pelo esquecimento de nós mesmos e pela dedicação sincera ao outro; quando, enfim, percebemos que não somos autossuficientes. O namoro entre Malu e eu tem o componente especial da coabitação, que confere à nossa relação um status quase que de casamento. O compromisso do coração nós já temos, falta apenas formalizar. Porém, hoje compreendo melhor as palavras que são ditas no altar; vocês sabem, “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença...”.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Batom Vermelho É Coisa De ...?

Vermelho, porque sim!

Lembram que comentei no post "Venenos e Antídotos" que participo de um grupo feminino no Facebook, onde a mulherada faz desabafos sobre assuntos diversos? Então, ontem zapeando por ele, dei de cara com o relato de uma garota negra questionando sobre as cores de batons que seriam mais adequadas para ela. No post ela especificava ser fã de batom vermelho (é das minhas!), mas que há muito tempo não usava essa cor porque começou a ouvir de outras mulheres que vermelho não combinava com a cor da sua pele. Lendo o relato dela, o pensamento que me ocorreu na hora foi: Como assim, gente? Agora existem regras proibindo que determinadas mulheres usem certas cores de batom? Quem as estabeleceu? E quando?

Claro que todos estes meus questionamentos tiveram, e ainda têm, apenas, um fundo retórico, gente. Afinal, eu sei que apesar dos ditames que a chamada moda configura periodicamente, não existe regra nenhuma. O que ocorre, percebo e sinto na pele, é a imposição de determinados padrões que, se não seguidos, terminam por marginalizar, excluir ou, no minimo, constranger quem neles não se encaixa. Sei que para muita gente pode soar como mimimi o que eu acabei de escrever sobre a exclusão das pessoas que se encontram fora do padrão, mas se por um momento nós pararmos para pensar, acabaremos por perceber que a questão é seria e merece uma profunda reflexão.

Vejam... A moça que citei no início do post ficou tão constrangida com os comentários que ouviu sobre a cor da sua pele e o vermelho do batom, que deixou de usar e fazer o que gosta, parou de fazer o que lhe deixava feliz e satisfeita consigo mesma. Como ela, quantas outras pessoas estão fazendo diariamente o mesmo por aí?

Lembro que, quando eu recém entrava na adolescência, por volta dos meus 12 ou 13 anos, eu adorava me maquiar, e por isso estabeleci uma espécie de rotina diária. Eu acordava, tomava café, fazia os deveres da escola e quando terminava ia para o quarto da minha mãe. Lá, ela tinha um guarda roupa enorme, com uma penteadeira de espelho entre as 4 portas. Tinha também um banquinho com o assento almofadado. E, nossa, como eu amava tudo aquilo! Todos os dias eu fazia o mesmo ritual: sentava no banquinho, escovava meu cabelo - que na época era enorme -, passava pó, blush, sombra, usava máscara de cílios, lápis de olho e caprichava no batom, de preferência qualquer um dos mais escuros que ela guardava na gaveta.

Naquela época eu me sentia linda! Quando terminava de me maquiar, ficava admirando meu reflexo no espelho e fazendo caras e bocas... hahaha Não havia neuras e nenhum complexo. Baixa auto estima? Nem preciso dizer que eu desconhecia não só este termo, quanto o sentimento que ele representa, né?! Tanto, que muitas vezes, quando terminava o meu ritual de beleza diário, eu saia toda serelepe pela casa, sacudindo o cabelão e me sentindo uma das mulheres mais lindas do mundo! rs E se eu contar como me arrumava para ir à escola? Sério, gente, houve um tempo em que uma sombra de olho prateada e um batom preto me eram tão ou mais importantes quanto o material que eu levava para o colégio. Sem contar o rabo de cavalo no cabelo, afinal, moro no Ceará, e passar calor na escola por causa das madeixas soltas estava fora de questão.

