quinta-feira, 20 de setembro de 2018

O Leito n° 4 da UTI e a Minha Necessidade de Segurança

Arquivo pessoal

Lembro de certa vez, antes de dividir a cama com o Brayan, eu acordei de madrugada e não consegui mais voltar a dormir, pelo menos não profundamente. Assim, entre um cochilo e outro, e sem saber exatamente o porquê, percebi que voltavam à minha memória as lembranças de um episódio que protagonizei quando estive no hospital em 2012. Depois de mais ou menos 40 dias, finalmente eu tinha sido transferida da UTI para um dos quartos de recuperação. A expectativa era que em menos de uma semana eu poderia, enfim, voltar para casa. Mas, não foi bem isso o que aconteceu. Eu não sei dizer precisamente depois de quanto tempo, se dois ou três dias, só sei que o meu quadro que estava estável, deu uma piorada súbita e acabaram me levando novamente para a UTI. E foi nesse momento que, mesmo grogue, eu dei o meu show! rs

"Não, eu não quero ficar aqui! Eu quero ir pro meu canto, esse não é o meu! Eu quero a minha cama, quero ir pra minha cama!" Minha mãe diz que eu repetia isso constantemente, numa agitação e numa teimosia que assustou a Dra. Melissa, médica intensivista de plantão naquela noite. Minhas lembranças desse momento são um tanto vagas, já que eu estava completamente dopada, mas eu sei que meu piti funcionou, pois, para o espanto de toda a equipe médica eu não sosseguei enquanto não me colocaram novamente no leito n° 4. "Ela é danadinha, Marta. Fez uma revolução aqui dentro e foi um corre corre danado para trocar os pacientes de cada leito, para que ela pudesse voltar para o que estava antes", foram as palavras da Dra. Melissa para a minha mãe depois que eu já estava instalada no "meu canto".
  
Claro que aqui em casa todos damos risada se, por acaso, esse fato vem à tona numa das nossas conversas hoje. E, particularmente, eu sei que se estivesse realmente consciente, provavelmente não teria feito o que fiz. Mas, acho que agi certo, sabe? Ora, desde que fui internada, desde que acordei do coma, o leito em que estive foi sempre o n° 4 (acho que era esse o número) que ficava em frente ao balcão dos médicos e de toda a equipe de enfermagem. Era aquela a minha visão da UTI, era daquele leito que eu conseguia ver cada pessoa que entrava naquele ambiente, e consequentemente, era para aquela porta que eu ficava olhando quase o tempo todo, à espera da minha mãe ou das minhas irmãs. Hoje eu sei que aquele pequeno show foi pela minha constante necessidade de segurança. Era lá que, apesar de tudo, eu me sentia segura.

Como eu disse no início, não sei por que cargas d'água eu lembrei tudo isso durante aquela madrugada; mas como ontem Brayan e eu conversamos (mais uma vez) sobre confiança/segurança e hoje cedo eu dei de cara com o resultado de um desses testezinhos que a gente faz pelo facebook, me ocorreu fazer uma mudança de planos e escrever sobre o assunto no post de hoje.

O tal teste do facebook consistia em descobrirmos a cor da nossa personalidade, e confesso, não me foi totalmente uma surpresa quando o meu resultado disse que tenho uma personalidade rosa. Embasbacada eu fiquei, na verdade, foi com a descrição que acompanhou o resultado: "Você é uma pessoa amorosa e sensível e sua família significa tudo para você. Na sua família você encontra a proteção e o carinho que precisa. Você se machuca fácil e é bom para você estar entre pessoas queridas, que você tem certeza que te amam. As pessoas de personalidade rosa precisam se sentir seguras e preferem estar em lugares e situações que conhecem bem." Eu não acho que nenhum dos outros testes deu tão certo quanto esse!

Segurança é realmente tudo o que eu busco. Segurança em relação aos meus próprios sentimentos, às minhas escolhas e, principalmente, às minhas relações. E eu sei que dificilmente vou conseguir viver plenamente tudo o que a vida me trouxe e ainda pode trazer, se eu não encontrar essa coisa primeiramente dentro de mim mesma. Acho, ou melhor, sei que só quando eu realmente me sentir segura a respeito de quem eu sou, só quando eu conseguir desenvolver a tal autoconfiança e perder uma porção dos medos que ainda me assombram é que eu vou, de fato, ser a Luíza que eu quero ser. Percebam que falo aqui de autoconfiança e não sobre o confiar no outro. Embora ligados, tais sentimentos se exercem de maneira diversa dentro dos nossos corações. Assim, a partir destas reflexões e parando para analisar a minha vida de uns tempos para cá, vejo que apesar de longo, eu já estou no caminho que vai me levar à confiança em mim mesma - e o melhor é que não o percorro mais sozinha. Brayan e eu seguimos juntos, aprendendo um com o outro. E exercitando o (auto)Amor acima de tudo.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Levei um "Pé na Bunda"



A primeira foto no Ceará, com a sogra e as cunhadas.
          A minha cara feia é só fotofobia mesmo.

