domingo, 14 de julho de 2019

Trabalho: Voltando à Ati(vida)de

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A prefeitura daqui abriu, no início do ano, um novo processo seletivo para contratação de pessoal. Foi o terceiro no qual me inscrevi. Nas duas primeiras vezes, eu havia me candidatado ao cargo de advogado, porém não cheguei a ser chamado por ter ficado em segundo lugar em ambas as tentativas. Dessa vez, como já cancelei minha inscrição na OAB (um requisito para tomar posse no concurso em que passei e cuja vaga estou esperando), me inscrevi para o cargo de atendente da secretaria de saúde, uma função de nível médio. Uma das vagas disponíveis era para pessoa com deficiência e eu fui em busca dessa oportunidade. Fiz a prova no final de janeiro e passei, quase gabaritando. Nesta semana me convocaram para começar a trabalhar e eu já estou de volta à ativa, o que me deixa muito feliz.

Eu estava aborrecido por ficar sem trabalho. Não apenas pela falta de dinheiro, mas também e especialmente por não ter uma rotina diária, com horários a cumprir e tarefas a desempenhar. Me sentia mal por ver os dias passando, enquanto tudo o que eu podia fazer era esperar, afinal já tinha feito a minha parte, ser aprovado. Para amenizar o sentimento de inutilidade e aplacar o tédio, tenho me dedicado ao estudo do xadrez, o que acaba unindo o útil ao agradável, pois gosto muito do jogo (apesar de passar raiva algumas vezes). Eu faço isso, de assumir empreitadas secundárias para me sentir ativo, desde a infância, quando desenhava e coloria meus ídolos dos animes. Já na adolescência, descobri que era capaz de construir brinquedos e réplicas de carros com sucata; passava horas e mesmo dias desenhando, recortando e colando as peças, já antevendo o resultado final. 

Até hoje, com o xadrez, o meu desejo continua o mesmo; eu quero construir, quero produzir alguma coisa e sentir que empreguei de verdade a energia que recebo diariamente ao acordar. Suponho que grande número de pessoas com deficiência, à exceção das realmente incapacitadas, se sinta da mesma forma, com a grande vontade de ser útil. Quem está de fora pode pensar que é bom não precisar fazer esforço ou bater cartão diariamente; pode-se imaginar que ser PcD é até uma bênção, porque se tem sempre alguém para nos auxiliar e fazer as coisas por nós. São sérios enganos, pessoal. Falando por mim, ficar sem uma ocupação é uma verdadeira tortura; as horas não passam e, quando se deita à noite para dormir, o sentimento que domina é o de ter desperdiçado mais um dia de vida. 

Não consigo mesmo entender como alguém pode se sentir bem sem trabalhar. Queria eu ter braços e pernas fortes para me dedicar à labuta. Me incomoda saber que muitos por aí são "perfeitos" fisicamente e não dão valor; há quem prefira empregar suas capacidades cometendo crimes e tem gente que até se lesiona, de propósito, para receber benefícios da Previdência Social. Só a ignorância explica esses desvios. O ser humano foi feito para o trabalho, seja ele físico ou intelectual. Acredito tanto nisso que costumo comparar o tédio da falta de uma ocupação ao que os animais de um zoológico devem sentir, sabendo que vivem todo dia da mesma forma, em um local cercado em que não podem exercer suas potencialidades; um loop infinito, infernal. Ninguém, homem ou bicho, merece algo assim.

É tolice imaginar que ter uma deficiência seja um privilégio. Podem ter certeza que nós, PcDs, não achamos bacana ter alguma capacidades reduzidas e gostamos menos ainda de sermos subestimados. Queremos trabalhar e construir nossas coisas tanto quanto qualquer pessoa considerada "normal". É claro que há os casos de limitações que afetam o discernimento e impõem, de maneira irremediável, a dependência de outro alguém. Mas que não se cometa o grave erro de medir todos os deficientes pela mesma régua, com base nos mais debilitados. Fico feliz quando vejo PcDs em atividade, estudando, trabalhando, correndo atrás do que desejam. Elas não são menos do que ninguém e até podem dar de dez a zero em muitos "perfeitos" por aí.

Que sentimento bom esse de voltar ao trabalho, de retomar uma rotina produtiva. Ver pessoas, interagir com colegas, fazer algo para os outros. Lembro de ouvir um certo filósofo contar que descobriu que trabalhar é "quebrar o galho" de alguém. Ele estava certo, porém eu acrescentaria que trabalhar é impedir que enferrujemos em nossos potenciais, evitando que nos acomodemos. Na sexta-feira pude sentir um pouco do cansaço da jornada; mas era um cansaço bom, com sentimento de dever cumprido. O que me faz lembrar, agora, de um jornalista, que dizia que a cura para a depressão é o trabalho em vez dos ansiolíticos. Popularmente se diz que cabeça vazia é oficina do diabo, não é? Tem um fundo de razão. Ainda bem que voltei à ativa.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Militância PcD e a Autoaceitação

Imagens Google

"Ser capaz de sentir indignação contra qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo é a capacidade mais bela de um militante." (Che Guevara)
Lembro que a frase acima foi deixada como reflexão ao final de uma das minhas primeiras aulas na faculdade de Serviço Social, lá no distante 2008. Quando a li no slide, o primeiro pensamento que me veio foi o da imagem de um aglomerado de pessoas exigindo alguma coisa através de variadas frases expostas em cartazes e tabuletas. Com essa imagem na mente, recordo que naquele momento fiquei me perguntando qual motivo me faria participar de um evento desses?; qual a causa que me faria gritar (contra ou a seu favor)?; qual seria a minha bandeira...? A resposta veio simples e não mais é novidade pra quem me conhece já há algum tempo: o aborto e, embora o aparente paradoxo, as causas feministas.

De uns anos para cá, todavia, por ene motivos e experiências, percebi-me envolvida por um sentimento novo, digamos assim, que até então não tinha nenhum significado especial para mim. Eu sei, pode parecer estranho o que vou dizer agora, mas só recentemente, bem recente mesmo, foi que eu passei a me sentir realmente inebriada pela sensação de pertencimento, de identidade... Sensações estas que já me despertavam para a questão da luta contra o aborto e pelo direito das mulheres, passaram a me sensibilizar, também, para a questão das Pessoas com Deficiência. A obviedade de tais sentimentos, agora, me constrange. Por que, afinal, não pensei antes em aderir e lutar por uma causa que também é a minha?

Se falar a verdade é preciso (para que o blog faça sentido), só consigo explicar esse distanciamento confessando que foi complicado ter de assumir, no meio virtual, que  a causa em questão é - também - a minha condição. Digo no virtual porque, no mundo real, em relação às situações que lhes são inerentes, eu já fui vacinada e nada me impede de ter uma vida praticamente normal. No mundo virtual, porém, acabei por cair na ilusão da invisibilidade. Não que tenha mentido a respeito de mim mesma, não. Nunca. Mas, se não fiz isso, também não assumi. A verdade é que aqui na internet eu retardei - o quanto pude - a informação sobre o mais visível detalhe da minha vida: a minha condição de PcD.

Mas, voltando a questão do ser militante, eu ainda não faço parte de nenhum movimento organizado - nem no tocante ao Aborto, às Mulheres e às Pessoas com Deficiência. Em relação a este último segmento, o fato é que o True Love e minhas redes sociais são, pelo menos por enquanto, as únicas bandeiras que levanto na tentativa de fortalecer a voz que grita pelo reconhecimento dos nossos direitos. É que não dá mais para ficar indiferente, sabe? Ainda que participando de uma forma pequena nessa luta, eu não posso esquecer o que li, vi, ouvi, vivi... Não quero deixar passar em branco a oportunidade de fazer a diferença - mesmo que mínima. Poxa. Como deixar de pensar na quantidade de pessoas que, desafiando os próprios limites, vão às ruas, organizam e participam de passeatas, protestos e tudo o mais, buscando chamar a atenção para a efetivação dos direitos de toda uma população que parece invisível para o Estado e a sociedade como um todo? Desculpem-me, mas não é justo, e nem quero. Por isso, não resisti ao post.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Dois Blogs - Duas "Vidas"

A foto que arriou os quatro pneus da Malu. Reflexivo, como hoje.
O True Love não é a minha primeira experiência como blogueiro. Quando entrei na faculdade, eu tive um outro espaço, onde desabafava com frequência e contava sobre as minhas desventuras amorosas. Eu compartilhava os textos com uma amiga, que também mantinha um blog bastante sentimental; nós conversávamos longamente sobre nossos escritos, aconselhando e consolando um ao outro. Ainda me lembro de alguns textos específicos que postei; um falava sobre o dia internacional da mulher e a coincidência de data com o aniversário de uma grande paixão; outro narrava a forte decepção que tive com a moça com quem conversei online por mais de oito meses. 