Mas... o tempo foi passando, e com ele, a Luizinha que se sentia igual a todas as meninas da sua idade começou a perceber que esse "igual" não era tão igual assim. Comecei a notar que o virar as páginas do calendário modificava o corpo e a vida das minhas amigas, mas na minha não fazia diferença nenhuma. E foi a partir do fortalecimento desta percepção inevitável que comecei a perder o gosto pelo mundo das makes. Do meio para o fim do ensino médio eu já não fazia mais questão da sombra prateada no olho, e o batom preto foi substituído por um de cor mais suave, discreta - quase sempre um rosa ou de um tom de pele acobreado. E, quando comecei na faculdade em Sobral, muitas vezes só o perfume ou um gloss labial rosadinho me bastava.

"Tudo bem, Malu, mas o que o teu desleixo tem a ver com a moça citada no início do post e os padrões que você mencionou antes?" - vocês podem estar se perguntando. E, para quem estiver questionando isso, eu respondo: tudo, my dear! Acreditem vocês ou não, mas, em algum infeliz momento da história do mundo se estabeleceu na sociedade o pensamento de que vaidade não combina com deficiência; e, assim sendo, se uma mulher com deficiência estiver vestida, calçada e perfumada, já está de bom tamanho, basta. Para quê maquiagem estilosa? Não há necessidade... Assim como também ela não precisa de outros cuidados a que só as mulheres sem deficiência fazem jus. Esse pensamento é tão natural, e tem tanta força que, pasmem, até mesmo muitas de nós - mulheres com deficiência - acabamos por assimilar. O que é muito triste.

Penso que toda pessoa deveria se sentir livre para se apresentar da maneira que lhe convir, que lhe fizer sentir-se bem.  Negra, alta, baixa, "gorda", "magra", com deficiência, sem deficiência, não importa; o que importa é que ninguém deveria se sentir tolhido no seus gostos particulares. Será este um pensamento tão utópico ou exigente assim?

Poxa vida! A guria lá do grupo no Facebook ama batom vermelho mas está com vergonha de usar porque alguém se achou no direito de dizer-lhe que a cor da sua pele não combina com ele. Até bem pouco tempo atrás eu também, louca pela mesma cor, não usava um batom com ela, porque, além de ter assimilado o preconceito estapafúrdio de que boca vermelha era coisa de pųt@, dei guarida à ideia de que vermelho era uma cor adulta demais para uma pessoa na minha condição. Conseguem perceber nesta frase que nem mulher eu me sentia?

Pode parecer desnecessário para alguns, engraçado para outros, mas o fato é que mesmo as pessoas que não se encaixam no padrão de estética e beleza definido pela sociedade também têm seus gostos e suas vaidades. Puxando a sardinha para o meu lado, nós, mulheres com deficiência, também queremos e mesmo precisamos nos sentir bonitas, seguras a respeito da nossa aparência. E, sim, tal  segurança pode vir através de um batom vermelho, de uma roupa mais ousada, de um corte de cabelo original, de um decote, enfim...  O que vale e realmente importa - ou deveria importar - é o nosso bem-estar, é o fato da gente se sentir feliz com a gente mesmo. Creio que este sentimento, preconceito ou padrão nenhum deveria nos tirar.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