Vocês já puderam conhecer a história do primeiro encontro entre Malu e eu. Hoje vou lhes contar sobre como vim para o Ceará, como passei a conviver diariamente com a pequena e com sua família, que agora é minha também.
Eu já disse que a vida, em certos momentos, nos dá uma espécie de “pé na bunda” para irmos para frente. É o jeito particular de ela transformar as coisas e possibilitar aprendizado, e isso se dá de infinitas maneiras, geralmente nos pegando de surpresa. No meu caso, esse empurrão começou com a primeira conversa virtual com a Malu e atingiu o ápice quando surgiu a oportunidade de eu vir para cá conhecer a cidade e avaliar possibilidades. Não nego que já sentia, no meu coração, que viria para ficar, e tudo tem me mostrado que sim, eu estou exatamente onde deveria estar.
Bem, Malu me visitou em outubro de 2016 e já em 23 de novembro me foi oportunizado chegar ao Ceará. Em breve síntese, me despedi da minha família no aeroporto já com saudade antecipada, mas sabia que deveria ir em frente, porque a vida chamava. Assim, após procedimentos de praxe, entrei no avião. Detalhe: até então, eu só tinha viajado sozinho uma vez, de ônibus, para uma cidade a 200 km de onde eu morava, e voltei no mesmo dia. Imaginem o tamanho da expectativa. Se deu medo? Um gelinho no estômago, sim.
E eu nunca tinha voado antes, então fiquei um pouco apreensivo quando o motor foi ligado e começaram os ruídos.  Ao ver o chão ficando cada vez mais longe, fui me tranquilizando. De minha cidade até Viracopos a viagem durou mais ou menos uma hora, muito tranquila. Até me interessei pela televisão, mas o que realmente me atraiu foi a vista do mundo lá fora. Fiquei surpreso comigo mesmo por olhar pela janela, ver tudo pequenininho lá embaixo, depois da camada de nuvens, e não ter sentido medo. “Caramba, estou a x mil metros de altura, pqp!” era o meu pensamento. Me senti como uma criança (certamente não como a Malu, que fez escândalo no “polvo” de um parque certa vez, mas essa deixo que ela mesma conte).
Chegando ao aeroporto de Viracopos, aguardei por mais ou menos uma hora, sentado em uma cadeira de rodas; pedi que me deixassem beeem na frente do portão de embarque, pois por nada queria perder meu voo. O restinho da bateria do meu celular só permitiu que eu tirasse algumas fotos, falasse com a Malu e com meu irmão rapidamente. Não muito depois de o aparelho descarregar, já era hora de seguir para o segundo voo, agora até Teresina.
E essa parte foi a mais demorada; em torno de duas horas, pouco mais. Eu realmente não encontrei nada interessante na tv, então procurava passar o tempo e administrar a ansiedade conversando com a simpática aeromoça, que me contou sobre sua rotina de trabalho, sobre como conciliava com marido e filhos, o que achei muito interessante. Gosto de observar as pessoas, como se portam, como falam, como agem em geral. E acabei tendo boa oportunidade quando comecei a conversar com a moça que vinha sentada à minha direita neste segundo voo. Ela estava com a filha de alguns meses, talvez dias, não lembro. Puxei assunto, a moça foi simpática; incrível como bebês instalam um clima particular, como deixam o ambiente mais leve, diferente. Sei que essa moça também me contou sobre sua vida, e eu contei que estava indo encontrar minha amada. Ela pareceu feliz por saber disso.
O único momento em que passei vergonha foi quando me distraí e não notei que a moça havia começado a amamentar a bebezinha. Olho para a direita numa boa e me deparo com minha colega de viagem com o seio de fora. Pensem como gelei, não sabia como me portar, então tentei fingir naturalidade; me interessei subitamente pelo filme que passava na tv. Claro que é natural uma mãe amamentar seu filho, eu só não esperava que aconteceria ali. E não queria passar a impressão de que eu estava olhando a mulher. Foi um acaso que depois me fez rir sozinho relembrando.
Sei que, após mais de duas horas de voo, cheguei a Teresina. Já ao descer do avião eu senti o calor; duas da manhã e estava abafado. Pensei: “Como esse povo vive?”. Não deu muito tempo de completar o pensamento porque o pessoal que me descia pela rampa puxou assunto e ali eu fiz mais um amigo, um rapaz alto que me empurrou na cadeira de rodas até a parte interna do aeroporto. Seguiu-se mais uns 40 minutos e chegou a terceira aeronave, desta vez uma menor. E eu soube que seria a parte mais radical da viagem no momento em que foram me embarcar e quase me derrubam de uma altura de uns 4 metros. Nunca me agarrei tão forte em alguém na vida.
Quando enfim me acomodei no último banco, o bem de trás no avião, me arrependi de duas coisas: a primeira, de não ter comprado algo pra comer no aeroporto, o que estivera ao meu alcance; a segunda, de ter sentado na última fila, pois, amiguinhos, é ali que se sente todo sobe e desce do avião. Era um calor sufocante, e o pequeno avião era claustrofóbico; corri pra respirar na entradinha de ar perto da janela, e decolamos rumo a Fortaleza, eu com o estômago roncando. Não via a hora de chegar à capital cearense e encontrar os familiares da Malu que estavam me esperando.
Minhas esperanças de matar a fome que sentia foram todas por água abaixo quando escolhi o lanche que a aeromoça trouxe. Míope que sou, escolhi um suco, um bolinho (de milho, acho) e me interessei muito por um pacote específico, que supus serem batatinhas estilo Ruffles. Qual foi a minha decepção ao ver que eram biscoitos de polvilho... Acabei devorando tudo e só conseguia pensar em aterrissar logo. As subidas e descidas do avião eram realmente bem sentidas onde eu estava; ali tive certeza de que nunca, nunca mesmo, irei a uma montanha russa na minha vida. Finalmente, quase às três da manhã, chego a Fortaleza e encontro minha sogra e minhas cunhadas. Senti alívio imenso e grande alegria.
Mas a ansiedade realmente pegou na viagem de carro, da capital para cá. Uma tarde longa e quente. No caminho, descobri a tal tapioca, que só fui apreciar mesmo um bom tempo depois que passei a viver por aqui. Chegamos a Granja à noite. Então tudo aconteceu muito rápido. Fui muito bem recebido. Conheci seu Chico, pai da Malu, e nem sei qual de nós dois era o mais tímido no primeiro cumprimento. Finalmente reencontrei a minha pequena amada. A emoção foi tão grande, eu só queria abraçar a baixinha e não soltar mais. O sentimento de estar completo, que eu já tinha experimentado fortemente em outubro, quando ela foi me ver, dessa vez se instalou em definitivo.
E assim tem sido desde então. Passei a conviver com pessoas maravilhosas que me acolheram e agora são também a minha família. Com a ajuda da Malu, tenho redescoberto minha fé e moderado muito do meu egoísmo. Aliás, isso tem que ser dito: uma das maiores lições que tenho aprendido é que o amor é o antídoto do egoísmo. Amo a Malu e amo cuidar dela, desde as pequenas coisas; isso me ensinou a me colocar mais no lugar do outro e a esquecer um pouco de mim mesmo. Em particular, matei de vez o medo de não conseguir cuidar da baixinha. A vida mudou e tem sido muito feliz com ela, com todos aqui. Claro que sinto saudade da minha família, que me visitou no ano passado, mas volto ao início deste post e digo que eu precisava daquele “pé na bunda” da vida, pra ir em frente, para sair da estagnação e, principalmente, para crescer de verdade.
Vocês certamente já levaram ou ainda levarão empurrões da vida. É o universo agindo, mostrando que fomos feitos para o progresso e que devemos seguir na jornada. Alguns desses impulsos se dão de formas felizes, outras nem tanto, mas todas elas, creio eu, são para o bem, de uma forma ou de outra. Eu me sentia perdido, desnorteado lá no sul, e fui encontrar propósitos sólidos para a minha vida só depois de todo esse processo que começou ao conhecer a Malu. Sei que melhorei muito, mas a estrada é longa e ainda há muito a aprender. Pelo menos agora tenho o rumo.
Não que eu tenha feito da Malu a razão da minha vida, mas conviver com a pequena me mostrou que é preciso ser mais aberto, ter mais fé. Ainda erro, é verdade, mas estou trabalhando; estamos os dois, todos os dias, nos esforçando para melhorar nossas tendências e defeitos. Hoje sei que apenas existir é pouco; que ficar esperando o fim de semana, o fim do mês ou o fim do ano, mecanicamente, é um desperdício. Meu exercício tem sido tentar viver o agora, este momento aqui, e ter fé que o resto irá bem se eu me portar direito. Se for ver, não temos mesmo o amanhã, Renato Russo sabia do que falava.
O Brayan que eu era ficou no RS, em grande medida. Não, não virei santo, mas o contato com outra realidade, com outros sentimentos e com outras possibilidades muda você. Sou muito grato a Deus por ter encontrado a Malu e por poder viver com ela; essa experiência tem sido decisiva para me ajudar a ver o mundo de maneira diferente, e aqui dou muito crédito também ao conhecimento espírita, que me abriu muito os olhos. Me sinto realmente mais leve depois de vir para o Ceará. Curiosamente, desde muito cedo eu dizia que, um dia, viria morar no nordeste, porque detesto frio. Tanto disse, tanto coloquei na cabeça, que se realizou. Da mesma forma que eu sempre acreditei, mesmo na época de menos fé, que poderia encontrar a minha princesa. Encontrei, do outro lado do país, mas encontrei.
E essa foi minha aventura até o nordeste. Agora sou meio “cearense por osmose”.



sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Quando a Vida é Sem Limites

Imagem retirada do Google e editada por nós 

Será que existe uma existência assim? Sim, porque, de uma forma ou de outra, todos enfrentamos nossos entraves no decorrer da experiência humana; sejam eles de ordem física, sentimental, econômica, social, não importa. O fato é que a grande maioria de nós precisa desenrolar um dobrado para superar os obstáculos que o dia-a-dia e a própria vida se encarregam de colocar no nosso caminho.

Há algum tempo li o livro "Uma Vida sem Limites", de Nick Vujicic. Quem desconhece sua história, deve imaginar qualquer outra coisa, menos que se trata do relato das experiências que ele, autor, vem vivenciando ao longo dos seus 35 anos de uma existência marcada por limites decorrentes de uma "deficiência" física. E, cá para nós, não são quaisquer limites, não.

Você já imaginou como seria sua vida se você tivesse nascido sem os membros superiores e inferiores, ou seja, sem seus braços e pernas? Pois é! Assim nasceu Nick. Como o primeiro filho de um casal protestante, um pai contador e uma mãe enfermeira, ele revela que foi muito difícil para ambos - mas, para a sua mãe principalmente - o lidar com o fato de terem gerado um filho com tamanhas "complicações".

Vocês estão estranhando o uso de tantas aspas e do itálico em algumas palavras, né? Deixa ver se consigo explicar...

Quando falei sobre o Nick experimentar uma deficiência física, logo me ocorreu o pensamento de quê tipo de deficiência realmente a gente está falando. Por tudo o que li no livro, por tudo o que já vi sobre ele na internet, não consigo enxergá-lo como alguém que se enquadre no conceito dessa palavra. Basta observarmos seus feitos, suas realizações, que essa concepção vai por água abaixo!

Desde que tomei conhecimento da existência e do trabalho do Nick (e isso já faz uns bons dez anos), me pego pensando no imenso potencial de força, coragem e determinação que ele tem. Apesar de todos os momentos difíceis que vivencia e dos obstáculos que ele tem de superar a cada dia, Nick nos dá uma incrível demonstração do papel que todos podemos desempenhar se quisermos contribuir para o bem e a felicidade do próximo e/ou do mundo de uma forma geral.

Viajando por vários países e fazendo conferências para milhares de pessoas, seja em igrejas ou escolas, Nick fala de alegria e da imensa sabedoria que rege nossas vidas. Ele nos propõe a refletir sobre os planos de Deus para cada um de nós, fazendo-nos compreender que cabe somente a nós mesmos a escolha sobre os caminhos que percorremos na vida.