Enfim, eu deletei aquele blog porque ele tinha se tornado um verdadeiro muro das lamentações. É verdade que ele me ajudou a colocar muitas coisas para fora e isso me fez sentir melhor diversas vezes; mas os textos foram se tornando mais e mais depressivos, a ponto de se tornarem uma leitura pesada. Já falei para a Malu que tenho medo de desvirtuar o True Love dessa maneira, com minhas postagens um tanto melancólicas. É que, a par dos escritos técnicos e rebuscados que o direito muitas vezes me exige, eu só consigo escrever bem quando falo das coisas que sinto. Eu não preciso pensar para abrir o coração, as palavras fluem naturalmente. Mesmo com receio de soar negativo muitas vezes, não posso fugir de mim mesmo, então me mostro a vocês como sou e estou. Creio que é melhor assim; não tenho interesse em vender uma falsa imagem.

Há pouco tempo até me julguei incoerente por ter feito um post feliz em uma semana e, na seguinte, ter falado da minha depressão. Eu levo a sério tudo o que faço, inclusive o True Love, então me empenho em manter um certo nível de excelência, o que é só mais uma demonstração do quanto me cobro e de como tenho medo de perder o controle das coisas. Haja terapia. Acabei percebendo que não havia incoerência porque todos têm seus altos e baixos, somos humanos, afinal. Mesmo assim, nos últimos tempos tenho me preocupado com o que posso abordar por aqui; sinto como se estivesse em uma crise criativa e temo não atender as expectativas de todos vocês que nos acompanham há mais de um ano. De novo, autocobrança. 

Parte dessa "crise" de criatividade se deve ao fato de que não estou 100% satisfeito com a fase atual da minha vida. As coisas ainda não deslancharam como eu gostaria, eu sigo esperando minha vaga do concurso e continuo descapitalizado (um eufemismo para "estar na pindaíba"); não tenho tido muitas novidades, tanto que estou me aprofundando no xadrez justamente para investir meu tempo e não pirar no ócio. Não posso negar que isso tudo me deixa aborrecido; o homem é feito para o trabalho, digo sempre para a Malu. Ao mesmo tempo, eu quero vir aqui e postar algo bacana para vocês, e não fazer da minha parte no True Love um novo muro de lamentos. A nossa intenção nunca foi realçar coisas negativas.

É por isso que eu escrevo sempre, mesmo não estando muito inspirado às vezes. Porque eu saio bem melhor daqui depois de desabafar, revisar o texto com a minha pequena e clicar no botão "publicar". Porque acredito que fazemos todos que nos leem se sentirem, também, um pouco renovados, perdoem a presunção. Esse nosso cantinho especial difere fundamentalmente daquele blog amargo que eu alimentei, porque, naquele tempo, eu sequer acreditava que poderia melhorar. Sofria tanto que até gostava. Aliás, agora lembro de ouvir do médico que fez a cirurgia espiritual nas minhas pernas algo assim: "Você gosta de ficar sofrendo; gosta de ficar deitado lá, encolhido, chorando e se sentindo o coitadinho". Foi como se ele me atravessasse com o olhar, acertou na mosca! Acho que sou meio masoquista.

Porém, suponho que me tornei uma pessoa melhor nos últimos anos, muito disso por ter encontrado a Malu. Quero continuar evoluindo e sei que isso só é possível enfrentando com coragem os sentimentos e experiências ruins, em vez de me deixar envenenar por eles. Não tem sido fácil levar numa boa a espera por trabalho, a falta de dinheiro e mesmo as derrotas no xadrez (ou as vezes em que morro no videogame, ou tomo um gol, e fico puto). Mas são coisas da vida. Esses dias me peguei dizendo a mim mesmo: "Você está sofrendo porque está se permitindo sofrer. Quando você quer, você segura a barra. Já fez isso a vida inteira, por que fraqueja agora? Você relaxou.". 

É, acho que sei onde posso empregar melhor minha autocobrança.















domingo, 7 de julho de 2019

Desculpa Aí... Mas Eu Sou Uma Raridade

Arquivo pessoal
Sim, meu post dessa semana está bem atrasado em relação aos das anteriores. É que eu me enrolei entre o dever (trabalhos do Espiritismo.net e interação dos blogs) e o lazer (série Maria Magdalena na Netflix - assistam!!), confesso, e só agora consegui separar um tempo para vir aqui e transformar em palavras escritas as ideias que eu já tinha em mente para o meu texto semanal. Se vocês aceitarem continuar me lendo, preparem-se, porque a notícia que vou lhes dar agora é mais valiosa - pelo menos para mim! - que qualquer prêmio de loteria.

Já comentei em outra ocasião aqui no blog, que eu e minha família só viemos a conhecer o diagnóstico que caracteriza a minha condição física, quando eu tive a oportunidade de ir ao Sarah Kubitschek, em Brasília, em 1996. Naquela época, depois de uma bateria de exames e de um mês longe de casa, minha mãe e eu ouvimos pela primeira vez sobre a Síndrome do Pterígio Múltiplo (ou Síndrome de Escobar) e a sua ocorrência extremamente rara.

Isso mesmo. Extremamente rara. Segundo o que ouvimos naquele dia lá no Sarah, eu fui uma das poucas pessoas sorteadas na loteria mega concorrida da SPM. Do alto dos meus 12 anos, confesso que ao ouvir do médico sobre a baixa ocorrência da minha condição física dentro da população mundial, pensei algo mais ou menos do tipo: p*rr@, eu que nunca ganhei um bombom em nenhum sorteio, tive justamente essa sorte?

Daquele dia em diante, depois de eu ter feito a opção de não fazer nenhuma cirurgia e voltarmos para casa no Ceará, minha família e eu nunca mais procuramos saber sobre a tal síndrome. Aceitamos o fato da sua irreversibilidade e a gente pôde seguir a nossa vida normal, sem mais preocupações com rotinas hospitalares e, principalmente, sem aquela busca incessante pela suposta cura da minha condição.

E eu, de minha parte, embora tenha aceitado o fato de que seria deficiente para sempre, ainda me senti por muito tempo como aquela pessoa azarada, cuja sorte está quase sempre de olhos vendados; e, quando decide tirar o que lhe tapa as vistas, age por impulso e acaba por me trazer os piores prêmios possíveis. Tal percepção sobre o fato de eu ter nascido com deficiência só veio a se transformar, preciso dizer, depois que conheci a Doutrina Espírita.

Sim, foi ao estudar o Espiritismo que eu deixei de me enxergar como uma pessoa sem sorte e passei a me ver como alguém que está a colher o que plantou. Ao passar a conhecer sobre a nossa condição de espíritos imortais e a reencarnação, compreendi que não importa se por prova e/ou expiação, se por livre escolha minha ou se por "sugestão", o fato é que passei a entender que ter nascido com deficiência não foi uma questão de sorte ou azar, e sim o reflexo das minhas necessidades de espírito aprendiz a caminho da evolução.

Tal consciência foi facilitando as coisas na minha vida, e fazendo nascer em mim o sentimento de gratidão a Deus. Um sentimento novo para a Malu de 16 anos - época em que comecei a ler sobre a Doutrina Espírita -, mas que um pouco mais forte agora, cresceu sobremaneira, dias atrás, quando novas informações sobre a Síndrome do Pterígio Múltiplo cruzaram o meu caminho. Lembram que no início do post eu comentei que a SPM se trata de uma condição extremamente rara, certo?

Então, o que a gente não sabia até agora, ou pelo menos não entendemos lá no Sarah, é que a Síndrome do Pterígio Múltiplo é uma doença genética que se manifesta em duas diferentes variações, e que estas, por sua vez, se caracterizam pela sua maior ou menor gravidade. Assim, não se trata de SPM ou Síndrome de Escobar, pois esta é, na verdade, a variação menos acentuada da doença, a forma mais leve da sua manifestação. Conseguem imaginar o sentimento que me envolveu ao ter acesso a esta informação?

Poxa vida, das duas formas de manifestação de uma Síndrome que caracteriza uma doença extremamente rara, eu nasci justamente com a forma que não é letal, com a que é ainda mais rara que a própria síndrome. Para explicar melhor o que estou tentando dizer, imaginemos um grupo de 100 pessoas... Destas, 5 nascem com SPM e, destas 5, apenas 1 nasce com a forma de SPM que ficou conhecida a partir de 1978 como Síndrome de Escobar; as outras 4 nasceram com a forma letal. Percebem, a partir deste exemplo, a bênção que foi eu ter nascido com esta condição?