O Amor Preserva Laços


Pôr-do-sol do paraíso, com ela
Temos todos os nossos “calcanhares de Aquiles” para administrar. Hoje, especialmente, estou batalhando contra a tendência da revolta, por saber da morte trágica do Ricardo Boechat. É verdade que, ao saber do fato, proferi alguns comentários desairosos, não por maldade, mas porque preciso enxergar a lógica das coisas. E ver partir, tão cedo, um cara tão bacana, me entristece o coração. Que Deus acolha a alma deste homem, e que a luz guie os seus passos no caminho da Eternidade. Enquanto isso, seguimos por aqui, na luta para melhorar; eu, muito atarefado, controlando e direcionando minhas emoções, porém imensamente grato por compartilhar cada dia com a Malu.
A pequena que, aliás, também tem os seus calos, nos quais tomo o máximo cuidado para não pisar. Uma das guerras internas que a Malu trava quase que diariamente é com sua tendência ao melindre, ao ressentimento. Falo disso com certa liberdade e a baixinha mesma sabe que respeito seus limites como posso. Justamente por conhecê-la tão bem e por não querer, jamais, fazer algo que a atinja de qualquer forma, é que fiquei surpreso pela simpatia que Malu passou a nutrir pela Mariane, a única das minhas ex-namoradas da qual não posso dizer algo de ruim. Malu conhece o meu passado e sempre deixou claro que ficaria contente se eu pudesse ficar de bem com a Mariane, mesmo depois do nosso término infeliz. Imaginem vocês, agora, o tamanho da minha surpresa quando a própria Malu sugeriu que entrássemos em contato com ela. Após eu superar o espanto e considerar detidamente a possibilidade, percebi que não haveria mal, já que foi a Malu quem teve a ideia. Topei, e a pequena escreveu para a Mariane.
Confesso que não achei que ela fosse responder, mas depois de alguns dias veio o retorno. E, pasmem: a) ao contrário do que eu supunha, a Mariane não tem raiva e nem mágoa de mim; e b) Malu e ela estão iniciando uma amizade virtual. É, não estamos falando de uma situação comum, afinal é a minha mulher mantendo contato com a minha ex-namorada, e ambas se dando bem (!). Eu realmente estou tranquilo sobre isso e estimulo essa interação entre elas, porque as conheço e sei como têm traços semelhantes, como podem ser realmente amigas. Provavelmente a Malu ainda falará a respeito e eu não vou roubar a pauta; contei a boa nova porque serve como introdução ao ponto de hoje.
Alguns (ou muitos) relacionamentos mudam as pessoas, e não necessariamente para melhor. Quero dizer, há quem comece, por exemplo, a namorar, e se esqueça dos amigos que tem. De repente a criatura já não fala mais com seus camaradas, não faz mais programas com eles; tem gente que chega mesmo a virar a cara para quem conhece há tempos, só porque o (a) namorado (a) ou cônjuge não simpatiza. Isso, além de um completo absurdo, é prova de que não se ama o outro. Porque, se amasse de verdade, quereria o bem do (a) companheiro (a), desejaria a manutenção dos vínculos já existentes e que tornam a vida mais bela de se viver. Franco egoísmo controlar alguém a esse ponto. Mas acontece.
Felizmente a Malu nunca foi esse tipo de namorada. Ela até já me encorajou a fazer novas amizades e chegou a sugerir que eu saísse com os amigos que fiz aqui. Não tenho o hábito, não porque não possa, mas porque me sentiria um tanto esquisito saindo e deixando a pequena sozinha em casa. De toda maneira, a postura da Malu me mostra o quanto ela me ama pra valer; ela me quer feliz e eu certamente nunca a verei tecendo considerações negativas sobre um amigo meu sem que haja um bom motivo. Caso isso aconteça, será o conselho de quem quer me proteger e eu espero estar atento para compreender. Na verdade, isso até já aconteceu.
Por essa razão eu comentei sobre a interação entre a Malu e a Mariane, e sobre como minha baixinha torcia para que eu fizesse as pazes com minha ex-namorada. Logicamente, apenas para ficar de bem e, talvez, retomar a amizade; não me passa pela cabeça qualquer outra intenção e eu estou muito feliz com a pequena. Eu, a propósito, jamais manteria qualquer contato com uma ex (até cortei uma há pouco tempo), mas a Malu sabe que a Mariane é a única namorada que tive até então que não me traiu e nem me fez o mal. Por isso a “exceção”.
O X da questão é que mais uma vez eu recebo uma demonstração de amor da Malu, por esse desejo dela de querer me ver sem pesos na alma. Ela sabe que eu lamento por ter agido mal com a Mariane no passado. Minha consciência é um chicote afiado demais, que me risca o lombo sem dó caso eu cometa algum erro; não sou santo, de jeito nenhum, mas perco a paz quando enxergo que fiz alguma besteira. E a pequena sabe que me culpo por ter sido um mau namorado para a Mariane. Por isso, por me amar tanto e por querer me ver bem, a Malu deixou de lado os seus próprios “calos” e, depois de conversar comigo, tomou a atitude de procurar a Mariane. Estou mais tranquilo agora que sei que aquela moça tão bacana não tem raiva de mim, não me odeia pelo que aconteceu entre nós. Graças ao amor da Malu eu agora sinto minha consciência mais leve. Não imaginam como me alegrei ao ver que elas estão trocando mensagens e se conhecendo.
Amar não combina com aprisionamento, de nenhuma forma. O verdadeiro amor agrega, não separa. Quem toma o (a) companheiro (a) de suas amizades está fazendo qualquer coisa, menos construir um relacionamento saudável como ele deve ser. E isso vale, ainda, para todos aqueles que afastam o outro de seus familiares ou o impedem de fazer algo que gosta. Certa vez, soube de um cara que era casado e adorava motocicletas. Com muito trabalho, ele comprou sua desejada moto e pilotava em grupo com amigos. Sua mulher passou a infernizá-lo, impedindo que ele praticasse seu hobby tão precioso. E o sujeito acabou se deprimindo tanto que enfartou e morreu. Triste, sem dúvidas, mas é um exemplo extremo de até onde o controle sobre outra pessoa pode chegar. Isso não é nem um rascunho de amor. Nos lembra, a propósito, de que só fazem conosco o que deixamos que façam.
Quero te agradecer, Malu, por ter incentivado esse apaziguamento com a Mariane. Sua atitude possibilitou que eu tirasse um grande peso da alma. A cada dia que vivemos juntos sinto, mais e mais, o quanto você me ama. E te digo “obrigado” mais uma vez, por ser essa companheira fantástica que nunca me cerceia; pelo contrário, me estimula a sempre buscar mais, a crescer, a conquistar e a me abrir para o mundo. Digo sempre que relacionamento é para fazer bem, pois, se é para fazer mal, que se fique solteiro (a). Você me faz um bem muito maior do que palavras podem expressar. E eu te amo de coração, igualmente sem qualquer desejo de te controlar. Não cabe entre nós qualquer tipo de amarra além desse laço indesatável que é o nosso sentimento.



sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Uma Casa com Portas e Janelas

Imagem We Love It

Brayan, no seu texto mais recente aqui no blog, comentou por alto a minha opinião em relação à infidelidade e à deslealdade. Como o diálogo é um dos pilares do nosso relacionamento, ele sabe o que eu penso a respeito desses dois temas há muito tempo. E, embora a gente não concorde completamente sobre o assunto, ele me compreende; respeita o meu ponto de vista e, mais que isso, felizmente, respeita também os limites da fidelidade e da lealdade que foram silenciosa e espontaneamente estabelecidos entre a gente. Graças a Deus não tenho do que reclamar.

Voltando, todavia, à minha forma de pensar, o fato é que sábado passado esse assunto veio à tona porque - infelizmente - uma das amigas mais queridas que a internet me trouxe está vivendo as desventuras do término de um relacionamento com alguém que lhe foi infiel e duplamente desleal. Explico...

Pouco depois do primeiro aniversário de casamento, o marido dela chegou em casa dizendo que queria terminar tudo. Segundo o mesmo, ele não a merecia e ela era boa demais para ele. Nada fez sentido, claro, e só alguns dias depois foi que algumas explicações começaram a aparecer para ela. O marido confessou ter descoberto que uma outra mulher estava grávida dele. E foi com essa confissão que ele ouviu dela quase que exatamente o que eu diria para o Brayan, caso tivesse acontecido algo semelhante entre a gente: "...eu seria capaz de perdoar até mesmo a traição, mas não a burrice!".

Minha amiga teve os motivos dela para chamar de burrice a atitude do agora ex marido. E, tomando a liberdade de refletir sobre o assunto aqui, em concordância com ela eu só acrescentaria a palavra "desleal" à frase. O cara foi infiel e desleal quando manteve relação com outra mulher; e foi novamente desleal quando escondeu tal experiência da esposa. Se essa tripla atitude não for imperdoável no sentido de não te desejo mal, mas não te aceito como meu companheiro de vida, eu juro que não sei o que poderia vir a ser. E com isso eu confesso que num caso semelhante, eu também não perdoaria o Brayan.