"Se você não está onde queria estar (...) o mais provável é que a razão resida não à sua volta, mas dentro de você. Assuma a responsabilidade e, depois, aja. Primeiro deve acreditar em si mesmo e no seu valor. Não pode esperar que os outros descubram seu esconderijo. Não pode ficar parado esperando que aconteça um milagre (...). Você deve pensar em si mesmo como uma colher de pau, e o mundo é o seu caldeirão. Mexa a colher. Coragem!!!"*

Bom, depois das palavras do próprio, não há mais nada a ser dito por esta que se atreve a escrever sobre o assunto que - ela acredita - fala tão alto para cada um de nós. Nick Vujicic é um exemplo sim, mas não pela sua condição física nessa presente existência, mas pela forma corajosa com que ele a vivencia. Pela demonstração de força, trabalho e fé! Assim, o que desejo é que possamos ter semelhante fé, coragem, amor e dedicação... Que o Bom Deus nos abençoe, muita paz!!


*Trecho do livro "Uma Vida Sem Limites"

terça-feira, 11 de setembro de 2018

O Pe. Fábio e Um (Outro) Caso de "True Love"


Imagens Google

Domingo passado o Fantástico mostrou um casamento especial. Oito meses antes da data prevista, o então noivo se acidentou e perdeu os movimentos do pescoço para baixo. Apesar da ocorrência, sua noiva não o abandonou e agora os dois, enfim, realizaram o sonho do matrimônio, com direito a surpresa do Pe. Fábio de Mello. 
Essa história, mesmo hoje, ainda conseguiu me surpreender. Quem acompanha o blog já sabe das minhas desventuras amorosas em série e do quanto me tornei desconfiado das pessoas, graças a más experiências que vivi desde muito cedo. Se já não mencionei, digo-o agora; antes de a Malu entrar na minha vida, cheguei a pensar que não encontraria uma mulher realmente sincera e de sentimentos verdadeiros, que me amasse como sou e não estivesse simplesmente interessada nos bens materiais que eu eventualmente conquistasse.
A bem da verdade, eu já tinha me conformado com essa ideia. Pensava o seguinte: em alguns anos, com a vida mais estabilizada depois de estudar e me ralar muito, apareceria uma mulher que se interessaria “por mim”; eu provavelmente daria a chance, acreditando que a coisa pudesse mesmo dar certo; namoraríamos, dentro em pouco talvez nos casássemos; viveríamos bem por um ano, no máximo e, depois, ela se cansaria e decidiria terminar tudo; advogados, divórcio, talvez pensão para ela e para o (a) filho (a), se já tivéssemos; posteriormente eu descobriria que ela me traía com o personal da academia ou com o chefe; e eu teria mais uma enorme decepção para colocar na minha coleção particular. Quem sabe eu me afundasse na bebida ou até me matasse; pode soar chocante, mas eu vivia deprimido, então esses pensamentos eram comuns.
Notem que o pano de fundo para essa novela mental eram as minhas dificuldades físicas. Quando mais jovem, eu acreditava que era possível despertar o amor sincero de uma mulher mesmo precisando de ajuda até para trocar de meias. Conforme fui me decepcionando, mudei radicalmente de pensamento e cheguei ao ponto em que duvidava que outra mulher, além da minha mãe, pudesse me amar de verdade. Afinal, quem, conscientemente, escolheria como companheiro um sujeito limitado como eu? Que mulher estaria disposta a me ajudar nas pequenas coisas do dia a dia? E, mais, que mulher desejaria, sentiria atração por um homem na minha condição? O que era um sonho se tornou algo surreal, porque perdi a fé.
Veio a Malu e me mostrou que eu estava errado e podia, sim, ser amado, ser feliz com alguém. O problema é que, mesmo hoje, histórias como a do casamento mostrado no Fantástico ainda me surpreendem. Se mudei em muitas coisas depois de conhecer e viver com a pequena, algo que conservei foi a desconfiança quase que generalizada das pessoas, em especial das mulheres. É a velha história do gato escaldado. Então, quando vi a história daqueles noivos, fiquei imediatamente surpreso; o fato de a mulher não ter abandonado o sujeito depois do acidente me deixou perplexo, sem exagero. Seria mais fácil para mim aceitar que ela o houvesse chutado depois do acidente, para encontrar outro que fosse “perfeito”. Como essa mulher quebrou minha expectativa negativa, meu pré-conceito, fiquei intrigado e conversei com Malu.
A baixinha insistiu, e ainda insiste, que é mais fácil uma mulher permanecer ao lado de um homem nessa situação, do que um homem ainda ficar com uma mulher que ficasse gravemente debilitada. Eu costumo refutar a ideia, porque julgo mais crível que o homem permaneça em vez da mulher. Mas talvez eu pense assim porque meço os outros caras por mim mesmo; eu não abandonaria a minha companheira só porque ela se acidentou, porque ficou paralisada ou porque eventualmente precisaria de auxílio com coisas básicas. Mas não posso concluir nada a partir de pensamentos dos outros, que sequer posso conhecer. E isso para o bem e para o mal, ou seja, não posso, não devo esperar sempre o bem, tampouco o mal; as atitudes é que revelam tudo.
Há, certamente, homens e mulheres que abandonam seus companheiros depois de um grande baque. Mas há, também, pessoas que permanecem, não importa o que ocorra. É dessa última parcela que eu preciso me lembrar quando o pessimismo e a desconfiança me visitarem. A essa altura, a história daqueles noivos não devia me surpreender tanto, especialmente porque sou prova viva de que é possível amar, ser amado e também desejado, mesmo com deficiências. Gozado como esqueço de que não somos, Malu e eu, o único casal com dificuldades físicas na face da Terra. Acho que, por considerar nossa história tão especial, eu duvide que ela possa se repetir por aí, com outras pessoas. Preciso trabalhar essa descrença que me acompanha em quase tudo. Procuro conversar com a Malu, ela me ajuda bastante. O blog tem sido também uma terapia, não escondo. E, de mês em mês, eu encho os ouvidos do meu psicólogo e do meu psiquiatra.
Seja como for, eu já acredito mais que podem coexistir o amor e as limitações. Levo minha história com a Malu como exemplo, e fico realmente feliz quando vejo outros casais que permanecem juntos, mesmo diante das mais graves aleatoriedades. Aleatoriedade, palavra que tenho adicionado ao meu vocabulário, e que estou tentando incorporar aos meus dias. Mas isso é papo para outro post. Por hoje, agradeço por ter encontrado a Malu e por poder viver um amor de verdade. Ela sabe que não haverá outra, jamais.



sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Setembro Amarelo e a Gratidão por Ser Baixinha

"Quando uma pessoa pensa em suicídio, ela quer matar a dor, mas nunca a vida."

- Augusto Cury -

Imagem True Love 

Somente o Brayan sabe o que vou revelar a seguir: eu já pensei em desistir. Ora, sendo mais clara e dispensando o eufemismo, eu já cogitei a ideia do suicídio. Aliás, quem, ao longo da vida, nunca pensou em fazer algo neste sentido? No meu caso, eu tinha por volta de dez, onze anos no máximo, e por uma contrariedade "tão importante" que eu nem recordo agora, pensei algo do tipo "vai ser sempre assim, é melhor acabar com tudo agora". No mesmo instante em que tais pensamentos me ocorreram, lembro de ter enxergado um frasco de SBP em cima de uma arca de madeira (espécie de armário antigo) que a gente tinha na sala de jantar lá em casa. Sabem quando a gente dá zoom na câmera do celular e o alvo em foco vem se aproximando, aproximando, até ficar bem enorme à nossa visão? Pois bem, foi exatamente isso que se deu naquele instante entre o meu olhar e o vidro do inseticida. A sorte é que eu sou baixinha e ele estava bem no alto daquele móvel; não fosse isso, talvez eu não estivesse aqui, escrevendo este post agora.

É provável que algumas pessoas que me conhecem de perto, lendo este texto, se sintam meio que chocadas. A estas eu lembro o Chapolin e digo "palma, palma, não priemos canico!". É que graças a Deus a ideia de suicídio e o ímpeto de querer desistir e acabar com tudo se deram em um momento único na minha vida; não se tornaram recorrentes, não voltaram a se repetir, ao contrário do que acontece com muitas pessoas, infelizmente. E é principalmente sobre isso que quero, agora, falar.

Você que está nesta página do nosso True Love neste momento, já parou para pensar por que as pessoas cometem suicídio? Ou, aquelas que não chegam a este extremo, por que; ainda assim, elas têm esse pensamento e esta vontade repetidamente?

Dizem que a depressão é uma doença da modernidade e, ainda, o mal do século. Mas, cá aqui com os meus botões, penso eu que ela é o resultado de uma fragilidade do ser humano e, por isso mesmo, tem se manifestado em milhões de pessoas desde que o mundo é mundo. A gente não precisa recuar muito na linha do tempo, lembremos apenas de Friedrich Nietzsche, Abraham Lincoln e Santos Dumont como algumas personalidades históricas cujas biografias narram a experiência do processo depressivo. Aliás, o que era a alta taxa de pessoas acometidas pelo mal da tuberculose se não a manifestação psicossomática da depressão? Sobre este ponto, falo por mim mesma: sempre que tenho uma tristeza que não consigo "digerir", "expurgar" ou simplesmente ressignificar, acabo por vivenciar problemas de saúde que, adivinhem, estão sempre relacionados aos meus pulmões. Aliás, este pode ser um tema para outro post.

Voltando todavia às possíveis causas que levam as pessoas a cometerem ou desejarem o suicídio, eu acho fantástica a assertiva do Cury; assertiva esta, que, inclusive, utilizei para encabeçar o texto. Quem deseja desistir da vida e quem de fato desiste, não quer, penso, morrer; quer, sim, parar de sofrer, não mais sentir dor, evitar ainda mais sofrimento. E é nesse ponto que a gente precisa ter empatia o bastante para não julgar. O modo como sentimos e encaramos a dor - seja ela de ordem física ou moral/emocional - é algo completamente subjetivo e individual. Daí ser desumano alguém julgar outra pessoa pelo fato de esta sofrer e não "lidar bem" com uma experiência que ele tiraria de letra. Brayan sempre fala que "só quem calça a botina sabe o quanto ela aperta". Não será esta uma verdade? Como podemos julgar, diminuir, subestimar o sofrimento e a dor de outra pessoa se não estamos na sua pele, sentindo o que ela sente, vivendo o que ela vive?

Em agosto do ano passado o Pe. Fábio de Melo falou ao Fantástico sobre o momento difícil que estava vivenciando. Diagnosticado e fazendo tratamento para síndrome do pânico, confessou: "...eu desabei. Me escondia debaixo da cama, tamanho era o pavor que eu sentia.“ E discorrendo sobre o apoio que encontrava na própria mãe, ele continuou: "Teve um dia que meu desespero estava tão grande que eu não queria falar com outra pessoa sem ser ela. Eu sou o padre Fábio de Melo, mas continuo sendo o Fabinho para a minha mãe“. Recentemente um pastor na Califórnia cometeu suicídio e sua esposa fez um desabafo no Instagram, pedindo orações para toda a família. Ele sucumbiu à ansiedade e à depressão. Relato este dois casos conhecidos e que vieram à mídia porque eles "derrubam" o maior dos dedos apontados em condenação para as pessoas que vivenciam a depressão: "é falta de Deus".