"(...) Existem duas formas diferentes da síndrome do pterígio múltiplo, as quais são diferenciadas pela sua gravidade clínica. A forma letal é tipicamente fatal no segundo ou terceiro trimestre de gestação. Se a criança nascer, será natimorta ou morrerá no período neonatal precoce. (...) Já a síndrome de Escobar é a forma atenuada da síndrome do pterígio múltiplo. (...) Sua prevalência é desconhecida, mas sabe-se que é muito rara. A síndrome de Escobar é uma entidade muito rara, em meados dos anos 80 haviam sido descritos menos de 25 casos e em 2010 haviam sido descritos cerca de 100 casos a nível mundial. (...)".*

Hoje, depois de refletir sobre essa recente descoberta, eu percebo que nunca fui uma pessoa azarada, e que aquilo que no início do post eu chamei de minha sorte, nunca esteve de olhos vendados. A verdade é que desde o princípio as coisas aconteceram como deveriam acontecer. Eu poderia ter sido uma das 4 pessoas que nasceram com a forma letal da SPM, mas tive a bênção de ser a única que veio na condição mais atenuada... O que isso significa? Para mim, o óbvio: que Deus cuida de cada um de nós!!!

Fiquem com Ele!
Feliz semana!!!


♡♡♡

*Síndrome de Escobar - forma rara e atenuada da Síndrome do Pterígio Múltiplo: http://www.rbcp.org.br/details/2422/sindrome-de-escobar---forma-rara-e-atenuada-da-sindrome-do-pterigio-multiplo

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Os Privilegiados e a Tartaruga

Na vida, eu sou a tartaruga. Na história, ela venceu.
Enquanto tomava café hoje de manhã e pensava sobre o que escreveria, dei de cara com esta matéria no meu email. Basicamente, ela fala sobre as famílias que "mandam" no Judiciário amazonense, usando sua influência para alçar parentes a cargos públicos, incluindo funções de confiança com gordas gratificações. Recomendo a leitura da reportagem. Mesmo sabendo que o que está narrado ali não é nada de novo, eu não pude deixar de me indignar, especialmente porque os fatos envolvem o ramo do Direito, pelo qual me apaixonei há muitos anos e que acabou se tornando uma das minhas maiores decepções.

É natural que todos busquem o seu lugar ao sol. Por isso estudamos e trabalhamos, porque queremos subir na vida, chegar "lá", enfim; são muitos os sonhos a realizar. Infelizmente, querer não é poder. Uma das minhas professoras da faculdade dizia que é preciso querer, mas também fazer algo em nome do que se deseja. Teoricamente, ela tem razão. Porém, como na prática as coisas são diferentes, é bastante comum que mesmo as pessoas que se dedicam para obter algo não consigam realizar seu intento. Outras até conquistam seus objetivos, mas a duras penas, com muito sofrimento. E, claro, há a casta privilegiada, que tem Q.I ("quem indica") e sobe rapidinho a escada do sucesso.

A Malu já deve estar cansada de me ouvir reclamar do assunto. Quase todos os dias eu a lembro da minha opinião, de que para se dar bem é fácil, basta ser corrupto e sem vergonha. Hoje cheguei a rir comigo mesmo enquanto lia a matéria sobre o TJ-AM; se eu fosse filho de desembargador, com certeza já estaria com a vida resolvida, feliz; lamentavelmente, não tenho parentes que possam ser meu trampolim, então o que me resta é fazer sozinho. E a estrada é pedregosa. Estou esperando ser chamado no concurso em que passei, mas, fora isso, não consegui nada desde que me formei e já se foram mais de cinco anos. O que só é mais um ingrediente no caldo da minha depressão, como contei na semana passada.

Agora, pensem especificamente na situação de uma pessoa com deficiência nesse universo de interesses e de conexões. Se já não está fácil para os "normais", calculem para nós. "Ah, mas vocês têm as cotas nos concursos públicos", alguém diria. Mas não pensem que isso é grande maravilha. Para começar, eu preferia mil vezes ser capaz de trabalhar sozinho em algo que me sustentasse do que ter de apelar para concursos. Além disso, eu pelo menos trocaria, sem pestanejar, esse "privilégio" das cotas pela possibilidade de correr e pular. Cota é prêmio de consolação, não consigo ver de outra forma. 

A verdade é que não estou vivendo minha melhor fase e é difícil ver pessoas alcançando o sucesso através de meios escusos enquanto eu ando na linha e não faço mal a ninguém. Tenho buscado forças para seguir em frente, apesar do desânimo; em certos dias, como hoje, é complicado até de escrever, as ideias não fluem direito. Mais cedo, eu disse para a Malu que, se me colocassem em uma prova para competir com o filho de um dos desembargadores do TJ-AM, eu seria como uma formiga competindo contra um elefante; não que eu saiba menos ou porque não tenha estudado o bastante, mas não teria chances de vencer. Na verdade, eu me sinto mais como a tartaruga que enfrenta a lebre. Aliás, recentemente até desisti de prestar um concurso aqui no Ceará, porque um dos requisitos para ser aprovado na investigação social era ter uma carta de recomendação de um juiz ou promotor, por exemplo. Bem que eu podia ter nascido por aquelas bandas do Amazonas.

Querer não é poder, deve-se agir também. Eu geralmente penso que, mesmo agindo, ainda há a possibilidade de não alcançarmos nosso desejo. Porém, dizem que toda semente plantada germina; tento me agarrar a essa crença e fazê-la uma mola propulsora. Afinal, a esperança de realizar os sonhos é que me faz estudar, mesmo eu sabendo que não tenho cinquenta reais na carteira, apesar do diploma. É minha diminuta fé no sucesso que me faz vencer cada dia, por mais que na maioria deles eu me sinta pequeno e infeliz. Quero crer que sou apoiado por alguém muito maior do que parentes desembargadores. 

sexta-feira, 28 de junho de 2019

#AssimComoVocê: Corpos Têm Limites, Almas Não.

Imagem: Google 

Oi, gente!

Excepcionalmente hoje, numa sexta feira, o True Love traz mais um post da #AssimComoVocê. E, de antemão, a gente vai logo avisando: a participante da vez pode ser uma forte candidata à Rainha Demolidora do Preconceito!

Todavia, antes de dar voz à nossa convidada, permitam-nos uma pergunta: Vocês sabiam que hoje é celebrado o Dia Internacional do Orgulho LGBT? Não? Pois puxem a cadeira que lá vem história...

28 de junho. O que era para ser apenas mais uma dia comum no nosso calendário, ficou - a partir de 1969 - marcado para sempre como a data em que ocorreu não apenas uma das maiores violências cometidas contra a comunidade LGBT nos Estados Unidos, como também o dia que marcou o início da luta pelo respeito para com os homossexuais e o fim do preconceito.

Se vocês quiserem saber mais sobre o assunto e movimento que ficou conhecido como a Revolta de Stonewall, clica aqui, porque agora, e sem mais delongas, a gente vai passar a palavra para a Lee Brandão - cantor(a), bailarino(a), maquiador(a), drag queen e e militante PCD.

***

Foto: @leebrandao1

Os nossos corpos LGBTsPCD (pessoa com deficiência) ficaram aprisionados por anos nas sombras, nada mais justo que tomarmos espaços que também sempre foram nossos. Não são privilégios, são direitos!

Fala-se tanto de IGUALDADE, quando na verdade, essa mesma igualdade só cabe dentro de padrões.

Somos lindas, lindos, perfeitas e perfeitos à nossa maneira. Eu vivo, eu resisto e eu insisto!

Eu “performo” e informo que ser diferente é normal. Sou Lee Brandão, a primeira DragQueen com deficiência física de Brasília.

Os nossos corpos são limitados, mas a nossa alma NÃO!*

***

Texto retirado com autorização do Ig @leebrandao1. Entrei em contato com a Lee pelo Instagram, ela se dispôs a escrever um material exclusivo para o True Love, mas por motivo de força maior não foi possível, então ela autorizou esta repostagem. 

A você, Lee, o nosso muitíssimo obrigada pela participação no blog, mas príncipalmente por você ser mais uma voz a mostrar que somos todos iguais e que deficiências físicas não são limites para o (auto)amor.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Amor X Depressão

Foto: @fotografowesley
Edição: True Love

Os fatos que vou narrar a seguir se deram por volta de 1998. Naquela época eu e minha família estávamos vivenciando uma fase super complicada de luto, pois em menos de um ano e meio perdemos meus avós (o pai da minha mãe e o pai do meu pai) e meu tio (irmão mais velho do meu pai). Como não tínhamos o conhecimento consolador da Doutrina Espírita, então, à dor natural causada pela morte dos nossos entes queridos somou-se a aflição trazida pela incompreensão dos fatos. 

Foi aí que tu "deu" as caras e "abraçou" o meu pai.

Ele, que até aquele momento se mostrava um homem para o qual não havia tempo ruim, que acordava e levantava diariamente antes do sol para trabalhar, passou a ficar mais horas na cama de manhã. 

Essa foi a primeira mudança que tu "causou". 

Outras vieram com o tempo: Meu pai adoeceu, foi hospitalizado e ficou dias internado; quando voltou para casa, já não ia trabalhar, o que fez com que a minha mãe tivesse de assumir os negócios e a vó Maria (mãe da minha mãe) viesse passar uns dias com a gente para ajudar na rotina da casa. Não se falava muito sobre o que estava acontecendo, talvez pelo fato de eu e minhas irmãs sermos um tanto crianças ainda, mas como a taurina curiosa e observadora que sempre fui, eu sabia que a coisa toda ia além da necessidade do meu pai se recuperar do período no hospital.