Não é de hoje que eu penso que quando duas pessoas optam por assumirem o compromisso de relacionarem-se amorosamente, as atitudes que denotam a vivência do ser fiel e leal àquela criatura que você - explicitamente ou não - prometeu cuidar, respeitar e amar devem vir junto, e permanecerem intimamente ligadas. Afinal, como bem disse minha mãe agora há pouco, apesar de um relacionamento afetivo não ser uma prisão, ele tem de ser sim uma "casa com portas e janelas" que não podem nunca estarem escancaradas; e o que vai ditar o abrir/fechar delas é justamente a prática da fidelidade e da lealdade.

Vejamos... Não dá para negar que alguém que trai se perdeu na vivência destas duas virtudes - ser fiel e leal. Mas, da mesma forma, é inegável que o peso de uma traição seguida de mentiras e subterfúgios que visam não apenas esconder a infidelidade mas manter a confiança no coração daquele que ama e foi traído é infinitamente maior. Por isso, no sábado, indignada pela triste e dolorosa experiência da minha amiga, eu falei para o Brayan: "talvez te perdoasse se você me traísse e consecutivamente me contasse. Mas, mesmo te amando, o provável é que eu jamais te perdoasse caso você me enganasse."

Falei isso para ele naquele dia, mas só hoje, depois dos dizeres da minha mãe, eu entendo e também consigo explicar o porquê: é que sinto a nossa casa bonita demais para permitir que um de nós dois desarrume tudo e depois não volte nada para o seu devido lugar.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Traição é Prejuízo

Pequena linda. Me dei bem.