Jesus, quem sou eu, quem é você, quem somos nós para julgarmos dessa forma?

Novamente, a depressão, a ansiedade, as fobias e os demais transtornos psicológicos/emocionais são resultado da fragilidade humana e aos quais todos estamos sujeitos ao longo da vida. Assim sendo, o que nos cabe no sentido de nos "imunizarmos" contra eles, é desenvolvermos hábitos que nos ajudarão a encarar as dificuldades e tirar das mesmas o aprendizado que invariavelmente elas trazem. Por exemplo, tirar alguns momentos no dia a dia para a prática de exercícios físicos e também para a meditação/reflexão, manter uma rotina de alimentação saudável, dormir bem, buscar sempre focar no lado positivo dos fatos e das experiências da vida, fazer boas leituras, evitar negatividade de toda ordem, alimentar os sentimentos de gratidão, fé e esperança no coração. Sem nenhuma pretensão de oferecer uma receita, escrevo estes itens porque vejo neles alguns antídotos contra o desânimo e a depressão. É tudo uma questão de exercício, gente.

Finalizando o post, eu não poderia deixar de mencionar o Setembro Amarelo e o lindo trabalho que o CVV - Centro de Valorização da Vida - vem realizando desde 2015 em parceria com o CFM - Conselho Federal de Medicina - e com a ABP - Associação Brasileira de Psiquiatria. A Campanha Nacional do Setembro Amarelo estimula a conscientização sobre a prevenção do suicídio e tem por objetivo alertar a população a respeito da realidade desta problemática e as suas variadas formas de prevenção. FALAR É A MELHOR SOLUÇÃO, diz o slogan da campanha, que  além de desenvolver inúmeras atividades em todo o Brasil, também conta com o trabalho de assistência e orientação pelo telefone 188 (ligação gratuita de qualquer telefone fixo e celular) e pelo site www.cvv.org.br. Estupendo, né? Vamos compartilhar esta dica?

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♡ Dicas True Love ♡

♡ Espiritismo.net: Promovendo a divulgação da Doutrina Espírita na internet, o Espiritismo.net desenvolve o trabalho do Atendimento Fraterno nas modalidades on-line e on-line. Para maiores informações sobre o assunto, acesse o site: https://www.espiritismo.net/nossas_atividades/atendimento_fraterno