Notei a gravidade da situação em um certo dia, pela manhã. Pai acordou mais tarde que o habitual, entrou no banheiro para tomar banho e demorou a sair. De início, confesso que não dei muita bola, mas notei que minha vó fez algo que até então nunca tinha feito: bateu na porta e o chamou. Eu não lembro se ele respondeu, mas recordo vivamente que ela repetiu a mesma atitude mais uma ou duas vezes. Até que, sem obter resultado, ela ligou para a minha mãe, que naquela hora estava no trabalho. Lembro de ouvi-la dizer no telefone algo mais ou menos assim: "Marta, faz tempo que o Chico entrou no banheiro, já chamei, mas ele não sai.". Acho que não precisou ela falar mais nada, porque logo desligou o aparelho e alguns poucos minutos depois a minha mãe chegou. 

Escrevendo sobre isso agora, percebo que a minha mãe tinha e tem, ainda hoje, a melhor "arma" para te derrotar.

Depois de insistir por algum tempo pedindo para o meu pai abrir a porta e deixá-la entrar, ela o convenceu. A partir daquele momento, os dois ficaram longos minutos no banheiro e, ao saírem, meu pai foi direto deitar numa rede que estava armada na sala. Minha mãe trouxe o café da manhã para ele e ao se certificar que estava tudo sob controle, voltou para o trabalho. Eu tinha 13 anos nesse período, mas ali percebi a preocupação temerosa nos olhares da minha mãe e da minha vó, e senti também um certo temor se apossar do meu coração. 

Novamente, eu não tinha ideia do que estava acontecendo, de por que meu pai estava passando o dia todo em casa, do seu olhar quase sempre abatido e avermelhado... Dias depois, quando minha mãe conversava com uma amiga no sofá de casa, ouvi pela primeira vez a palavra depressão. E foi aí que tudo começou a fazer sentido... 

Era tua a culpa do meu pai se encontrar naquele estado, então? 

Tu "parecia" ter muita força, me "fez" perder o sono muitas vezes, mas aposto que não "imaginava" que a "arma" da minha mãe te mandaria para longe, né?

Pois é, graças a Deus, ao apoio e ao amor da minha mãe, à nossa família, meu pai superou a si mesmo e a ti, dona depressão. Repito, não foi um período fácil, tu nos "fez" vivenciar momentos bem difíceis, mas também nos "trouxe" aprendizados valiosos, principalmente no que diz respeito à importância da fé, do amor e da união familiar. 

E agora, quando tu "teve" a audácia de cruzar o meu caminho novamente, eu quero e vou me esforçar ao máximo para colocar em prática todo esse aprendizado. 

Sim, eu estou me referindo ao Brayan e de antemão quero te deixar bem claro uma coisa: nossa luta não vai ter trégua e eu não vou desistir. Aprendi com a minha mãe a arte de manejar a "arma" que te vence, e pode apostar que dela eu não vou largar. Tu pode "ter" tua força e até mesmo com ela abraça-lo em alguns momentos, deixá-lo para baixo, revoltado e/ou desanimado, mas ele não está mais sozinho.

A cada influência perniciosa da tua parte, Brayan vai ouvir minha voz lhe falando sobre a grandeza da Vida, sobre o Amor de Deus por nós e a bênção que é a oportunidade de estarmos aqui

A cada abraço teu, o Grandão vai encontrar o meu colo e eu vou envolvê-lo tão forte, mas tão forte, que tu "vai" se sentir sufocada pelo meu calor e ensurdecidamente desconfortável pelas batidas do meu coração. 

Da mesma forma, se tu "tentar" beijá-lo, não vai ser diferente. Eu estarei com ele e tentarei fazê-lo sorrir - ainda que seja com as piadas bobas que eu nem sei contar - e quando isso acontecer, os teus lábios não mais conseguirão encontrá-lo.

Por fim, se mesmo com a gente te enxotando de todas essas e outras formas, tu ainda "tiver" a coragem de "tentar" levá-lo para longe de mim, eu não vou desistir. Calma e amorosamente eu vou pedir para ele parar um instante e olhar nos meus olhos. Vou lembrá-lo de todas as coisas que ele enfrentou e superou; de todas as lutas que ele travou e venceu. Vou, sim, quantas vezes forem necessárias, fazer ele recordar o acaso que nos uniu, os sonhos que a gente divide e a promessa que a gente se fez: nós dois. Juntos. Sempre. 

O Amor é a nossa arma. E o Amor te vencerá!

segunda-feira, 24 de junho de 2019

A Depressão em Mim: Algumas Causas

Foto: Gabriel Isak*

O post de hoje pode soar incoerente, considerando que, na semana passada, falei em sorrir para a vida. Mas eu sinto que preciso abordar esse assunto, até como forma de mostrar a vocês que nem todos os dias são felizes e que nem toda dor é visível. 

Eu só fui oficialmente diagnosticado com depressão e transtorno de ansiedade depois que iniciei o acompanhamento com psicólogo aqui na cidade. E olhem que eu já havia passado por outros profissionais. Não que eles fossem ruins; talvez eu não tenha me aberto o suficiente para que enxergassem o que se passava comigo já há alguns anos atrás. Porque isso me acompanha desde a época da escola, surgindo com força a partir do ensino médio. Tenho pensado sobre que razões me levaram a desenvolver essas doenças.

Poderia começar pela questão da autoestima, intimamente ligada à minha deficiência. Eu nunca me achei um mister universo; não me sinto muito satisfeito quando olho para o meu corpo no espelho; e sei que não posso fazer várias coisas que outras pessoas “normais” conseguem realizar. Dá para resumir tudo isso em um termo: sensação de incapacidade. Desde a escola eu via colegas e amigos namorando, enquanto eu sequer era notado pelas meninas; ao contrário, só levava foras e era colocado na odiosa friendzone. Ora, fui saber o que era dar um beijo na boca aos dezoito anos. Eu não me via no mesmo nível das outras pessoas e já ali comecei a me afundar, silenciosamente.

A par do quesito “amoroso”, o fato de eu ver meus colegas jogando bola na aula de educação física, ou correndo, ou simplesmente andando para onde queriam, já me causava uma certa inveja. Lógico que eu não queria que eles ficassem iguais a mim, sem suas capacidades; eu só desejava conseguir fazer as coisas normais que eles faziam. Mesmo assim, não posso falar em “inveja boa”, porque toda inveja faz mal. Me sinto estranho por ter esse sentimento no meu currículo, mas negá-lo seria hipocrisia. Então, eu me sentia inferior por ser rejeitado pelas meninas e também por não conseguir fazer muitas coisas.

Faltou acrescentar os diversos abandonos. Não lembro quantas vezes fui deixado sozinho nas salas de aula, porque ninguém podia me levar para as atividades no ginásio de esportes, ou mesmo porque fui esquecido como um saco de batatas. Também houve situações em que precisei de auxílio para ir ao banheiro e as pessoas que me levaram o fizeram reclamando ou até me arrastando com pressa. Isso quando eu conseguia ajuda; porque não era raro eu me urinar e ter de ficar disfarçando para ninguém perceber. Então, por tudo isso eu já não me sentia bem, e olhem que era só a época da escola.

As coisas não eram melhores em casa, por conta da convivência difícil com meu pai. As agressões contra minha mãe, que testemunhei desde pequeno, me causaram profundo impacto. Vi muita coisa que desejaria esquecer se pudesse. Eu não conseguia apaziguar o clima, nem era capaz de defender minha mãe quando ela sofria. Muitas noites fui me deitar com medo de vê-la sendo morta ou até de morrermos todos na mão daquele homem. Não posso negar que houve momentos felizes em família, mas meu pai era uma pessoa bastante difícil. Nós só começamos a ter um pouco de paz quando ele saiu de casa, logo que entrei na universidade.

Foi a faculdade que trouxe, a propósito, os problemas da vida adulta. Contas a pagar, compromissos a cumprir e, especialmente, a pressão pela aprovação. Eu sabia que carregava um grande peso. A começar pelo fato de que não poderia reprovar mais do que uma matéria, pois, do contrário, perderia minha bolsa do Prouni. Claro que eu jamais perdi um ano, nem na escola, mas agora era diferente; se eu pisasse na bola, podia dar adeus à minha vida profissional tão sonhada. Cumpri com minha obrigação e me formei com láurea, não sem ter de enfrentar as crises de autoestima e a sensação de inferioridade; os outros passaram a ser melhores do que eu porque tinham seus carros, seus status, seu dinheiro. Engoli o que sentia e, enfim, conquistei meu diploma.