Na minha época de solteiro, quando começava a conversar com alguma mulher, buscando aproximação e talvez um relacionamento, eu costumava imaginar que, a cada interação, eu assentava um tijolo no que devia ser um tipo de “casinha”. Pode parecer bobo, mas eu cultivava essa imagem mental; a cada papo, a cada liberdade conquistada, ia se fazendo uma parede, uma janela, enfim. Quando me apaixonava, então, já idealizava um castelo, algo mais nobre e garboso. Seja como for, o processo de conhecer alguém é bastante demorado e complexo, porque nós, seres humanos, somos recheados de detalhes. Nós somos universos particulares e qualquer relação interpessoal representa verdadeiro contato entre dois mundos diferentes.
Essa semana conversava com a Malu exatamente sobre isso, sobre o quanto é difícil estabelecer um conhecimento aprofundado de uma pessoa. Geralmente é assim que deve ocorrer: os sujeitos se encontram de alguma forma, estabelecem contato, vão descobrindo afinidades e surgem as amizades ou os namoros; ou nem surge nada mesmo, vai saber. Admitindo que, de fato, duas pessoas comecem a se descobrir mutuamente, é fácil imaginarmos a quantidade astronômica de detalhes a serem desvendados. Gostos musicais, gêneros de filmes favoritos, pratos prediletos, hobbies, sonhos, medos, desejos íntimos e vamos longe com essa lista. Exige muito tempo e vontade todo o processo do conhecer; e isso supondo que ambos joguem limpo, que sejam sinceros, porque não temos (infelizmente) as habilidades do Prof. Xavier. É um tiro no escuro, ainda mais porque sabemos que muitas coisas ruins acontecem todos os dias, como crimes passionais, traições e desilusões variadas.
Vejam que Malu e eu estamos prestes a completar quatro anos que nos conhecemos. Isso é uma vida. E, mesmo com tudo que já percorremos juntos, há momentos em que a minha ficha não cai. É um tanto surreal pensar que já fizemos e passamos por tantas coisas. Posso afirmar que nos conhecemos muito bem, e isso para além de quaisquer preferências materiais. Compartilhamos tanto e isso nunca para. Como resultado, por termos consciência de tudo o que se demanda para construir uma relação, é que ambos valorizamos muito o que temos. Sou tranquilo com relação à Malu, confio totalmente nela e no amor que tem por mim. E, tirando minhas ocasionais piadas ou comentários bobos, me empenho bastante para manter o coração da pequena sempre em paz. Sei que ela também se esforça para ser uma boa companheira, e sem dúvidas eu não poderia ter encontrado outra melhor.
Longe de estimular sentimentos ruins em vocês que estão lendo ou de mexer em alguma ferida mal cicatrizada que possam ainda ter, mas eu fico indignado quando vejo, especificamente, casos de traição. Falo dos relacionamentos em que uma das partes está comprometida, sendo honesta; deixo de fora as relações baseadas apenas no móvel recíproco dos interesses pequenos, como dinheiro ou sexo. É uma verdadeira injustiça quando uma pessoa, homem ou mulher, embarca de corpo e alma em uma relação e vê tudo o que construiu ir pelo ralo devido a condutas do outro. Alguém poderá dizer que, quando ocorre uma traição, é porque a parte traída deu algum motivo, deixou faltar algo ou errou de qualquer maneira. Meu ponto de vista é que toda traição é consciente, e por isso mesmo reprovável, seja lá o que a tenha provocado. Se as coisas já não vão bem, é preferível manter a dignidade e terminar o relacionamento.
Quando conversávamos a respeito, Malu me disse que há diferença entre infidelidade e deslealdade. Talvez eu esteja até adiantando algo sobre que ela pretenda escrever, mas, em linhas gerais, a pequena entende que a traição estaria no que se faz com outra pessoa, estranha ao relacionamento; enquanto que a deslealdade se manifestaria ao se esconder o erro cometido, ao se manter o companheiro no engano, ardilosamente. Minha princesa disse que talvez me perdoaria se eu a traísse, mas que não suportaria que eu fosse desleal, e ela está absolutamente certa. Claro que não tomo o que ela disse como um salvo-conduto para aprontar e depois contar na boa, pelo amor de Deus.
Já fui traído e não recomendo a experiência. Minha primeira namorada, aquela que terminou comigo por SMS, quatro dias depois de termos “começado” oficialmente, violou a minha confiança. Eu soube, depois do término, por pessoas próximas, que ela estava de “rolo” com seu patrão e que, ao falar de mim para colegas, dizia algo assim: “Ele é lindo, mas não caminha. Então eu vou visitar ele nos fins de semana e nos outros dias faço o que eu quiser”. Vocês talvez rirão ao saber que, no fim do ano passado, essa mulher me mandou mensagem no Facebook, “querendo dar um ‘oi, tudo bem?’”, segundo ela. Enquadrei com gosto, disse que não tenho assunto com ela; fui chamado de rancoroso e ignorei sumariamente a perva. Creio que ela tentou me sondar, para saber se estou bem na vida ou algo do tipo. Deu com os burros n’água e sim, eu me permiti sentir um certo prazer em cortar a criatura. Me julguem.
Também já fui o traidor da história. Minha namorada da faculdade, a Mariane, sofreu na minha mão. Ter sido injusto com ela está entre os remorsos que tenho nessa vida, porque ela não merecia ter sido enganada. Minha imaturidade na época não justifica o que fiz, mas pelo menos pude tomar consciência de que pisei na bola e não pretendo agir mal com a Malu. O que quero dizer é que já estive dos dois lados da história e sei como, em ambos os casos, houve falta de compromisso de alguém. Assim eu volto ao início. A construção de um relacionamento, um genuíno, é tão complexa, exige tanto dos envolvidos, que não posso enxergar justificativas nos casos de traição. Não faz sentido se aprofundar em alguém e se abrir tanto, se é para jogar tudo fora mais adiante. O que se perde por infidelidade jamais existiu verdadeiramente da parte daquele que falhou. Digo por experiência.
E é precisamente por saber como é complicado o processo de se fazer um relacionamento que eu não pretendo me envolver seriamente com nenhuma outra mulher, no caso de Malu e eu terminarmos. Até porque jamais seria a mesma coisa; eu sempre pensaria “A Malu fazia isso diferente”; “A Malu não gostava disso”, etc.. Esse pessoal que se casa dez ou quinze vezes só faz jogo de cena no altar ou na frente do juiz de paz; não acredito que se possa trocar de relação como se troca de meias. Malu e eu construímos nosso castelo com muito suor e lágrimas, e continuamos a expandir todos os dias. Não há espaço para “puxadinhos” clandestinos. Fazemos o que nos cabe e confiamos que a vida nos guiará, pois ela é eco.