♡ Rossandro Klinjey e a mensagem FICA

terça-feira, 4 de setembro de 2018

A Viagem das Nossas Vidas


No começo era assim

Viver com a Malu tem sido um presente maravilhoso. Nossos dias se transformaram totalmente e o sentimento que construímos ao longo do quase ano e meio em que interagimos pela internet só se fortaleceu. Naquela época, experimentamos também o sofrimento de ver o outro ali, pela tela fria do computador, sem que pudéssemos nos abraçar, sem que fosse possível segurar as mãos. É muito difícil encarar a distância quando se quer alguém pertinho. Felizmente, no nosso caso, os fatos se desenrolaram de maneira que nos foi possível, enfim, o encontro tão desejado.
Durante o período de convivência virtual, Malu e eu tivemos nossas idas e vindas, que hoje entendo terem sido necessárias para nos amadurecer, especialmente a mim, que tinha medo de me decepcionar novamente. A par disso, nossas conversas eram longas, com direito a papos via WhatsApp até a madrugada; era duro o momento da despedida, se pudesse viraria a noite falando com ela. Melhor ainda foi quando passamos a conversar por Skype, e eu pude ver aqueles olhos puxadinhos lindos piscando para mim, aliados a um sorriso tímido. Toda vez que eu via a Malu através da webcam ficava me perguntando como seria tê-la na minha frente pra valer, se eu travaria, se ela ficaria vermelha, ou ambas as coisas. Se pudesse, teria entrado pela tela do notebook para descobrir.
Curioso é que nosso encontro real foi se idealizar logo após termos voltado após um (outro) término motivado pelo meu medo. Eu temia não poder cuidar da Malu, já que tenho também as minhas dificuldades. E, na época, me assustei por ela ter sofrido uma queda e machucado o quadril; assim, dando aos meus limites um tamanho que eles nem tem, me diminuí e cheguei à conclusão de que não seria capaz de proteger direito a baixinha. Por isso decidi terminar, e vejo o quão burro fui. Felizmente reatamos; não aguentei sufocar meu amor por ela e fiquei p da vida comigo mesmo por ter sido tão covarde. Decidi que não largaria mais da Malu, independente dos limites, e que daríamos um jeito em tudo. Então, as coisas começaram a se realizar.
Lembro-me de ter ficado numa expectativa gigantesca quando a Malu me contou da possibilidade de ela ir me visitar no RS. Foi como respirar depois de muito prender o ar, um retorno à vida, à cor e à graça das coisas. Voltei a sentir o frio na barriga que há anos já não experimentava, mesmo com uma parte de mim temendo não agradar. A minha autoestima não era, e ainda não é, das melhores; então, tive receio de que Malu se decepcionasse de alguma forma quando nos encontrássemos. Nem preciso dizer que a baixinha tratou de me tranquilizar, de tirar esses pensamentos da minha cabeça como pôde.  
Sei que, em dado momento, decidiu-se pela viagem. Viriam Malu, seu irmão, cabeção Jessé, e sua mãe, dona Marta. E eu só faltei soltar rojões quando tudo foi confirmado, tamanha a minha felicidade. Logo tratei de avisar em casa; não foi nenhum choque, já que minha mãe e meu irmão já sabiam sobre a Malu e até já a tinham visto pela cam. Creio que eles devem ter ficado bastante curiosos, não apenas para conhecer essa moça tão especial que me havia conquistado, como também para interagir com Jessé e dona Marta; a própria experiência de encontrar alguém do nordeste, que é praticamente outro país em relação ao sul do Brasil, atiçou o povo lá de casa.
Em 7 de outubro de 2016, Malu chegou com sua família à minha cidade. Era manhã, e eu já estava de pé na porta, com o celular na mão e esperando por mensagens. Sabia que eles alugariam um carro, e a todo barulho que eu ouvia na rua, já esticava o pescoço pra ver se seriam eles chegando. Creio que foi o momento em que mais me deu nó no estômago de nervosismo, pois a hora passava e eles não apareciam. Depois fui saber que se perderam um pouco no trajeto. Certo é que, em um momento em que olhei para a rua, vi um carro branco subindo a ladeira devagar, e vi dentro daquele veículo três das pessoas que se tornaram mais especiais na minha vida.
“Olha ele ali”. Foi isso ou algo do tipo que dona Marta disse quando o carro freou. Pensei comigo: “Meu Deus, é agora, me segura que se eu desmaiar vou passar vergonha”. Abro o portão elétrico, o carro entra. Só deu tempo de ouvir o barulho da porta abrindo, e não demorei a ver a baixinha mais linda andando rápido, quase correndo em minha direção. O cabelão, os óculos cor de rosa, era ela, era a Malu; finalmente abraçaria minha princesa! E abracei, forte. De uma forma meio desajeitada, visto que até fiz ela bater a cabeça na porta da casa. Dei-lhe um beijo no rosto, que ela ofereceu tímida. Então se aproximaram Jessé e dona Marta.
Duas impressões que tive de imediato ao vê-los. Sobre o Jessé, que era um menino forte e bonito (e que certamente vai me zoar por esse comentário, fazendo referência à minha origem gaúcha...). E, sobre dona Marta, que era uma mulher elegante, séria; vestia um casacão, pois não é acostumada com frio, e usava óculos escuros; lembro-me do seu cabelão loiro também. Ali eu gelei, pessoal; a casa não estava totalmente organizada, porque minha mãe saía cedo para trabalhar, então fiquei morrendo de medo de passar uma imagem ruim. Novamente, creio que tudo era coisa da minha cabeça.
Sentamos todos no sofá. Malu ao meu lado, de frente para sua mãe e seu irmão. Estávamos abraçados, eu não soltava a baixinha, tudo o que queria era tascar nela um beijo na boca daqueles de cinema, beijo, aliás, que seria o primeiro, nosso, e dela especialmente. Papo vai, papo vem, lá pelas tantas o pessoal vai descarregar as malas do carro para levar para meu quarto. E foi nesse momento que eu roubei o tão desejado beijo. Sim, nosso primeiro beijo, o primeiro beijo da Malu foi roubado. Eu fiquei em um dilema: tentar ou não tentar? E se ela achasse ruim? E se ela rejeitasse, onde eu enfiaria a minha cara? Pelo sim e pelo não, arrisquei. E ela não me negou aquele beijo especial. Correspondeu. Foi maravilhoso, de ir ao céu e voltar. Quando o pessoal voltou, disfarçamos com toda a nossa habilidade.
E por uma semana a Malu ficou na minha casa, conheceu melhor a mim e aos meus. Aliás, lembram do que eu disse sobre meu povo conhecer a família da pequena? Pois todos se deram bem demais; meu irmão adorou a minha sogra, quando dei por mim até já estavam planejando carnaval juntos! Tenho que dizer que foi muito especial para mim ver como dona Marta e minha mãe se deram tão bem; pareciam até irmãs, saíram para passear, conversaram, nunca vi a dona Eliane tão à vontade. Uma felicidade imensa viver aqueles dias na companhia da Malu e de sua família. Pessoas maravilhosas que passei a amar demais.
Dura mesmo foi a despedida. Eles precisavam voltar para casa, retornar ao nordeste. A dor que senti ao abraçar a Malu nesse instante foi quase física, como levar uma paulada ou uma facada no peito. Depois que eles partiram, subi até meu quarto, sentei em minha cama e fiquei olhando em volta, desolado. Já não havia mais as coisinhas da Malu, seu respirador noturno, sua mala... Faltava aquela mulher fantástica sentada ali comigo, jogando xadrez ou abraçada vendo filme. Senti-me deprimido e temi não voltar a vê-la. Afinal, milhares de quilômetros nos separariam novamente. Mas, tudo se encaminharia de novo; a vida é engraçada e nos conduz de maneira muito peculiar; quando percebe estagnação, dá jeito de nos meter um pé no traseiro pra irmos para frente. E assim fez comigo.
Em 23 de novembro cheguei ao Ceará. Com a possibilidade de trabalhar junto da cunhada da Malu, me foi oportunizada a vinda para cá, a princípio para conhecer e avaliar se seria mesmo viável abrir um negócio por aqui. Mas, quando entrei no avião em minha cidade, após me despedir da minha família, eu já sabia que estava fazendo uma viagem só de ida. Já sentia no mais profundo do meu ser que a vida estava me mostrando o próximo capítulo da jornada, agora vivendo e construindo com Malu. E, desde então, aqui estamos, juntos, e eu pude conhecer toda a família da pequena, que passou a ser minha família também. Além disso, fiz muitos, muitos amigos por aqui. A vida realmente é outra.
E nós, Malu e eu, seguimos e seguiremos juntos. Ela é minha certeza, é a mulher da minha vida, com quem quero conquistar as coisas e ficar velho. Já disse que até uma cabana no meio do mato nós vamos construir, e que a internet será só dela, porque quero apenas uma biblioteca; talvez eu use um pouco da internet pra jogar xadrez, mas só isso.
Do primeiro contato no chat. Da primeira troca de Facebooks (quando ela me passou o fake dela, por precaução, e depois o verdadeiro). Das horas juntos online. Das ligações até a madrugada. Das tardes conversando pela webcam. Da expectativa pelo encontro presencial e da despedida após a semana de sonho. Da vinda para o Ceará até aqui. Eu mudei, a Malu mudou, nossas vidas nunca mais foram as mesmas, e jamais voltarão a ser o que eram. Nós estamos unidos para sempre. NEOQAV, princesa!
 