Então cheguei ao mercado de trabalho e a desilusão me abraçou. Percebi o quanto o ramo jurídico é saturado e como ele pode ser sujo. Foram quase cinco anos advogando, sendo que arrastei os últimos dois por não ter alternativa. Antes de vir morar com a Malu, abri um pequeno escritório com meu irmão, no RS. Acontece que eu não conseguia clientes; os poucos que apareciam não tinham dinheiro. Eu não podia me sentir realizado fazendo algo que nem pagava as contas. Voltava todo dia para casa me sentindo derrotado; e ainda precisava tirar forças nem sei de onde para estudar para concurso à noite. Era doloroso aguentar tantos sentimentos ruins calado e ainda assim ter de ir trabalhar e manter uma rotina de estudo. Só Deus sabe quantas vezes pensei em acabar com minha vida.

Comecei a melhorar quando vim para o nordeste morar com a pequena. Descobri o espiritismo, obtive algumas respostas. Continuei estudando e passei em um concurso muito bom. Acabei cancelando minha OAB, por já não suportar a profissão e também em preparação para assumir meu cargo no futuro. Continuo esperando a abertura dessa vaga e sigo encarando as dificuldades financeiras, lidando diariamente com a sensação de ainda não ter realizado 10% do que planejei para antes dos trinta. Às vezes digo para a Malu que estou exausto, que não aguento mais. Queria que tudo finalmente se ajeitasse.

Eu me sinto deprimido há quinze anos e afirmo que é muito diferente de apenas ficar triste. Porque a depressão é literalmente incapacitante. Você perde a força de vontade, perde o ânimo para fazer as coisas do dia a dia, como tomar um banho ou fazer a barba. A vida fica sem graça. Nos casos mais graves, abre-se uma perigosa porta para o suicídio. Admito que já pensei em acabar com tudo, simplesmente para encerrar todo esse sofrimento, o que, com certeza, não funcionaria e só me traria uma grande dívida. Por essas e outras eu procuro ser forte quando as coisas ficam mais difíceis. Nem sempre consigo. Há dias em que choro abraçado com a Malu, quase pedindo socorro. O psicólogo e o psiquiatra têm me ajudado, mas o caminho para a melhora é longo.

Nós ouvimos no sábado, no centro espírita, que a depressão tem como causa a falta de fé, porque aquele que crê sabe que tudo passa e que Deus não dorme em serviço. Reconheço que estou no time dos descrentes. Geralmente não acredito que o cara lá de cima pode me ajudar; isso deve ser ingratidão da minha parte porque, sem uma intervenção superior, eu nem teria sobrevivido ao parto. O fato é que minha confiança já foi quebrada por um sem número de pessoas e eu já me desiludi com uma quantidade gigante de coisas. Isso me tirou grande parte da fé que eu suponho já ter tido. E, embora eu saiba que há gente em situações muito piores do que a minha, isso não faz com que eu me sinta melhor.

Preciso melhorar no quesito fé. O problema é que sou como São Tomé, que só acredita vendo. Tenho a forte necessidade de ver resultados, de perceber as coisas acontecendo; é importante para mim receber a recompensa pelo meu esforço. Malu diz que tudo está andando no ritmo certo e que, em breve, eu vou alcançar aquilo pelo que tanto já lutei. Quero muito que ela esteja certa. Não desejo passar o resto da vida afundado na depressão que, aliás, não é falta de trabalho e nem invenção de psicólogo, como muita gente pensa. Essa doença é séria e todos os que, assim como eu, são pegos por ela, precisam de uma dose redobrada de força de vontade. E de fé, não posso esquecer.

*Tristeza Sem Fim: Fotógrafo captura depressão em imagens poéticas. 



sábado, 22 de junho de 2019

M.d.B - A Melhor Versão de Mim Mesma

Nós.
Foto: @fotografowesley

Da mesma forma que no nosso calendário existem as marcações a.C (antes de Cristo) e d.C (depois de Cristo), eu posso dizer sem nenhum pudor que a minha vida se divide em antes e depois do Brayan. Sim, porque, sem medo de estar romantizando excessivamente o nosso dia a dia, hoje eu me pego fazendo coisas que antes eram inimagináveis para mim, e isso não porque eu não tinha uma pessoa ao meu lado, mas só e simplesmente porque me sobrava timidez e faltava coragem.

Brayan no seu post dessa semana comentou sobre o ensaio de fotos que a gente fez para comemorar o dia dos namorados. Sim, nós compartilhamos mais esta experiência, pipols, e tudo o que eu posso dizer a respeito dela se resume em: foi uma tarde divertida e incrivelmente inesquecível! Mas, antes que eu comece a detalhar todas as minhas impressões sobre ela, permitam-me contar como tudo aconteceu...

Foto: @fotografowesley

Foto: @fotografowesley

Estava eu bisbilhotando o Instagram, quando meu irmão compartilhou nos seus stories um post em que o amigo dele, Wesley Sousa, fotógrafo, anunciava uma promoção para o dia dos namorados. Eu não sei dizer o que me deu na hora, mas no mesmo instante chamei o Wesley no Whatsapp e fui catar mais informações. O fato é que não demorou muito para que entre as minhas perguntas e as respostas dele surgisse a ideia de uma parceria. Na hora eu contei para o Brayan e ele topou. Daí em diante, pronto... Eu que nunca tive uma ligação tão amigável com câmeras, clicks e flash, me vi ansiosa pelo dia em que o ensaio True Love (sim, a gente batizou as fotos) iria acontecer.

Marcado inicialmente para o dia 2 de julho, durante um fim de tarde, acabou que as coisas não saíram como o planejado - começou a chover no exato momento em que o Wesley chegou no local - e a gente só conseguiu fazer as fotos na semana seguinte, na quinta feira, dia 6. No fim das contas, o contratempo da chuva que tinha nos deixado um tanto contrariados, se revelou a melhor coisa que poderia ter acontecido. Minha mãe levou a gente para Jijoca, e fizemos as fotos na Chez Loran, uma das pousadas mais lindas daquela cidade. Aliás, quem vier para o Ceará e quiser conhecer toda a região de Jericoacoara, fica a dica de hospedagem. Vocês podem conhecer mais sobre a pousada pelo IG @chezloran_lagoadoparaiso.

Foto: @fotografowesley

Foto: @fotografowesley

Fotos: @fotografowesley
Sobre a tarde do ensaio, em si, o que eu quero deixar registrado aqui é: vivam uma experiência assim. Com o(a) seu(sua) namorado(a), com seus pais, com seus(suas) filhos(as), irmãos(ãs) ou melhores amigos(as), com o seu pet, enfim, não importa... O que vai importar mesmo e o que você vai adorar ver o resultado é o sentimento compartilhado e registrado em cada click, eternizado em cada foto, mas príncipalmente experimentado pelo seu coração.

Claro que em muitos momentos daquele ensaio eu fiquei morrendo de vergonha - tirar foto beijando na boca é algo que ainda me inibe... haha; mas, mesmo essa timidez nem chegou perto da alegria que eu senti por estar vivendo aqueles momentos com o Brayan e com a Nina; por ver a minha mãe ali com a gente - como sempre empenhada em realizar meus sonhos; por estar acompanhada de duas pessoas divertidas e despidas de preconceitos, coincidentemente dois Wesley's - meu primo e o fotógrafo.

Foto: @fotografowesley
Fotos: @fotografowesley
Sim, eu não posso deixar de reconhecer que tudo naquela tarde, somando o olhar e a sensibilidade do carinha por trás da câmera, contribuiu para que o ensaio True Love ficasse, como vocês podem ver nas fotos já postadas, perfeito! E, claro, eu só consigo perceber e afirmar isso hoje, com toda a verdade do meu coração, porque na minha vida se fez uma, ou melhor, a mais perfeita divisão: M.a.B e M.d.B. Quero dizer, hoje eu sou a Malu depois do Brayan, a mulher que o ama, que é amada por ele e, portanto, a melhor versão de mim mesma. Termino assim este post, com o coração cheio de amor e gratidão!

Obrigada, Brayan, por ser quem você é, por ser meu namorado e melhor amigo, pelo amor e a história que estamos construindo! Nina e eu te amamos muitão grandão, Grandão!

Obrigada Wesley pelas fotos e parceria incrível! Quem quiser ver nosso ensaio completo e conhecer todo o trabalho desse guri, clica aqui.

Obrigada mãe e Dedi por terem estado com a gente, pela zoeira e descontração que me deixaram super à vontade e ajudaram a fazer com que as fotos ficassem ainda mais lindas! Amo vocês!

Foto: @fotografowesley

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Sorrindo Para a Vida

Sorrindo, sem fazer força. Foto: @fotografowesley
A minha relação com as câmeras não é das melhores. Sou do tipo que tira cinquenta fotos e aproveita uma ou duas, no máximo. A verdade é que não sou fotogênico (Malu vai discordar). Meu próprio Instagram tem muitas fotos com a pequena e também dos cachorros, mas vocês não vão encontrar lá nenhum retrato só meu. Bem, até o ano passado eu nem estava usando o aplicativo; reativei apenas pelos vídeos engraçados que se tornaram uma boa distração. 

Uma das razões para eu não gostar muito de fotos é que acho difícil sorrir. Antes eu tinha vergonha por causa dos dentes tortos, que sempre detestei. Depois veio o aparelho ortodôntico e eu descobri que me sentia desconfortável com o sorriso metálico. Pode ser que agora, que estou tirando esse instrumento de tortura, depois de alguns anos, o sentimento de vergonha desapareça e eu me sinta mais à vontade. Ainda assim, o problema maior no momento de sorrir para fotos nunca esteve nos meus dentes, mas sim nos meus sentimentos.



Foto: @fotografowesley
Foto: @fotografowesley














Quero dizer, quando me apontam uma câmera e soltam aquele "diga 'xiiiiis'", eu preciso fazer um verdadeiro esforço. Fico com receio de sair sorrindo estilo "A Fuga das Galinhas". Isso pode ser falta de prática ou um reflexo do meu lado sisudo. Como a vida nos exige atitude, eu precisava encontrar uma solução, e tive uma ideia. Agora, quando vou ser fotografado, penso ou lembro de algo que acho muito engraçado; geralmente são besteiras que vi no Instagram ou algum conteúdo politicamente incorreto que recebi em outras redes. Sei que funciona bem, o sorriso aparece.

Diante desses problemas todos em tirar uma simples foto, quem diria que eu faria um ensaio fotográfico com a Malu, para o dia dos namorados? Nunca esteve nos meus planos bancar o modelo, até porque sei que meu físico não me favorece muito. Apesar disso, eu não senti nenhum medo quando a pequena anunciou a ideia. A razão principal, creio, é que nos importamos mais com o momento especial que nós viveríamos do que com a divulgação das imagens depois. Não havia preocupação de agradar aos outros. Assim como acontece durante o nosso dia a dia, a tarde do ensaio funcionou bem porque Malu e eu quisemos ser o melhor um para o outro. No final, é disso que se trata manter um relacionamento; apesar das imperfeições do corpo ou dos eventuais problemas emocionais, duas pessoas unidas de coração podem realizar coisas extraordinárias.

Minha aversão às câmeras é apenas um dos diversos preconceitos que a Malu vem me ajudando a quebrar. Nunca havia percebido o quanto já me limitei e como já carreguei pesos desnecessários. A gente tende a abraçar certos pudores que não servem pra nada além de nos tornarem infelizes, mas a vida pode e deve ser mais leve. Como aquela tarde maravilhosa em que, por diversos momentos, me esqueci que havia um fotógrafo captando a nossa alegria. 

Somos uma família. Foto: @fotografowesley



sexta-feira, 14 de junho de 2019

Dia dos Namorados - A Cliente Invisível

Feliz Dia dos Namorados. Foto: @fotografowesley
Afirmar que determinadas situações só acontecem conosco, pessoas com deficiência, pode parecer exagero ou até mesmo o  tão usual mimimi para algumas pessoas, mas, a verdade precisa ser dita e para tal realidade já não cabe mais nenhum tipo de desculpa: ainda existe, infelizmente, muito preconceito quanto o assunto em voga envolve pessoas com deficiência, namoro, sexo, casamento e mil outras questões afins. Acreditem, como PCDs, a gente aqui no blog fala sobre estes assuntos "de carteirinha", e eu trago hoje mais um episódio da série "ela namora?" para divertir e informar/conscientizar vocês.

Então... Brayan e eu moramos em Granja, uma cidade relativamente pequena, daquelas onde praticamente não se consegue guardar segredos. Todo mundo, de uma forma ou de outra, acaba sabendo algo sobre a vida de todo mundo. Assim, por este motivo, eu confesso que achava que a galera daqui já tinha assimilado o fato de eu ter um namorado, e consequentemente, ser a namorada de alguém; mas, eis que na última quarta-feira, dia 12 e também dos namorados, eu me deparo com uma situação desconcertantemente engraçada e que pode ter me revelado um grande e super poder: o da invisibilidade! haha

Saí de casa na manhã de quarta-feira com meu primo e a namorada dele para ir comprar um mimo para o Brayan. Passamos num supermercado, pegamos uns chocolates, petiscos, salgadinhos, e depois fomos a uma papelaria para comprar embalagens, laços, balões e montarmos tudo num baldinho personalizado. Logo que chegamos no local - meu primo me segurando a mão - a namorada dele, Raycha, que carregava parte das nossas compras, pôs todas sobre o balcão enquanto eu me dirigi à atendente e perguntei: "moça, você embala tudo pra gente?" Ela me olhou, respondeu que sim, e depois simplesmente não me enxergou mais...

Compramos papel celofane, lacinho, adesivo, utilizamos o serviço de impressão da papelaria, e mesmo estando o tempo todo muito claro que todas aquelas compras eram minhas e que a cliente era eu, a moça responsável pelo nosso atendimento se dirigiu o tempo todo a Raycha. Até na hora de calcular tudo, ela olhava e falava com a namorada do meu primo, como se não tivesse sido eu quem pediu para ela somar a conta. É estranho este comportamento dela para você que me leu agora? Para mim e outras PCD's, não. Na verdade, atitudes e comportamentos semelhantes são corriqueiros e quase o parâmetro do convencional.

Acho que na cabeça dela não pesou o fato de que a Raycha estava acompanhada do "seu love", e que seria no mínimo estranho ela comprar o presente do dia dos namorados  - porque era óbvio que era esse o motivo da nossa presença ali - na frente do mesmo. Ou pior, talvez para ela tenha soado mais aceitável, cabível, o Wesley - meu primo - acompanhar a namorada na compra do seu próprio presente, ajudar na personalização dele, do que eu ser a cliente, já que isso implicaria no fato de, consequentemente, eu ter um namorado. O olhar de estranhamento da moça era visível e só não foi mais gritante que o fato de ela ter me ignorado praticamente durante todo o atendimento.

Mas, o que mais me surpreendeu nesse episódio e de certa forma me deixou indignada comigo mesma foi a minha atitude. Eu poderia ter sido mais incisiva na minha postura, ter batido o pé no chão - sem fazer barraco, claro - e feito valer o atendimento que me era devido. Todavia, o que a Maluzinha fez? Bancou a egípcia e fingiu para si mesma que nada estava acontecendo. Sim, pipols, naquela hora eu ignorei o fato de estar sendo ignorada e simplesmente corroborei mais uma atitude preconceituosa, fortalecendo dessa forma ainda mais o paradigma de que pessoas com deficiência não namoram, que dia dos namorados não é uma data a ser comemorada por deficientes. Dá zero pra mim, dá!

Cheguei em casa naquela manhã e acabei dando risada ao compartilhar o ocorrido com o Brayan. Invariavelmente, e fazendo jus ao seu temperamento, ele ficou p. da vida com a moça da papelaria, mesmo eu salientando o fato de que muito provavelmente ela não fez nada por mal. E, sabem, eu acredito muito nisso. Claro que sei que muitas pessoas que alimentam preconceitos agem com maldade e até mesmo violência às vezes - as estatísticas dos crimes de homo/lgbt/xenofobia, feminicidio e racismo estão aí para comprovarem isso - mas sei também que muitas outras agem simplesmente movidas pelo desconhecimento e ignorância, sem nenhuma intenção de excluir ou maltratar ninguém.

É então por pensar dessa forma que eu acredito e valorizo muito o poder da informação, da educação e, principalmente, do compartilhamento do conhecimento. Não fossem estes fatores e todas as pessoas que lutaram por eles até aqui, a gente ainda estaria na Idade Média matando as crianças que nascessem com deficiência, seja por considerá-las demoníacas ou incapazes de viverem em sociedade. Mas, graças a Deus, não é mais esse o nosso caso. O ser humano progrediu, nossa sociedade evoluiu, e ainda que não tenhamos extirpado de nós o vício do preconceito, a gente tem o poder de fazer isso. É uma questão de exercício, de auto-compromisso.

No dia dos namorados eu tirei zero nessa tarefa, mas amanhã posso tirar dez, só depende de mim e do quanto eu me empenho em viver o (auto)amor.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Confissão - Malu Não é Meu Ideal de Mulher

Em breve, fotos inéditas.
Meus namoros anteriores não deram certo, principalmente, pela falta de afinidades. O normal, com pontuais exceções, é que as pessoas se aproximem por gostos comuns e, a partir disso, construam uma convivência, desenvolvam sentimentos. Eu era motivado mais pelo medo de ficar sozinho do que pelo desejo de crescer com alguém. Não espanta que tenha fracassado no campo amoroso até conhecer a Malu. A pequena que, aliás, ficou muito surpresa há duas noites, quando conversávamos esperando o sono chegar e contei a ela que nunca fui apaixonado por nenhuma das minhas ex namoradas. 