Juntos!


sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Lulu e Tio "Braynem": Simples Assim.

Arquivo Pessoal
Amo do tamanho do universo 

"Entre um jogo e outro no computador, eis que Ananda me sai com essa pergunta: "Lulu, por que Papai do xéu fez voxê axim?" Confesso que fui pega de surpresa, porque nesses quatro anos ela nunca fez ou disse nada que demonstrasse que ela percebia a "diferença". Depois de pensar um pouco enquanto ela continuava jogando, respondi: "Amor, na verdade ñ foi o Papai do Céu que fez a Lulu assim, foi a Lulu que escolheu ser assim." Ela parou o jogo, olhou pra mim e disse: "Ah, eu também escolhi ser assim", e continuou entretida com o pc, enquanto eu mexia no celular. Daí, uns cinco minutos depois ela para, me abraça pedindo abraço e diz: "Lulu, voxê é linda e eu te amo!" Nem preciso dizer que minha pose de durona foi por água abaixo, né?" (Facebook - 29 de Agosto de 2014).

***

"Distraída começo a cantar o que tá rolando no restaurante... "...e você não gosta mais de mim...", ele me interrompe e diz "eu gosto de você sim, Iuiu". Continuo cantando: "...vem dizer que eu não soube dar amor...", novamente ele me faz calar dizendo "você é minha amor, Iuiu". Como não amar esse pequeno, hein?! Meu principezinho mais liiindoooo!!!" (Instagram - 26 de março de 2014).

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Legendas de duas fotos que postei no meu Facebook e no meu Instagram respectivamente, os parágrafos acima relatam dois dos muitos momentos lindos que eu vivenciei com meus primos Ananda e Arthur. Na época contando apenas 4 aninhos, meus pequenos me mostraram na prática a realidade do pensamento que diz que ninguém nasce preconceituoso, que tudo o que precisamos para extirpar este mal da sociedade é justamente investirmos em educação.

Deu a louca, Malu? Que papo é esse de investir em educação? Vai se candidatar a algum cargo na política?

Não, gente! Deus me livre! A questão é que mesmo adorando o feedback que a gente tem recebido de vocês aqui no blog, achei oportuno tocar neste assunto no post de hoje porque Brayan e eu temos observado em muitos comentários deixados aqui, a ideia de que as pessoas são más, cruéis e etc. E nosso objetivo ao compartilhar nossas experiências no True Love não é e nunca foi despertar este tipo de pensamento em quem quer que seja. Pelo contrário...

Quando Brayan falou no último post sobre as experiências com o bullying vivenciado na escola e na faculdade, ou quando eu escrevi sobre os comentários que muitas pessoas já fizeram ao nosso respeito, a gente tinha em mente provocar reflexões, sacudir a poeira dos preconceitos que inconscientemente ainda guardamos no fundo da gavetinha dos pensamentos antiquados que continuamos a alimentar, apesar do passar do tempo. Não propagar indignação e revolta, nosso intuito com os textos do blog é ajudar no processo de auto reflexão e conscientização. Claro, não temos a pretensão de mudar ninguém, mas acreditamos que cada pessoa pode transformar a si mesma quando reconhece que algo dentro de si precisa ser melhorado. E foi pensando nesse reconhecimento que começamos a desenvolver nosso trabalho.

O fato de sentirmos raiva e/ou ficarmos indignados quando alguém diz ou faz algo que nos agride, não vai alterar nada a não ser o nosso equilíbrio emocional, concordam? Por exemplo: Relembrando o meu último post e o comentário da pessoa sobre o Brayan, a animosidade que eu senti quando tomei conhecimento daquelas palavras só mudou o meu estado de espírito, nada mais. E não é isso o que a gente quer! Embora sejam sentimentos naturais em todos nós, a indignação cega, a raiva e a revolta não quebram paradigmas, não acabam com preconceitos.

O momento atual que o Brasil está passando nos mostra diariamente que é no inverso de tais sentimentos que está o caminho da nossa transformação - seja como indivíduo, seja como sociedade. Assim, se Brayan e eu, ao compartilharnos nossas experiências, conseguirmos derrubar ou mesmo sacudir um pouco do alicerce de preconceitos que muita gente ainda tem relação às pessoas com deficiência, já nos daremos por satisfeitos. Novamente, não à raiva, sim à conscientização.

E, para finalizar, em relação aos dois parágrafos iniciais, creio muito que Ananda, Arthur e todas as crianças que são educadas desde a mais tenra idade para respeitarem as diferenças não precisarão se lapidarem neste sentido quando chegarem à idade adulta, afinal, já terão a consciência de que ser diferente não é nenhum defeito, ao contrário, é natural. Aliás, depois do que vocês leram sobre os meus pequenos, não preciso dizer que eles receberam o Brayan super bem, né? A Ananda nem ciúmes de mim teve (ela é bem ciumenta!), e o Arthur só comentou que ele tem a barba e a sobrancelha muito grande e que precisaria se acostumar com a ideia de que a "sua Lulu" (eu) agora tinha um namorado. Para os dois nos somos apenas a Lulu e o tio Braynem, simples assim.

Percebem porque Jesus disse "Deixai vir a mim as criancinhas."?