Essa constatação me veio de repente e só a essa altura do campeonato. É, sou o homem das epifanias. Relembrando meus relacionamentos do passado, percebi que cheguei, no máximo, a gostar de uma e outra daquelas mulheres. Um gostar como o que se sente por um amigo, aquele bem-querer simples. As outras que conheci não me despertaram nada além de um interesse físico, banal. Ouvindo essa revelação, Malu, conhecedora dos meus calos, me disse, com razão, que eu não poderia culpar minhas ex namoradas pelo sofrimento "amoroso" que experimentei por muitos anos. Acabamos concordando que o que mais me doía não era o coração, mas o orgulho, pelas inúmeras expectativas frustradas. 

E por que isso ocorria? Porque eu criava todo um sonho dourado quando começava a conhecer alguém. Com base em um ideal extremamente romântico, eu via as meninas com quem interagi como seres angelicais, puros e sem defeitos; cheguei até a pensar que algumas delas nem conhecessem um homem intimamente. Talvez fosse ingenuidade minha, mas pelo menos eu tinha intenções nobres. Naquele tempo, antes de me desiludir profundamente, eu cultivava o ideal da "princesa encantada"; queria me casar, formar uma família e alcançar o final feliz. Tudo era muito bonito na teoria, mas não poderia ecoar na realidade, porque eu jamais encontraria alguém que se amoldasse àquele arquétipo. De fato, minha busca foi infrutífera e por isso sofri. Eu me causei aquilo.

Mesmo a Malu, que é uma companheira maravilhosa, não atende ao modelo que eu imaginei no passado. Não porque ela esteja abaixo do que eu sonhava encontrar, mas pelo contrário; a pequena superou o ideal que eu construí. Ela é muito melhor, porque é real, simples assim. Seus defeitos não minam nossa convivência; quando é preciso, nós conversamos e acertamos os ponteiros. Além do mais, eu mesmo não sou fruta sem caroço, tenho muitas coisas a trabalhar e estou ciente disso. O que nós dois fazemos é administrar o nosso relacionamento, acertando, errando, porém sempre dispostos a permanecer juntos. Só esse detalhe já torna o nosso namoro completamente diferente de tudo o que vivi antes. Eu apenas "gostei" de uma e outra, e nem com essas eu tinha a intenção de levar o sentimento a outro nível. Nunca amei antes da Malu.

A propósito, jamais tive nenhuma chance com as meninas por quem fui, de fato, apaixonado. Esse detalhe contribuiu para me desiludir. Paixão platônica é algo que incomoda bastante, mas não passa de fogo de palha, porque falta o fundamento, falta o desejar o bem do outro acima do nosso próprio. Apenas o amor pode despertar isso. Aquelas por quem me apaixonei foram as que pensei serem as princesas encantadas do meu sonho. Suponho que, se eu tivesse sido correspondido por alguma delas, seria grande a chance de me decepcionar assim que descobrisse seus defeitos naturais. É estranho admitir isso, mas foi bom levar aqueles foras. Até porque, não fosse por eles, eu talvez não tivesse conhecido a Malu.  

Estou feliz ao lado da minha baixinha. Sou apaixonado por ela e também a amo de coração; não há qualquer antítese nisso. Temos momentos de discordância, porém nenhuma delas é maior do que o nosso sentimento. Sei que preciso melhorar em muitos aspectos, principalmente no quesito "contar mais com a Malu", porque tendo a guardar muitas coisas para mim e quase sempre tento superar as adversidades sozinho, achando que sou um super-herói. Devo lembrar que não estou mais só e que posso dividir eventuais fardos com a minha companheira.

Malu, quero merecer sempre o seu amor e a sua confiança. Me empenho para ser um bom namorado; você diz que eu sou, mas isso não me tira a consciência de que erro e preciso me trabalhar. Quero te agradecer por tudo o que faz por mim, especialmente por nós. Você é paciente, sabe ouvir e aconselhar. Está sempre me incentivando a ser forte e vencer as batalhas. É uma amiga fantástica que me conhece como ninguém e que tem a minha confiança. Eu te amo muito!

Quando eu era solteiro, o dia dos namorados era uma data triste em que as minha frustrações ganhavam eco. Tinha inveja de quem podia comemorar e me revoltava por não ter alguém. Entendo que me faltava maturidade. Relacionamento tem a ver com trabalho diário, sobre si mesmo e em relação aos defeitos do outro; envolve ceder muitas vezes, em vários sentidos; acima de tudo, relacionar-se com alguém é ter a consciência de que a vida ganha mais um sentido, mas que ele não precisa ser o único nem o principal. 

Feliz Dia dos Namorados, adiantado. 

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Não, ele não me diz "não"!

Imagens Google
Mesmo a gente tendo discutido na noite anterior, ainda assim ele topou acordar cedo num domingo e ir comigo para aquela que foi a segunda palestra musical da Liz e do Alex no centro espírita que a gente frequenta.

Apesar de ter me dito várias vezes que não lida muito bem com crianças, ele planejou e participou diretamente de todas as atividades da Obra que a gente desenvolveu junto aos pequenos - contou histórias, liderou jogo em rodinha de conversa, distribuiu brinquedos...

Mesmo sendo um realista confesso, ele aceitou elaborar e proferir uma palestra sobre Combate à Violência Contra a Mulher e se tornou o queridinho da mulherada que participa das atividades que a gente desenvolve.

Apesar de estar há pouco tempo no Espiritismo, ele não se fez de rogado e aceitou compartilhar comigo a responsabilidade de fazer uma palestra no Centro Espírita que fica numa cidade vizinha. Detalhe: ele até então não conhecia ninguém lá...

Recentemente, quando eu estava fazendo tratamento para curar uma crise de sinusite, ele foi sozinho para o Bazar Beneficente. Com dois dos nossos amigos, passou a manhã vendendo roupas usadas e faturou a grana super necessária para as nossas futuras atividades da Obra Social Maria de Magdala.

Eu poderia escrever mil outros parágrafos relembrando situações parecidas que a gente vivenciou nestes quase três anos que moramos juntos, mas acho que estes são o suficiente para mostrar o quanto o Brayan faz acontecer a parceria e a cumplicidade do nosso relacionamento.

Em nenhum dos momentos que eu citei o Grandão tinha qualquer obrigação de me acompanhar, afinal todas aquelas atividades diziam respeito a projetos meus. Mas, ainda assim, ele nunca me disse "não", e se fazendo presente nelas, me mostrou que para ele, também, agora somos nós.

E, confesso, pra mim que morria de medo de viver um sentimento não recíproco, é lindo e gratificante perceber isso! Digo, perceber que mais que namorados, Brayan e eu nos reconhecemos amigos, parceiros... Cúmplices no Amor e na Vida!

Te amo, meu anjo!

Antecipadamente, feliz dia dos namorados!

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Epifania no Divã - Intenções e Resultados

Imagens Google
Faço acompanhamento com psicólogo desde o ano passado, através do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) aqui da cidade. Após um período sem atendimento na área, voltei a me consultar com o Dr. Fábio e tornamos a conversar sobre os diversos assuntos que me tiram a paz. É sempre uma sensação de alívio desabafar com ele e os encontros mensais têm se provado positivos. Lógico que tenho sempre a Malu para conversar (e ela me ajuda muito), mas o psicólogo oferece uma abordagem específica a determinadas questões. Então, posso dizer que estou recebendo apoio dobrado para enfrentar a depressão e cia.. 

A última consulta com o Dr. Fábio trouxe à tona, novamente, as questões familiares, os traumas, as situações mal resolvidas, enfim. Em dada altura, contei que pretendo "me acertar" com algumas pessoas, entre familiares e amigos; que é da minha vontade sentar e conversar com elas, sem brigar, apenas para falar dos meus sentimentos com relação a alguns fatos pretéritos. Minha intenção é apaziguar ânimos, restabelecer laços e seguir a vida de maneira mais leve. O Dr. Fábio me disse, com razão, que eu estou esperando um pedido de desculpas dessas pessoas; porém, me alertou para o fato de que essas desculpas podem não vir a ocorrer. Isso porque, se e quando eu tiver essas conversas, as pessoas em questão podem simplesmente pensar que agiram de maneira correta e que não me devem qualquer escusa. 

Foi uma epifania. De repente, percebi o risco que estou correndo ao alimentar essa expectativa. Se não me pedirem perdão pelos erros cometidos, eu certamente criarei uma nova mágoa com esses familiares e amigos, agora pelo fato de não terem se desculpado. Como detesto injustiças, entenderei que eles não merecem a minha presença em suas vidas; e me fecharei, seguindo minha tendência. Notem que a intenção inicial, tão positiva, geraria resultados lamentáveis para os envolvidos. E tudo por causa de uma expectativa criada e apoiada em concepções pessoais, sem levar em conta os limites morais de cada um. Isso é perigoso.

Não que eu seja alguém superior, mas modifiquei muitas concepções desde que cessou a minha convivência com aquelas pessoas. Sou um homem diferente, mas não posso garantir que meus familiares e amigos do passado tenham, também, mudado, nem que o fizeram para melhor. Pode ser excesso de otimismo acreditar que, com uma conversa, tudo estará magicamente resolvido entre mim e aqueles que me feriram. Por isso, o alerta do Dr. Fábio foi pontual; preciso, desde já, compreender que não há nenhuma garantia de desculpas; pode até ser que nem queiram falar comigo. Esses dias, em um momento em que nos desentendemos (acontece), a Malu disse que, às vezes, parece que eu vivo em um mundo de anime, de filme ou série, onde as coisas ocorrem de um jeito especial. Ela quis dizer que eu preciso encarar a realidade da vida, e nisso creio que ela tem razão.

Outro ponto importante da última consulta foi a constatação, outra vez, de que acumulo responsabilidades que não me pertencem e de que me preocupo com coisas que merecem apenas a atenção de outras pessoas. Isso provém da minha necessidade de controle, gosto de estar no comando, o máximo possível; quando sou pego pelas aleatoriedades, me sinto perdido. E fica sempre muito claro, não apenas nas consultas com o Dr. Fábio mas no dia a dia mesmo, o quanto eu sofro por problemas que nem são meus. A velha mania de ajudar quem não quer se ajudar, o antigo hábito de fazer o esforço que fulano devia fazer. Isso sobrecarrega uma pessoa; eu mesmo já perdi quase todo o cabelo. Decidi que vou melhorar nesse aspecto; é "a cada um segundo as suas obras" e paciência.

Posso ter boas intenções quando desejo restabelecer laços e também quando acumulo responsabilidades alheias. Mas isso não basta para viver bem e pode fazer, pelo contrário, muito mal. Preciso entender que cada pessoa, incluindo eu mesmo, tem as suas limitações, especialmente as morais. Se alguém não se trabalha para reconhecer os erros cometidos e melhorar seu modo de agir, que me resta além de lamentar e aceitar? E, de que adianta sofrer por problemas que devem necessariamente ser resolvidos pelo outro? O nome disso é autossabotagem, escrito emendado por causa da reforma ortográfica.

Eu disse para a Malu, nesse fim de semana, que prefiro me orientar por resultados em vez de intenções. Mas percebo minha incoerência. Foco apenas na minha intenção de reatar laços e esqueço que os outros têm limites e livre arbítrio; priorizo problemas que podem/devem ser resolvidos por terceiros e negligencio minha própria paz de espírito. Em ambos os casos, dou mais importância justamente à minha intenção (reconciliar/ajudar) do que aos resultados práticos (pessoas podem nem querer ver a minha cara/podem se acomodar com meu auxílio). 

Bem, reconhecer um erro já é algo positivo. Vêm sendo importante o apoio da Malu e a orientação do Dr. Fábio. Nem sempre se pode lidar com as coisas sozinho. E, por mais que meu ego se contorça diante dessa afirmação, não posso negar sua verdade. Me cabe continuar me esforçando, porém de maneira correta. Nada de expectativas irreais; nada de carregar nas costas quem pode andar. 

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Morte - Um Ponto de Vista

Imagens Google

Falar sobre a morte é difícil, né? Eu mesma confessei algumas questões existenciais relacionadas a este assunto no meu post anterior (para lê-lo, clique aqui), quando fiz menção ao medo que tenho de perder meus pais. Pois é, vejam que mesmo espírita e acreditando na vida além do corpo físico, minhas crenças não me tornaram imune aos sentimentos de aflição que tal experiência ainda provoca na maioria de nós. Fazer o quê?!

Antes de continuar escrevendo o que tenho em mente para o texto de hoje, quero esclarecer duas coisas: primeira, esse post não se trata do desabafo de uma fã, uma vez que eu só ouvi falar dele ano passado quando a música Jennifer estourou; segunda, não tenho nenhuma intenção de explorar o fato para atrair público para o blog. Ao mencionar a fatalidade que provocou o desencarne de Gabriel Diniz, quero apenas trazer, como sempre, algumas reflexões.

Vocês me acompanham?

A verdade é que é sempre um choque quando algo assim acontece né... De repente a gente abre um site qualquer ou rola o feed de uma rede social, e dá de cara com a notícia que fulano morreu num trágico acidente. Foi bem assim que aconteceu comigo, Brayan e, imagino, a maioria de vocês. Ficamos chocados ao saber que o autor da Jennifer havia morrido. Tão jovem... Tão de repente... Um fato muito triste, todos pensamos e sentimos.

Naquele dia e no posterior eu vi e ouvi vários comentários a respeito. Nara, minha irmã, me enviou um texto escrito pelo Fabrício Carpinejar onde ele escreveu sobre a dor da namorada do Gabriel e o fato de que ela nunca vai comemorar seus 25 anos. Brayan fez comentários revelando que não entendia o porquê de fatalidades assim acontecerem com pessoas bacanas. Tanta gente ruim no mundo e só as boas vão - ele e meu irmão falaram isso quase que por uma boca só...

Realmente, é complicado de entender e, principalmente, aceitar, o que percebemos como injusto. Mas, e se buscássemos outra forma de percepção?

Discorrer sobre este tema, morte, e analisá-lo sob a ótica da justiça, exige uma sabedoria e autoridade moral que eu, Malu, não tenho. Por isso, vou me abster neste ponto e tentar falar sobre ele abordando a questão da necessidade e a perspectiva proposta pela Doutrina Espírita. Como assim "necessidade", guria, endoidou? Quem neste mundo tem necessidade de morrer?  E o que isso tem a ver com o Espiritismo? - vocês podem estar se perguntando.

Vamos por partes...

Uma analogia muito comum no meio espírita compara a vida na matéria com quatro tipos de experiências: a de estar num hospital, estar num presídio, numa escola ou numa oficina de trabalho. Em hospitais estão os doentes, certo? Num presídio estão os que cumprem pena. Numa escola, os alunos. E, por fim, numa oficina de trabalho, temos trabalhadores. Captaram a reflexão proposta por esta analogia? A partir dela, vale meditar por alguns momentos e responder para nós mesmos: em que situação eu me encontro - doente, preso, aluno ou trabalhador?

Observando, então, a nossa vida física sob tais pontos de vista, a chamada morte pode passar a ser encarada como uma espécie de cura (sair do hospital), ou o voltar à liberdade (cumprir a pena e sair do presídio), ou uma colação de grau (fim do período escolar) ou, ainda, a promoção no emprego (sair da oficina). E foi justamente por isso que anteriormente, em um dos parágrafos acima, eu me referi a necessidade.

Por que alguém que passou por todas as aflições e dores que uma doença traz e felizmente sarou ficaria por vontade própria no hospital? E, mais, o que pensaríamos do médico que mesmo depois de ter visto o seu paciente curado, não lhe desse alta? E o aluno que passou com louvor em todas as séries da escola, por que haveria ele de ficar lá indefinidamente? E que diretor insensato seria o que tirasse dele a possibilidade de progredir, certo?

Sigamos na mesma linha de raciocínio...

Por mais horrendo que tenha sido o crime de uma pessoa, se esta ficou no presídio o tempo necessário ao cumprimento da pena fixada pelo juiz, qual a necessidade de mantê-la trancada atrás das grades? Qualquer diretor penitenciário seria tido como tirano se fizesse algo parecido com alguém, imagino. E quanto ao trabalhador dedicado, que obedeceu e serviu à oficina fielmente por todo o tempo previsto no contrato, este não merece férias ou uma promoção?

O que quero dizer com tudo isso, gente, é que a morte perde aquele ar trágico quando nós passamos a enxergá-la como um fato necessário a determinado momento das nossas vidas.

Com exceção do suicídio, que ocorre quando a pessoa decide tirar a própria vida, a experiência do morrer consiste exatamente, e na maioria das vezes, em viver o que nos é necessário, justamente no instante em que mais precisamos. Quando acontece de não ser a hora, a gente não morre, e isso eu digo por experiência própria... Ou vocês acham que se em 2012 fosse necessário o meu desencarne, eu teria voltado depois de ter tido uma parada respiratória que durou cerca de 6 a 7 minutos? Desfibrilador nenhum teria conseguido me fazer voltar... haha

Bom, para não alongar o post, eu quero deixar bem claro que vou entender se para alguns ou todos vocês eu tiver escrito muito e não dito nada, afinal este texto é bem subjetivo  uma vez que falo sobre algo que está totalmente ligado às minhas crenças particulares. Mas, se algumas destas linhas clarearem os anseios de compreensão ou as dúvidas de quem quer que seja, eu já vou me dar por feliz. No mais, que cada um de nós alimente aquilo que nos traz serenidade e paz ao coração.

E, ao Gabriel, bem como aos demais envolvidos no acidente e aos seus familiares, todo Amor e Luz!